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domingo, 17 de abril de 2022

Bibliofilia 197



Não é raro este livro, cuja capa surge a encimar o poste, e tê-lo-ei comprado, em finais dos anos 80 do século passado, ao sr. Almarjão (José Mª da Costa e Silva), da Livraria Histórica e Ultramarina, numa altura em que estava empenhado num texto sobre Teixeira de Pascoaes, para os Cadernos do Tâmega, publicação cultural de Amarante, dirigida por António José Queirós. Trabalho que veio a sair  no número 6 (Dezembro de 1991) da revista, com o título Perfil a meio da Ponte (pgs. 64/6).  
Mas este VI volume da Bertrand tem, no entanto, a particularidade de me lembrar, por associação, uma série de outros nomes.



Antes de mais, o falecido e sábio alfarrabista da Travessa da Queimada, no Bairro Alto. Depois o poeta de Marânus e Jacinto do Prado Coelho que organizou estas obras completas editadas pela Bertrand, com o seu amplo estudo introdutório.
Finalmente, e não menos importante, a dedicatória de Prado Coelho a Ruben A(ndresen Leitão) e mulher Rosemary Bath, pelo Natal de 1970, em que o estudioso refere (a lápis) ter recebido a oferta do livro Páginas VI do escritor.
Pelo meio disto tudo, esqueci-me de anotar o preço que dei pelo VI Volume das Obras completas de Pascoaes... Creio não ser o mais importante.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Lembrete 75


É o centenário. Passam hoje, exactamente, cem anos que nasceu o escritor Ruben A. (1920-1975).

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Em sequência, de Ruben A., um pequeno extracto


(...) Pensão Penguim. Já estava esquecido do ambiente inglês - tive a impressão que entrava numa das pensões do Sul da Inglaterra. Só ingleses e para cúmulo só comida inglesa. Ao jantar a sopa parecia desmaiada - o peixe e a carne à rasca para se distinguirem de paladar, ambos com batatas ressequidas de acompanhamento, pouco gosto além do unto mal lavado. Os ingleses conseguem transportar para o estrangeiro o bom das suas maneiras e o mau hábito da sua comida. Desforrei-me nas laranjas. (...)

Ruben A. (1920-1975), in Páginas (VI).

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Reler. Ouvir


A entrevista, de que escanei uma pequena parte inicial, tem um pouco mais de 36 anos, e foi dada ao jornal Expresso, por Agustina Bessa-Luís (1922-2019), cerca de dois meses depois da saída de Os Meninos de Ouro (Março de 1983). Nela, a escritora confirma, a Maria João Avillez, que se inspirou em Francisco Sá Carneiro para efabular a personagem de José Matildes.
Mas há quem diga que por lá anda também, no romance, o escritor Ruben A., travestido.
Porque escolhi esta obra? Talvez porque foi o livro de Agustina que gostei mais de ler.
E, por isso, o aconselho hoje, aqui.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Do que fui lendo por aí... 27


"... um passeio no Bois (Paris) para despertar os músculos das noitadas de requinte onde o Jacinto tem brilhado de cabelos brancos apesar de não compreender o Picasso de Versailles para num passeio histórico ver os frangos bezuntados de Luiz XIV e o cheiro..."

Ruben A., in Páginas III (Coimbra Editora, 1956).

Nota pessoal: a torrencial capacidade de associação da escrita de Ruben A. (1920-1975) não deixa de registar inúmeros pormenores. Alguns saborosos, como este dos pequenos frangos, muito apreciados por Luis XIV, que os comia à mão, dispensando o garfo. Predecessor do nosso D. João VI que raramente saía sem levar as algibeiras atafulhadas de frangaínhos assados para seu sustento, durante as excursões...

