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quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Últimas aquisições (41)



A passagem de testemunho, de uma forma geral, implica para alguns uma certa responsabilidade.
Esta biografia credenciada do poeta inglês William Blake (1756-1827), da Oxford Paperbacks, da autoria de Mona Wilson, na sua segunda edição, de 1971, terá tido, antes de mim pelo menos, dois proprietários. Com a particularidade de que um deles terá comprado o livro na célebre livraria-editora Shakespeare & Company, de Paris, em Dezembro do ano de 1975. Atestado pelo carimbo de uma das páginnas iniciais.



quinta-feira, 18 de abril de 2019

Pinacoteca Pessoal 149


Eu creio que o trabalho de ilustrador de livros terá que ser, maioritariamente, de pendor figurativo. Mais ainda se os desenhos se destinarem a um público infantil. Fatalmente, esses artistas não ocuparão uma primeira linha, na arte da Pintura e, muitas vezes, serão desvalorizados pelos estudiosos de Arte.
O conhecido e respeitado especialista de arte Kenneth Clark, por exemplo, subvalorizava a obra de gravador e ilustrador de  William Blake pelas pequenas dimensões das suas gravuras, para as obras de poesia que editou...
A menos que essa actividade de ilustração tenha sido secundária e uma pequena parte, acessória, da obra do artista - estou a lembrar-me de Botticelli e do seu trabalho para A Divina Comédia, de Dante.



O pintor e ilustrador norte-americano N. C. Wyeth (1882-1945) tinha isso em conta, quando disse: Painting and illustration cannot be mixed - one cannot merge from one into the other.
Isso, no entanto, não obstou, excepcionalmente, a que a sua obra não tenha vindo a integrar, com o tempo, alguns museus americanos e seja considerada, hoje, de grande qualidade, a par dos trabalhos do seu confrade e contemporâneo Norman Rockwell (1894-1978), que também ilustrou muitas obras literárias.


Wyeth colaborou na ilustração de mais de uma centena de livros, muitos deles sobre o Oeste americano como, por exemplo, O último dos moicanos, de James Fenimore Cooper. E eu gosto particularmente do poster Ore Wagon (1907), com um pormenor do condutor da diligência. Ou desta serena paisagem que, em 1934, N. C. Wyeth pintou sobre a zona marítima da Costa do Maine.
Ainda que conservador na execução dos seus trabalhos e pouco inovador, os seus quadros não deixam de ter um estilo e uma qualidade muito própria.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

8 versos de Pessoa, num eco de Blake


O que o seu jeito revela
sabe à vista como um gomo,
e a vida tem fome dela
nos dentes do seu assomo.

E nêle mesmo, vibrante,
a êsse corpo de amor,
espreita próximo e distante,
o seu tigre interior.

(1932)


Fernando Pessoa - Obra Poética ( Ed. Aguilar, 1960).

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Pinacoteca Pessoal 55 : William Blake


Poeta inspirado e visionário, gráfico arrojado, cujas gravuras e desenhos prenunciam os pré-rafaelitas, William Blake (1757-1827) ilustrou os seus próprios livros, bem como muitas outras obras.
Esta aguarela destinava-se a ilustrar uma edição da Bíblia, e foi executada por volta de 1800. Representa um dos cavaleiros do Apocalipse e intitula-se "A Morte no cavalo branco".
Pertence ao acervo do Museu Fitzwilliam, em Cambridge (Inglaterra).

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Divagações 48


O mimetismo da pressa com a juventude e a simpatia da velhice pelo vagar, creio serem uma constante, com excepções muito pontuais. Tudo se conjuga, no fundo, com as aptidões e a natureza humana.
Tenho dificuldade em saber, ou até afirmar, no entanto, se o ser humano prefere uma existência banal e pacífica, ou antes deseja o fulgor de uma vida aventurosa e empolgante. É certo - como disse a princípio - que, normalmente, a idade tenta evitar as surpresas ou convive mal com elas, foge das arritmias, valorizando, quase sempre, o silêncio do equilíbrio e a tranquilidade da rotina. Onde poderá instalar, a seu modo e gosto, um pequeno "desmanchar da regra" (A. de A. M. dixit), uma escapadela clandestina, um tropeço, um grito inesperado. Sobretudo, quando somos nós próprios, ainda, a controlar e a consentir.
Será sempre difícil assimilar os sobressaltos, instalarmo-nos nos cataclismos pessoais inesperados, aceitar o súbito, o insólito, o excessivo. Principalmente quando vêm do exterior ou dos outros.
(Em abono do tema e da bibliografia alusiva, leia-se "The Tyger", de William Blake (1757-1827), onde se fala da "fearful simmetry", metaforicamente. E de forma magistral e poética.)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Pinacoteca Pessoal 30 : Paul Nash




