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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Bibliofilia 226

 


A alguns poderá parecer quase um sacrilégio eu escrever que não aprecio, grandemente, a poesia de Antero de Quental (1842-1891), talvez por ele ter ficado a meio caminho entre pró-filósofo (a que não chegou) e poeta pouco inspirado, para o meu gosto. Fiz, no entanto, um esforço por ler toda a sua poesia.



E um dos últimos livros que li foi o póstumo (1892) Raios de Extincta Luz, que Teófilo Braga editou em Lisboa. O meu exemplar encadernado em meia francesa encontra-se em excelentes condições. Comprei-o na rua do Alecrim, nº 44, ao sr. Tarcísio Tindade, por Esc. 2.800$00, em finais do século XX. 



Esta primeira edição de Antero de Quental não aparece muito à venda, em leilões ou alfarrabistas. Os últimos exemplares foram vendidos por 50 e 140 euros, também encadernados, já no presente século.

quarta-feira, 13 de março de 2024

Bibliofilia 211

 

Serão hoje de pouco uso os dicionários e enciclopédias, facto visível até pelo baixo preço que atingem em leilões e alfarrabistas, e pelos sites muito diversos que os foram substituindo nas novas tecnologias. Rafael Bluteau (1638-1734) e António de Moraes Silva (1755-1824), no entanto, ainda são nomes importantes e respeitados, sendo que o dicionário iniciado pelo primeiro, e reformado e acrescentado pelo segundo, editado em Lisboa, no ano de 1789, por Simão Thaddeo Ferreira, merece ainda crédito por ter sido a primeira sistematização moderna do léxico da língua portuguesa.
O meu exemplar em perfeito estado de conservação foi comprado por Esc. 8.500$00, em finais dos anos 80 do século passado, na rua do Alecrim, nº 44, ao sr. Tarcisio Trindade (1931-2011). Embora os dois volumes, juntos, não estejam encadernados, estão capeados em papel da época e de fino gosto, como se pode ver, abaixo.



terça-feira, 18 de outubro de 2022

Teimosias

 


Na banca do Chiado o fora de série (nº 112), de L'OBS, dedicado a Marcel Proust (1871-1922), chamou-me a atenção e tentou-me. Eu bem sabia que os sete volumes (do Em Busca do Tempo Perdido), da Livros do Brasil, traduzidos pelo brasileiro Mário Quintana (1906-1994) me aguardavam leitura na estante, desde finais do século XX. Sei da data de aquisição, pelo valor ainda em escudos (2.800$00) e os algarismos disciplinados e elegantes, denunciando a letra de Tarcísio Trindade (1931-2011), alfarrabista memorável a quem os comprei, na rua do Alecrim. Proust está porém na boa companhia de Hermann Broch e Alfred Döblin, grandes romancistas, mas cujos livros também nunca consegui ler até ao fim...


Lá trouxe pois da banca este Hors Série, na remota esperança de que a revista (98 páginas), profusamente ilustrada e com colaborações promissoras, funcione como aperitivo e alento para, mais uma vez, reencetar a leitura desta obra-prima de Marcel Proust.

 Oxalá!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Últimas aquisições (30)

 


No local próprio foram estas, literalmente, as últimas aquisições (com mais um livro de Unamuno e outro sobre os marechais, em francês, do tempo de Napoleão Bonaparte), que fiz, ontem, na rua do Alecrim, nº 44. Bernardo Trindade fechou as portas da sua singular loja de alfarrabista. As razões não será necessário explicá-las. A legislação sobre as rendas, de uma antiga ministra abonecada, foi só o começo...
Durante cerca de 40 anos, primeiro com o pai (Tarcísio Trindade, alcobacense ilustre) à frente do negócio, e nos últimos anos com o filho dirigindo a loja, o local era um sítio de eleição e, muitas vezes, de encantamento para mim. Uma boa parte dos melhores e mais interessantes livros da minha biblioteca foi lá adquirida e a preços justos.
Ao Bernardo Trindade, o meu abraço cordial de amiga solidariedade.