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Uma fotografia, de vez em quando... (122)


Infelizmente, não sei quem foi o autor desta magnífica fotografia. Que ilustra bem uma belle époque já desaparecida, de alguma sólida intelectualidade portuguesa. Elegância, qualidade e estética que se prolongava pela obra destes três escritores, dois deles já desaparecidos. Sendo que o escritor aliava à sua prosa uma irreverência inovadora, pouco comum, na altura. E que o prejudicou, profissionalmente.
(Da esquerda para a direita: Sophia Andresen (1919-2004), Ruben A. (1920-1975) e Isabel da Nóbrega (1925).)

sábado, 16 de março de 2019

De Sophia para Ruben A.


Carta a Ruben A.


Que tenhas morrido é ainda uma notícia
Desencontrada e longínqua e não a entendo bem
Quando - pela última vez - bateste à porta e te sentaste à mesa

Trazias contigo como sempre alvoroço e início
Tudo se passou em planos e projectos
E ninguém poderia pensar em despedida

Mas sempre trouxeste contigo o desconexo
De um viver que nos funda e nos renega
- Poderei procurar o reencontro verso a verso
E buscar - como oferta - a infância antiga

A casa enorme vermelha e desmedida
Com seus átrios de pasmo e ressonância
O mundo dos adultos nos cercava
E dos jardins subia a transbordância
De redodendros dálias e camélias
De frutos roseirais musgos e tílias

As tílias eram como catedrais
Percorridas por brisas vagabundas
As rosas eram vermelhas e profundas
E o mar quebrava ao longe entre os pinhais

Morangos e muguet e cerejeiras
Enormes ramos batendo nas janelas
Havia o vaguear tardes inteiras
E a mão roçando pelas folhas de heras
Havia o ar brilhante e perfumado
Saturado de apelos e de esperas

Desgarrada era a voz das primaveras

Buscarei como oferta a infância antiga
Que mesmo tão distante e tão perdida
Guarda em si a semente que renasce
                                                                      
                                                          Junho de 1976


Sophia Andresen, in O Nome das Coisas (1977).


segunda-feira, 2 de julho de 2018

O Porto que se cuide!...


O improvável acontece e eu nem queria acreditar. Mas, como ouvi a nova pela boca do sério  e probo jornalista Joaquim Letria, faço fé absoluta nas suas palavras.
Então não é que roubaram, do Jardim Botânico do Porto, o busto de Sophia Andresen (1919-2004), que lá tinha sido colocado em 2011? Não satisfeitos com a proeza e impunidade, voltaram lá e levaram também o busto de Ruben A. (1920-1975). Ficaram os pedestais...

Amantes de literatura, os aficionados? Não creio. Talvez amor ao metal...
E o sr. Moreira já terá dado por isso?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Bibliofilia 131


Quase poderia dizer que descobri Vergílio Ferreira (1916-1996) através de "Manhã Submersa" (1954), primeiro livro que li do escritor português, e ainda hoje uma das obras dele de que mais gosto. Li-o pela primeira edição, que um amigo me emprestou. Por isso, só muito mais tarde, vim a comprar o romance e a relê-lo, com o mesmo agrado inicial, aliás.
É apenas a terceira edição, de 1968, esta que tenho, mas pertenceu a Ruben A. (1920-1975), tendo a particularidade de ter uma afectuosa dedicatória de Vergílio Ferreira, que só enriquece o volume. Por aqui fica, em imagem. Hoje, dia em que se completa o centenário do nascimento do Escritor.




para MR, em geminação com o Prosimetron.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

