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segunda-feira, 26 de março de 2018

Curiosidades 69


De há muito que o coração é usado como imagem e símbolo maior do amor. Já os egípcios o usavam assim. Muito embora alguns filósofos gregos dele tentassem fazer a morada da alma, sem grande sucesso. Também o cristianismo, iconograficamente, o atribuiu e personificou nas figuras do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, em definitivo. Pascal e Descartes pronunciaram-se sobre o assunto, em reflexões conhecidas. De uma forma mais terrena e concreta, poder-se-ia falar do coração de D. Pedro IV, que se conserva, embalsamado, na Igreja da Lapa, e que o monarca português doou, como prova de afecto, à cidade do Porto.
Mais interessante porém é o mito anatómico, criado pelos romanos, de ligar, através de uma fina veia (vena amoris), o coração ao dedo anelar (não sei o que a acupunctura mais séria teria a dizer sobre isto...). E, residualmente, a ideia se ter perpetuado no facto e no símbolo de se usar a aliança de casamento no dedo anelar (esquerdo, muitas vezes). Ao que parece, e até ver, também para sempre.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A par e passo 176


Seguro de existir, Descartes acredita supor que não há outra certeza. Mas há muitas outras, desde que ele comece a meditar. Ele julga, inovador como é, que deve manter a atitude, tradicional em metafísica, duma dúvida universal que está ligada à vontade, quer ao início, quer à saída de tudo aquilo que se pensa. E isto é uma atitude profissional. Ei-lo, no entanto, a braços com um problema sério. A experiência do sonho, os erros da percepção, as ilusões do tacto e do olhar, as alucinações de tipo diverso, engendraram desde tempos imemoriais, esta questão teórica - tão positivamente teórica que se poderá perguntar, à parte, se ela não será puramente verbal.

Paul Valéry, in Variété V (pg. 234).

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A par e passo 175


Descartes acertou as suas contas com a filosofia, - dos outros. Definiu ou determinou o seu sistema de vida. Ele tinha confiança plena no seu conjunto de modelos e ideais matemáticos e podia, no seu presente, sem necessitar de ir ao passado, sem olhar a nenhuma tradição, empenhar-se na sua luta que seria a sua vontade de clareza e de organização do conhecimento contra a incerteza, o acidental, o confuso e o inconsequente que são os atributos mais prováveis de grande parte dos nossos pensamentos.
Posiciona-se numa primeira certeza; afirma "que é necessário rejeitar como absolutamente falso aquilo que podia provocar a menor dúvida, de modo a descobrir se não existiria, depois disto, alguma coisa na sua crença que fosse inteiramente indubitável". E alega, fundando-se na sua experiência que nós temos sonhos, e que tudo pode ser talvez apenas sonho. Só a sua famosa proposição: Je pense, donc je suis, lhe parece uma verdade indestrutível, que é preciso tomar como primeiro princípio, e que lhe revela, por outro lado, que é, em si, uma base donde toda a essência se pode pensar, independentemente do corpo, do lugar, de toda a coisa material.

Paul Valéry, in Variété V (pgs. 229/30).

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A par e passo 98


"Todo o fundador, no domínio de uma ordem espiritual, deve preocupar-se em torná-la irresistível. Uns procuram e tentam envolver-nos pelo encanto; outros cativam-nos pelo rigor; Descartes comunica-nos a sua vida de forma a que, na sequência das suas impressões e pelos seus actos, nos faça introduzir nos seus pensamentos através do mesmo caminho natural de acontecimentos e imaginação que ele teve desde a sua juventude, e que se assemelha bem a muitos outros caminhos, ainda que nem sempre eles conduzam aos mesmos pontos de vista."

Paul Valéry, in Variété II (pgs. 13/4).

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Curiosidades 28 : o original e a cópia


Da profusa iconografia cartesiana, grande parte das representações do filósofo René Descartes (1596-1650) derivam do retrato, de autor desconhecido, que pertence ao acervo do Louvre. A tela terá sido adquirida por Luís XVI aos duques de Orleães, no século XVIII. Bem acabado e perfeito, o retrato de Descartes, no entanto, terá sido feito, entre 1650 e 1700, sobre um original de Frans Hals (1580-1666), pintado em 1649, e que, por doação de 1922, integra a pinacoteca da National Gallery of Denmark (Copenhaga).  O original é, porventura mais "rústico", mas decerto será mais natural.
Em imagem, as duas telas ficam a encimar o poste, para cotejo visual.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A par e passo 38


CV
Dúvida

Eis um belo título para capítulo: da quantidade de coisas que nós ainda não pensamos pôr em dúvida.
Mas a propósito de dúvida, este grave tema de velhos debates um pouco desaparecidos, não houve nenhum filósofo recente que o tenha conseguido pensar mais profundamente do que Descartes, constituindo-o como ideia e presença da diversidade mental. A dúvida regressa então ao sentimento das variações e em particular à admissibilidade de tais postulados.
Ligar a todo o julgamento a sua verdadeira natureza psicológica e, em simultâneo, o grupo inteiro dos possíveis...

Paul Valéry, in Tel Quel II (pg. 228).

quinta-feira, 31 de março de 2011

Citações LXIII : René Descartes


"O bom senso é a coisa mais bem partilhada do mundo, porque cada um pensa que tem o suficiente."

René Descartes (31 Mar. 1596 - 11 Fev. 1650).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Léon-Paul Fargue (1) : sobre Poesia



Léon-Paul Fargue (1876-1947), poeta francês, fez várias incursões originais e interessantes sobre o tema poesia. Privilegiava a poesia simples, sem retórica, com pouco ornamento. Os excertos que se traduzem e transcrevem pertencem a efabulações contidas em "Suite Famillière (Sequência Familiar)".

"Descartes faz casamentos de razão. Rimbaud casamentos de amor. Os poetas fazem destes últimos. Num toque de trompa, uma trompa do vale de Thèvale, eles fazem convergir dos quatro cantos do universo as pessoas e as imagens menos semelhantes, as mais estranhas na aparência, e casam-nas, e juntam-nas como os hemisférios de Magdeburgo, e ao fim de cem anos, apercebemo-nos que fizeram bons conjuntos, assim como os grandes casamentos de Descartes, e que funcionam - pela eternidade."

"A palavra lâmpada é comum ao poeta e ao que acende as luzes.
O leitor crê que as palavras têm um sentido.
Em poesia, a inteligência faz os recados, leva os embrulhos, informa-se e vem dar notícia, faz as contas, classifica os pequenos papéis, selecciona as cartas de amor, telefona e prepara o banho. Como uma criada jovem e negra junto da sua bela patroa."