terça-feira, 19 de maio de 2020

Bibliofilia 146


Nesta sua obra, A Journal of the Plague Year (1722), de Daniel Defoe (1661?-1731), vêm contabilizados 1.998 óbitos, em cerca de um ano de peste, na cidade de Londres. O livro foi um sucesso de venda e teve inúmeras reedições.
O meu exemplar é uma edição cuidada, de 1848, adornado de finas gravuras e em bom estado de conservação. Com introdução de Edward Wedlake Brayley, o volume terá pertencido a um provável cidadão irlandês, de nome J. J. O'Keeffe, que por cá andou emigrado.


Assim começa Um Diário do Ano da Peste, publicado, inicialmente, anónimo:

"Foi  por alturas do início de Setembro, 1664, que eu, bem como o resto dos meus vizinhos, ouvi dizer numa conversa banal que a Peste tinha voltado, outra vez, à Holanda; e que tinha sido muito violenta por lá, particularmente em Amesterdão e Roterdão, durante o ano de 1663, embora falassem que ela teria sido trazida, segundo uns de Itália, outros do Levante e ainda outros que teria vindo com a Armada Turca; outros afirmavam que da Cândia; outros ainda de Chipre.
Não importaria muito donde veio; mas todos concordavam que ela tinha chegado à Holanda, mais uma vez." [...]

Com encadernação original do editor, William Tegg, & Co. (Londres), em cor verde, a obra, por volta de 1980, custou-me Esc. 380$00. E creio que foi um bom preço, que o sr. Tarcísio Trindade me fez, na altura.



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Bibliofilia 143


A bibliofilia escora-se, mais tarde ou mais cedo, em obras sólidas, quando não eruditas, que podem apoiar impressões pessoais nossas anteriores, vagas percepções, informações avulsas, mas também gostos e convicções que se vão tendo com os anos. Acrescem a prática e os conhecimentos adquiridos. Este Manual Bibliographico... elaborado por Ricardo Pinto de Mattos, funcionário da Biblioteca Pública do Porto, mas revisto e prefaciado por Camilo, é uma fonte rica de informações diversas, e até preços, de livros pouco frequentes e importantes.
No prefácio, Camilo aproveita para fazer o panegírico de outro grande conhecedor e bibliófilo nacional, a quem muito se deve - Inocêncio Francisco da Silva.


Esta obra conceituada de consulta editada pela Livraria Portuense, em 1878, adquiri-a usada ao livreiro Tarcísio Trindade, por volta de 1990, por Esc. 7.800$00, numa altura em que os livros de referência ou pouco frequentes tinham valor seguro, estável, quando não crescente. O volume (584 páginas) pertencera, como se pode ver pelo ex-libris, a Sebastião Alberto Centeno Fragoso, que foi médico e publicista, bem como foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada, em 1946. E o livro está bem encadernado.


Exprimi, ainda não há muito tempo, a ideia e convicção, aqui pelo Arpose, que o livro usado, exceptuando obras raras, tem vindo a baixar de preço, de forma concreta e sustentada. Foi por isso que não me surpreendi excessivamente ao constatar que a Livraria Ecléctica leva a efeito um próximo leilão Online, de 31/1 a 6/2/2020, em que esta obra de referência tinha uma base de licitação de 11 euros, quando, aqui há 4 ou 5 anos, dificilmente os lances, sobre este título de bibliografia, se iniciavam por menos de 50...