1 Nobel, entre mais 2 autores franceses


A leitura que fiz de "Un Pedigree" (2004), em menos de um dia, ter-se-á ressentido, porventura, de ter sido ensanduichada entre a imediatamente anterior (L'Escalier de Fer, de Simenon) e a que se tem vindo a seguir (Balanço Final, de Simone de Beauvoir). Há que dizê-lo, por uma questão de isenção e honestidade. Porque são ambos, estes dois últimos livros, de grande qualidade literária.
Em jeito de resumo ou conclusão de leitura, eu diria que esta obra de Patrick Modiano (1945) é um livro, no mínimo, desconcertante. Porque, não sendo propriamente uma autobiografia, também não é uma obra de ficção, até porque as variadas figuras que por ele perpassam, não chegam a ter consistência literária, nem suficiente espessura psicológica. Muito menos será um ensaio. Mas Modiano bem nos tinha avisado: "J'écris ces pages comme on rédige un constat ou un curriculum vitae...".
Tirando uma acrimónia ressentida subtil, mas crónica, em relação ao pai e, embora menor, em relação à mãe ("C'était une jolie fille au coeur sec."), a narrativa é bastante asséptica (fria?), quanto a sentimentos ou descrição de emoções. A multidão infinita de personagens, que a cruzam e o ritmo veloz, fazem lembrar umas "Páginas" (ou será "O mundo à minha procura"?), de Ruben A., a que faltasse um estilo marcado e uma efabulação metafórica e imaginativa.
E há uma pergunta que, uma vez lido este "Un Pedigree" (título homenageando Simenon), fica a pairar, neste leitor que eu fui: Será isto verdadeira literatura? Pese embora que a leveza é este ar fluído, breve e efémero que predomina, em muitos dos livros que se publicam, nos nossos dias...

agradecimentos a H. N., pelo empréstimo amigo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Inventário sucinto sobre os rios que vão


Ao princípio do Verbo, foi o Mondego. Mas não devo ter dado por ele, porque mal tinha aberto os olhos para a luz, nesse fim de Maio tão distante, muito embora ele corresse para a foz, ali defronte. Logo depois o pequeníssimo Selho, muito mais a Norte, que no Verão desaparecia, mas ainda dava água para as fábricas de curtumes que lhe fizeram à beira, logo depois do Campo da Feira.
Veio depois o Ave, que era o meu rio de Setembro, em Santo Estevão de Briteiros, há muitos anos atrás. Um pouco traiçoeiro, porque tinha fundos inesperados que pareciam querer-nos sorver para baixo. O Chico vendeu a quinta e nunca mais por lá passou para evitar as saudades e a tristeza. De um tempo em que nem sequer havia luz eléctrica, mas as noites eram lindíssimas. E lá voltei ao Mondego, ainda desordenado, que no Verão não corria: um fiozinho de água que parecia ficar pasmado a olhar Coimbra. Por amores, herdei o Cávado e a sua linda foz de Esposende. Mas, em simultâneo e um pouco antes, o Tejo tinha feito a sua aparição na minha vida, em todo o seu esplendor, ainda cheio de barcos e navios. E, em 1968, o Lisandro de má memória - será melhor nem dizer nada dele... Anteriormente, um amigo falara-me com muito afecto do Sabor, um dos últimos rios selvagens de Portugal. Só me vim a banhar no seu leito pedregoso nos anos 90, num tórrido Verão transmontano. Que bem me soube aquela água fresca!...
Mas não posso deixar de falar do Vouga, o "rio mais tímido de Portugal" (Ruben A. dixit), que conheci em 1979, ali para as bandas de Albergaria-a-Velha. Passava por uma quintinha frutuosa e bonita, com um chalet mandado construir por um engenheiro suiço que ali se aboletou durante a II G. Guerra, por causa do volfrâmio. E o Vouga, remansoso, a lamber aquelas terras úberes era quase apaixonante - ainda hoje tenho saudades. Da quintinha, do chalet e do rio...
O Douro, o Reno e o Mosela ficarão para outro dia.
Porque, hoje, foi dia de molhar os olhos nas águas do Tejo como, às vezes, faço. À conversa, com a límpida luz primaveril, reflectindo-se em espelho, quase cegando. Depois, havia um pato selvagem rasando as águas, em idas e voltas. A que se juntaram mais dois em az, que subiram mais alto, e por ali andaram, interminavelmente, sobre o rio.