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sábado, 7 de setembro de 2019

Osmose 109


Se há frases que se nos impõem pela sua intensidade contagiante, há versos que nos iluminam o caminho e nos podem incendiar o pensamento. Ou a imaginação.
Em 1962, a então jovem estreante, em prosa, Yvette K. Centeno (1940), através da Portugália, editou um livro que tinha como título o início de um poema de Pessoa: Não só quem nos odeia.
Já nessa altura, Ricardo Reis era o meu heterónimo preferido. E, ainda hoje, aquele que mais releio. Esse poema era um dos que me acompanhava, de cor, como evidência sentida, intimamente.


Se quem nos ama/ Não menos nos limita. completa esse poderoso axioma, ele foi, com a idade, tornando-se-me verdade absoluta e incontornável evidência prática.
Quantas vezes nos auto-censuramos, calando o que sentimos para não ferir ou ofender quem amamos? Quantas vezes omitimos por amor aos outros? Assim nos limitando ou restringindo a própria liberdade individual.
Será que a solidão total é o preço a pagar pela liberdade inteira? Talvez.

sábado, 11 de novembro de 2017

8 anos : um balanço


Há quem leve o seu blogue a sério, quem o leve a brincar. Quem lhe ponha exigência e quem  se balde, de forma ligeira, divertida ou, às vezes, infantil.  Eu lembro-me quase sempre de Ricardo Reis: "...põe quanto és no mínimo que fazes." E, às vezes, é quase um castigo para lançar mais um poste no Arpose. Mas já lá vão mais de 9.500 postes, nestes 8 anos de exercício, até agora consistente. Como dizia Machado : o caminho faz-se andando. Não hipoteco nem comprometo o futuro por estados de alma momentâneos, nem por restrições à minha liberdade. Até porque as compensações de uma exposição pessoal, em visitas e comentários retributivos são pouco mais do que exíguas. Mas também mal vai quem, sendo minimamente generoso nas partilhas, espera gratificantes recompensas.
Já vi muita gente desistir, no decurso destes 8 anos. Dos 11 blogues que acompanho, vários se apagaram e outros são bissextos, presentemente, ou asseguram uma presença activa meramente residual, que parece prognosticar a morte absoluta a médio prazo. (Entretanto, vou seguindo mais 5 blogues, de forma livre e descomprometida - por não os ter inscritos - para compensar o vazio deixado...) Pragmaticamente, também não quero omitir a realidade crua dos números: o Arpose, que já teve uma média de 360 visitas, tem hoje pouco mais de 70 visitantes diários, dos quais apenas 11 ou 12 são presenças fiéis e constantes, todos os dias. Assim seja! Porque a vida também é isso - uma espécie de ilha com mais melancolia do que júbilos e com mais ligeireza do que fidelidade.
E talvez a conquista maior, mais sábia e difícil de qualquer ser humano seja mesmo a modéstia do silêncio, como matriz suprema da Criação ou, em termos para-científicos, do momento antes do Big Bang inicial. Creio que ainda não estou preparado para isso. Assim, há que celebrar este 8º aniversário do Arpose, mas com singeleza.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Na Baixa


Outono-Inverno clássico, à antiga portuguesa: céu plúmbeo, chuva que parece nunca mais acabar, algum vento, guarda-chuvas desconjuntados, abandonados pela rua. Imprecações, corridas, carros irritantemente esparrinhando água suja das poças para os peões desabrigados. E, de cima, goteiras desabridas, quais pequenas cascatas, pingando incessantemente, sobre quem passa colado às casas. Parece não haver nem sossêgo, nem refúgio.
Mas, no British-Bar, invocado Cardoso Pires, uma atmosfera edénica e morna, enxuta e anglo-saxónica, acolhe-nos, enfim. Podemos falar de Sheffield ou de Bona, sem perder de vista a Lisboa de Ricardo Reis. Ou Saramago - para ser mais exacto. Que no início do romance reproduz, com nitidez literária, esta cidade aberta aos quatro ventos e à chuva intensa da noite que chega.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Pessoana e lisboeta