terça-feira, 23 de abril de 2019

Bibliofilia 174


Dia Mundial do Livro - dizem. E dos Direitos de Autor, que se celebram hoje, convencionalmente.
Ora, o livro mais antigo, que eu tenho na minha biblioteca, é ainda do século XV, porque a sua data de impressão é de 1600, considerado o último ano desse século, para efeitos de demarcação, no tempo.
Trata-se de Primeira Parte das Chronicas dos Reis de Portugal, de Duarte Nunes de Leão, impresso em Lisboa, por Pedro Craesbeeck. Uma primeira edição que Tarcísio Trindade (1931-2011) anotou, a lápis, de "raríssima", na sua caligrafia limpa e característica. Ao invulgar volume, falta-lhe infelizmente a folha de rosto e o índice, o que desvaloriza o livro. Mas a obra, de resto, está perfeita e íntegra de texto.
Contextualizando. Por alturas do mês de Julho, nessa época, e depois de receber o subsídio de férias, eu costumava acompanhar, minuciosamente, a entrada de livros, na rua do Alecrim, nº 44, para seleccionar uma obra mais cara e rara, a que a minha bolsa, mais bem recheada, se podia permitir. Depois, desencadeava a pergunta sacramental, que apenas uma vez por ano pronunciava: Sr. Trindade, qual é o menor preço que pode fazer a este livro?
Foi assim que adquiri, alguns dos livros mais importantes da minha biblioteca tais como as Definições e Estatutos...da Ordem de Christo (1628), também impresso por Pedro Craesbeeck, uma rara primeira edição de Rubén Dário, com dedicatória, de 1897, El Parnasso Español... (1652), de Quevedo, a edição original de Clepsydra (1920), de Camilo Pessanha, e alguns, poucos, mais.
Paguei pelas Chronicas..., em 1990, Esc. 15.000$00, ao sr. Tarcísio Trindade. O livro pertencera, anteriormente, ao advogado Abel Maria Jordão Paiva Manso, conforme ex libris. Recentemente (2017), a mesma obra, mas totalmente íntegra, estava à venda num conhecido livreiro-alfarrabista lisboeta, por 1.400 euros.
E esta é a minha história bibliográfica para o Dia Mundial do Livro que, hoje, se celebra.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Bibliofilia 129


Há quem caracterize os seus versos como maviosos, mas também já o dão, na segunda metade do século XIX, como poeta esquecido. Inocêncio (Vol. III, pg. 25) refere: "Como poeta lyrico pertenceu á eschola francesa; os seus versos são em geral sonoros e bem fabricados, e de certo lhe não faltava naturalidade. ..."
Notícias mais actualizadas ( João Daun e Noronha, 1930) registam o nascimento de Francisco de Paula Medina e Vasconcellos, na Ilha da Madeira, a 21 de Novembro de 1768, e o seu óbito na Ilha de Santiago (Cabo Verde), para onde fora degredado, em 16 de Julho de 1824. Por duas vezes foi preso, mas não se sabem as razões. Frequentou a Universidade de Coimbra e exerceu a profissão de notário no Funchal. Aí foi preso, tendo mulher e filhos a seu sustento. Ao longo da sua vida publicou vários livros em verso, sendo Zargueida (1806), poema épico sobre o descobrimento da Ilha da Madeira, a sua obra mais conhecida.
O meu exemplar, encadernado em carneira e a precisar de restauro, encontra-se em estado razoável. Comprei-o a Tarcísio Trindade (1931-2011), na rua do Alecrim, por volta de 1995, por Esc. 8.500$00, porque é obra rara. Cinco anos antes, em Abril de 1990, a Livraria Artes e Letras tinha vendido um exemplar semelhante, mas em pior estado, por Esc. 4.000$00. José Manuel Rodrigues (Livraria Antiquária do Calhariz), no seu leilão nº 68 (lote 528), tinha outro exemplar que foi arrematado por 90,00 euros, em Outubro de 2006. Finalmente, o alfarrabista Luís Gomes, em leilão da Veritas, a realizar no próximo dia 16 de Dezembro de 2015, insere mais outro exemplar (lote 213), também da edição de 1806, com uma estimativa de venda entre 300,00 e 500,00 euros. Como se vê, pela evolução dos preços, a cotação de Zargueida, de Medina e Vasconcellos, mantém-se em preços altos...


