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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Um sonho


                                                                                   Num meio-dia de fim de primavera
                                                                                   Tive um sonho como uma fotografia...

                                                                                            Alberto Caeiro


Ora acontece com os sonhos, o mesmo que com os versos, subitamente nascidos: ou os escrevemos logo, ou eles desaparecem, para sempre da nossa frágil memória. Vindos do inconsciente, se não os reproduzimos, conscientemente, eles apagam-se.
Há dias, sonhei com o poeta W. H. Auden (1907-1973), num episódio de grande nitidez. O cenário inicial era a sua casa, improvável e em Portugal. Na sala de estar, ao canto e em ângulo, duas estantes, com livros: a da esquerda, só com volumes de poesia; à direita, apenas livros sobre arte.
Auden estava de abalada para os E. U. A. e eu, antes de sairmos, peguei, de empréstimo, da estante, os seus Selected Poems. Depois, dirigimo-nos, a pé, para uma rua estreita da Cova da Piedade, para ele se ir despedir de Maria Antónia Palla. Foi aí que ele disse que ia dar todos os livros desta sua biblioteca, a quem os quisesse. Não tencionava levá-los para a América. E eu candidatei-me.
Feitas as despedidas, regressamos a casa do Poeta. Para minha surpresa, as duas estantes dos livros estavam completamente vazias. Alguém levara todos os livros de poesia. E os livros sobre Arte tinham sido levados pela minha estimada confrade de blogue, Margarida Elias, do Memórias e Imagens.
Fiquei assim e apenas com os Selected Poems, de Auden, na mão.
E acordei...

para Margarida Elias, e em memória de W. H. Auden.

sábado, 25 de novembro de 2017

Citações CCCXXXI


Nenhum escritor pode julgar, em bom rigor, se um seu trabalho é bom ou mau, mas ele pode vir a saber, não imediatamente talvez, e dentro de pouco tempo, se algo do que escreveu é autêntico - no seu íntimo - ou falso.
...
A mais penosa de todas as experiências para um poeta é descobrir que um poema seu, que ele sabe que é falso, agradou ao público e até foi incluído em antologias. Porque, apesar de saber e pensar, que o poema pode ser razoavelmente bom, não é essa a questão; é que ele não o devia ter escrito.


W. H. Auden, in The Dyer's Hand (pg. 17).

domingo, 9 de março de 2014

Apesar de tudo...


Poetry

Eu, também, não gosto dela.
      Mas ao lê-la, contudo, mesmo com perfeito desprezo por ela, cada um de nós descobre
      nela, e apesar de tudo, um espaço para o que há de mais genuíno.


Marianne Moore (1887-1972), in Selected Poems (1935).

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Uma fotografia, de vez em quando (26)


É sobretudo conhecido pelos seus impressivos retratos. Mas o norte-americano Richard Avedon (1923-2004) tinha uma particular apetência por fotografar os ícones da sua época, as idiossincrasias da Moda e a alta burguesia.
O retrato que encima este poste é de Robert Mitchum; a segunda foto (1955), da modelo Dovima, vestida por Dior, estiliza, de forma singular e contrastante, a elegância com a pretensão da elegância.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Compromissos, segundo Auden


É interessante pensarmos que, hoje e de uma forma geral, o intelectual ou o artista se tenta apresentar à sociedade, como um peão neutro, impoluto e descomprometido. Muito raramente abraça causas ou as defende resolutamente, ao contrário do que era normal nos anos 40/70 do século passado. Numa palavra: não gosta de sujar as mãos, para manter a sua popularidade e seu share pleno, à direita e à esquerda. E, muitas vezes, se toma partido, tenta jogar naquele lado que lhe parece ser o vencedor antecipado ou, pelo menos, o mais forte. O intelectual de hoje, se exceptuarmos raríssimas excepções, é pragmático e tenta tratar da sua "vidinha", deixando de lado as causas e, muitas vezes, os princípios. Lembrei-me disto, ao ler estas palavras de Auden:
"No nosso tempo é normal o caso de um homem, seja ele romancista ou poeta, decidir se se entrega à sua arte, apenas, ou se se assume politicamente engagé. Neste aspecto, a sua consciência encontra-se, genuinamente, dividida: uma voz diz-lhe, e correctamente, que a política é um negócio sujo e se ele se mistura nela, terá muitas vezes que comprometer a sua integridade artística; outra voz diz-lhe, de forma igualmente correcta, que as causas da justiça social são mais importantes do que a causa da arte. ..."
W. H. Auden, in Secondary Worlds (pg. 31), Faber and Faber, 1968.