É um pintor inglês de que conheci algumas obras, em anos recentes, mas de que gostei. Paul Nash (1889-1946) que combateu em Ypres, na I Grande Guerra, é um artista interventivo, pacifista, mas que pintou a paz e a ruína que a guerra produz. Paisagista, também. Surrealista, q. b., terá sido influenciado quer pela poesia, quer pela obra gravada de William Blake. Mas alguns quadros dele lembram, também, um Magritte, outras vezes, Chirico, embora com um traço pessoal mais cuidado. É uma obra que vale a pena "visitar", com vagar e atenção. Passa, hoje, mais um aniversário sobre o seu nascimento e era a altura certa para o lembrar.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Mais alguns Provérbios de William Blake


Dos "Proverbs of Hell", de William Blake (1757-1827), passo a traduzir 5 deles. O conjunto de Provérbios, do poeta inglês, totaliza setenta, que no dizer de Jorge de Sena "são autênticos micro poemas".

- A Prudência é uma feia e velha donzela rica cortejada pela Incapacidade.
- No tempo de semear aprende, na colheita ensina, regozija-te no Inverno.
- O gato aquecido esquece a neve.
- A abelha atarefada não tem tempo para mágoas.
- Se um louco persistir na sua loucura tornar-se-á sábio.

para MR.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

William Blake (1757-1827) traduzido por Jorge de Sena


No dia de nascimento (28/11/1757) do Poeta inglês, relembro 1 poema e 3 dos "Provérbios do Inferno", na versão portuguesa de Jorge de Sena.

Augúrio de Inocência

Num grão de areia o mundo inteiro ver
E numa flor do campo o firmamento -
Todo o Infinito em sua mão conter
E ter a Eternidade num momento.

Provérbios

Quem deseja e não age, pestilência gera.

De alegria se emprenha. De amargura se pare.

Os tigres da ira são mais sérios que os cavalos da instrução.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A. C. : um retrato


Pela idade, estou numa época de balanços, nos índices da vida. Ontem, ao assistir ao filme de Robert de Niro, "The Good Shepherd" (cujo título parece uma piscadela de olho ao poema de William Blake), com Matt Damon, lembrei-me de A. C.. A personagem (Edward Wilson) interpretada pelo actor americano, embora fisicamente não fosse parecido, fez-me lembrar, pelo silêncio e serenidade aparente, a figura de A. C.. Que foi uma referência na minha infância e princípio da adolescência.
Aparentemente, A. C. seria alto, mas não estou seguro: aqueles balandraus, melhor dizendo, sobretudos, eram sempre grandes, quase chegavam aos pés, e pareciam dar mais altura a quem os vestia. A. C. tinha nariz aquilino, e sem cavalo - direito. O perfil era nórdico (talvez tivesse sido louro, na juventude) e o cabelo liso e todo branco. A pele, também, embora os vasos capilares, visíveis, dessem ao rosto uma aparência rósea. Parecendo longe, estava próximo: era muito atento, mas de forma discreta. A palavra era, nele, medida como se fosse ouro ou prata que gastasse, parcimoniosamente.
Foi com ele que visitei a primeira oficina de ourivesaria - uma imagem inesquecível na memória. Foi com ele que, pela primeira vez, fui à caça e vi um jogo de futebol. Mas quando lhe perguntava (porque o meu campo visual era pequeno) se tinha sido golo, nada me respondia. Era silêncio apenas (que eu, nas caçadas, escrupulosamente, observava), e serenidade. Nunca o ouvi gritar nos jogos de futebol, nem levava as filhas, para acompanhá-lo.
As mãos tremiam sempre, até quando levava o cigarro à boca - diz-me a memória. Hoje, dir-se-ia: Parkinson. Mas nunca o vi falhar um tiro a uma perdiz, a um tordo ou a um coelho bravo. E a condução do seu Dodge era feita com absoluta tranquilidade. Por isso...
Era o único homem, numa casa de três andares, onde viviam cinco mulheres. Daí, talvez eu entenda, hoje, o seu silêncio português, nos jogos de futebol. Que ainda respeito, e admiro.

domingo, 28 de novembro de 2010

William Blake


Apenas para marcar a data de nascimento do poeta e grande gravador William Blake (28 de Novembro de 1757), segue a tradução de The Shepherd, um dos mais simples poemas de "Songs of Innocence and Experience".
O Pastor

Que ameno é o destino do Pastor!
Desde manhã vagueia até à noite;
Seguirá sua ovelha o dia todo,
E sua voz se encherá de júbilo.