Em tempo:
o catálogo da Livraria Castro e Silva tinha, em Setembro de 2021, um exemplar à venda por 900 euros.

terça-feira, 24 de março de 2015

Cuidar dos vivos ou em louvor da memória e de A. V.


Eu, que me gabo, às vezes, de ter boa memória, ficava de rastos quando dialogava com A. V. (1938). Conheci-o, vai para 30 anos, no número 44, da rua do Alecrim, talvez por um comum amor aos livros. Eu ouvia, Tarcísio Trindade fazia pequenas observações, A. V. discreteava, fluente, sobre a vida cultural do século XX - enchendo a livraria de histórias. Datas, pequenos ditos, citações nobres, tudo parecia rejuvenescer das suas palavras - era um homem de peso: pelo vulto e pelo que sabia e nos lembrava.
Açoriano notório, excepto pelo sotaque, era generoso na partilha, afável na sua amena truculência medida, e deixava-nos, quase sempre, alguma pérola fulgente, ou alguma nota de humor urbano, para trazer para casa. Hoje, e no jornal Público, li, com imenso gosto e proveito, mais uma das suas crónicas exemplares. Desta vez, era sobre o Orpheu. Diz ele: "...O Orpheu projectou-se no grupo e na geração da Presença, nos Surrealistas, nos neorrealistas, nos Cadernos de Poesia e em sucessivos outros movimentos literários até aos nossos dias."
Só há uma coisa, nesta citação, em que não estou de acordo com ele: na referência à Presença. Embora estimável, foi um movimento literário retrógrado (pelo menos, conservador), em sentido restrito e não pejorativo, que colhia raizes bem para trás de Orpheu.
E, já agora, como não o tenho visto, com seis dias de atraso, lhe envio os Parabéns, meu caro A. V. - se me vier a ler. Até sempre!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bibliofilia 44 : Tarcísio Trindade


Morreu há dias, pouco depois dos idos de Março, com quase 80 anos, em Lisboa, mas era natural de Alcobaça. Era um homem que cultivava alguma distância, na sua extrema afabilidade educada. Profundo conhecedor dos mistérios e meandros da bibliofilia, Tarcísio Campos Trindade (1931-2011) desencantou das traças da antiguidade, em 1965, o primeiro incunábulo escrito em português (Tratado da Confisson, 1489) que manteve a sua posição primeva até que, em 1996, João Alves Dias nos deu a conhecer o "Sumario das Graças", impresso por volta de 10 de Abril de 1488. Desde os anos 70 que Tarcísio Trindade tinha casa aberta (até tarde, normalmente) na Rua do Alecrim, nº44, em Lisboa. Era um local de encantamento e descoberta para quem gostasse de livros. Lá conheci António Valdemar e Joaquim Braga, por lá passou, muitas vezes, Pina Martins, lá aparecia, e cavaqueava, Artur Anselmo. Os preços dos alfarrábios eram justos, daí que, frequentemente, alguns colegas de profissão lá fossem, para comprar obras que revenderiam, mais caras, depois, nas suas lojas. Era preciso passar todos os dias, porque, normalmente, todos os dias havia novidades expostas para venda. Lá comprei um folheto raro de Mariana de Luna, de 1641, uma primeira edição de Rubén Darío, com dedicatória, que pertencera a Alberto de Oliveira, a "Clepsydra" (1920) de Camilo Pessanha, na sua edição original, e tantas outras obras raras ou preciosas. Havia sempre uma pequena informação ou nota útil de Tarcísio Trindade, quando se fechava a transação, sobre o livro em causa. Passou o ofício ao filho, Bernardo Trindade, que herdou a amabilidade do Pai, e grande parte dos conhecimentos, mantendo a actividade, no mesmo local, com os mesmos princípios.