Procurei-os, em vão, aos patos selvagens sobre o rio. Mas as nuvens carregadas, que depois deram em chuva, devem tê-los afastado para longe. Mesmo as gaivotas eram escassas e fugidias sobre as águas escuras.
O travo da dessaborida dobrada vinha-me ainda no gosto desencantado, ao começo da tarde. Reforçada que fora, por nós, com sal e pimenta, nada adiantou à confecção desajeitada da cozinha. Ainda perguntei se a cozinheira estava de folga ou férias, mas não me souberam responder. Vinha, ao menos, quente, como recomendava o Eng. Álvaro de Campos: "...Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria."
O Cais do Sodré estava mais conforme ao "ano da morte de Ricardo Reis", com a chuva desalmada caindo. E, no Chiado global, começaram a surgir, não se sabe donde mas como sempre, os oportunos indianos e paquistaneses a vender os pequenos guarda-chuvas extensíveis a cinco euros cada. Devem ter herdado, por trespasse, o negócio dos chineses que, entretanto, se sumiram para as bandas da EDP...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ricardo Reis, para fechar Fevereiro


Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

As efabulações credíveis


Chove copiosamente na Baixa de Lisboa: o Cais do Sodré está inundado, pela Rua do Alecrim quase corre um rio que se vê do Hotel Bragança, assomando a alguma das janelas. É a esta realidade virtual que vou aderindo, num fim de tarde de Julho (quente, finalmente) com céu límpido. No romance ("O Ano da Morte de Ricardo Reis") tudo se passa no final do ano de 1935. E continua a chover imenso na leitura, enquanto na realidade o céu claro vai passando de laranja a cenoura, e depois róseo, no cá fora outrabandista.
São estas efabulações credíveis, esta criação de atmosferas que denunciam um bom escritor. Como os ambientes criados por Simenon, sobretudo nos romances ou novelas "Maigret". Ler um romance de "Inverno" num tempo real de Verão. E acreditar. Até aderir à ressurreição de Pessoa (quem disse que Saramago não era um homem religioso?, : as dúvidas estão lá todas!) que visita Ricardo Reis. Assim um Julho calmoso outrabandista se transforma, pela leitura, num Dezembro chuvoso lisboeta... 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Nomes literários - uma despedida


Lá nos despedimos da Margarida, com saudade antecipada. Da sua franqueza, atenção e irradiante simpatia, discreta. Quando chegamos à esplanada, disse-nos logo: "Que bom!, foi transmissão de pensamento, porque, hoje, é o meu último dia de trabalho. Já estava a pensar em dizer-lhes adeus, através do Almirante..." Não foi preciso, felizmente. E atendeu-nos com aquela ternura e crueza natural  que rodeia, quase sempre, os últimos minutos de um adeus.
Fiquei a saber, por ela, que houve um Ricardo Reis, de carne e osso, que ainda era parente afastado (pela primeira mulher) de Saramago. Ainda é vivo. E casou com a Selma que devia o nome, também, a Selma Lagerlöf: lia-se muito, antigamente, mesmo nas classes mais desprotegidas. Era assim que os nomes da ficção literária passavam, por amor, para o real. Estive para perguntar à Margarida (mas não tive coragem) se o nome dela tinha alguma coisa a ver com Goethe, e o seu "Fausto". Até porque, eu próprio, estive para me chamar Tito, mas o meu Tio Víctor não conseguiu convencer o meu Pai. Mas, aí, a razão já não era literária, mas política...
Um sol dourado e ameno, de Julho, brilhava sobre o Largo tranquilo. Desejamos felicidades à Margarida e fomos ver o Tejo, um pouco nostálgicos. Havia gigantescas gaivotas sobre o rio. Quando voltarmos à esplanada, encontraremos decerto a Natália (Gilbert Bécaud?) que, na sua gracilidade juvenil, ainda há-de iluminar de alegria, os nossos olhos cansados e descrentes. Mas é pequena a compensação. A Margarida era única.