Porque ouve o apelo do cordeiro puro,
E ouve a terna réplica da ovelha;
Quando, tranquilos, os vigia, atento,
Que eles sabem que o Pastor está por perto.


sexta-feira, 23 de julho de 2010

Poema longo, poema breve


Sempre tive, à partida, alguma predilecção por poemas breves, antes ainda do meu primeiro contacto com a poesia japonesa, que data de meados dos anos 60. Mas, ao mesmo tempo, sempre gostei muito da poesia inglesa onde predominam os poemas de certa extensão. Poesia descritiva, impropriamente, o diria. No entanto, há excepções como as de William Blake, em "Songs of Innocence and of Experience". Não há regras fixas, em poesia, que assegurem à partida e pelo tamanho a qualidade da obra. Claro que um longo poema, bem feito, pode "envolver" mais o leitor, criar atmosfera, e estou a lembrar-me de "Anabase" de Saint-John Perse, por exemplo.
Por outro lado, poetas há que, ao longo da sua vida, vão alterando as formas da sua criação. Juan Ramón Jimenez começa a sua obra com poemas médio-longos, evolui para uma depuração extrema ("Beleza", "Estío") e, no final da vida, regressa a poemas mais extensos em "La Estación Total" e "Animal de Fondo". Eugénio de Andrade tem uma evolução afim, muito embora na sua juventude tenha poucos poemas longos.
No meio de tudo isto, há o soneto, suprema tentação, sumo equilíbrio.
Racionalmente, não pode nem deve haver exclusões, mesmo que pela positiva - contenção epigramática, poemas longos, sonetos, poemas breves. De outra forma, dizendo: poesias barrocas, conceptistas, poesia clássica, sonetos, tudo poderá ser poema desde que possua excelência para assim ser considerado. Ou ainda, e finalmente, como disse, magistralmente, Fernando Pessoa, pela voz de Ricardo Reis:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

As castas rôlas


É da sabedoria popular que as rôlas são tímidas, fiéis, monogâmicas e que, uma vez morto um dos cônjuges, raramente voltam a acasalar. É por isso, talvez, que em relação aos pombos e pombas, há tão poucas rôlas, na paisagem.
Hoje, ao começo da noite, as aves mal apareceram. Alguns raros pardais, em voos atabalhoados e sem norte. Quatro ou cinco andorinhas zigzagueando mais nervosas do que o habitual. De gaivotas, nem sinal: devem ter ficado junto ao mar, por causa do calor. A família dos peneireiros também não apareceu.
Olho, da varanda, para as quatro árvores, lá em baixo, que me servem de referência quanto ao vento - as folhas não se mexem. Três crianças, silenciosas, saltam à corda. Se não fosse estarem tão caladas, ter-me-ia lembrado do poema de William Blake. E até os morcegos chegaram mais tarde, no seu voo sinuoso. O vento é que não passa.
Mas, pouco antes das 21,30, atravessou o céu azul , já quase escuro, um casal de rôlas, de leste para oeste. Num voo que parecia nupcial, suave e brando.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

William Blake : poeta iluminado


William Blake (1757-1827), gráfico, autodidacta, místico laico e visionário, poeta e criador do, porventura, mais célebre poema da língua inglesa ("The Tyger"), foi redescoberto, após um certo apagamento literário, pelos "pré-rafaelitas" britânicos, mercê das geniais gravuras que produziu para ilustrar os seus livros. Só para o poema referido acima, Blake fêz três desenhos diferentes em que o tigre aparece com um "rosto" afável numa, indiferente noutra, agressivo e feroz na terceira versão. É um poema misterioso, este, até pelas inúmeras interrogações (14) que coloca, sem dar respostas. Traduzimos "The Tyger", sem rima, tentando ser mais fiéis ao Autor. Na dúvida sobre as 3 ilustrações de Blake, optámos por uma quarta, mais actual, obra de Júlio Pomar.

Tigre! Tigre! incandescente
Pelas florestas da noite
Que olhar ou mão vai domar
Tua feroz simetria?

Em que vales, remotos céus
Arde o fogo dos teus olhos?
Em que asas se projecta?
Quem circunscreve o teu fogo?

Em que ombro e de que forma
Forçará teu coração?
E se mesmo assim bater
Quem o trava? Pé ou mão?
 
Que martelo? Que correntes?
Em que fornalha o teu cérebro?
Que bigorna? Que prisão?
Afronta o terror mortal?

Lancem estrelas seus raios,
E do céu húmido lágrimas,
Vai sorrir ao ver a obra
Que criou: Cordeiro e a ti?

Tigre! Tigre! incandescente
Pelas florestas da noite
Que olhar ou mão vai domar
Tua feroz simetria?