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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Relações de proximidade


Dependendo muito dos interesses de cada ser humano, há correntes de afinidade, consideração e até mesmo afecto, que se estabelecem, duradouras e fortes, entre fregueses e fornecedores. Modistas e alfaiates, merceeiros e peixeiras de mercado, simples empregados de quiosques ou de cafés, carteiros e médicos, para citar apenas algumas profissões, podem gozar da estima dos seus clientes e despertar, neles, uma especial simpatia. Creio que a honestidade e a competência no exercício da sua própria actividade são factores imprescindíveis, pelo menos para mim, para que essa relação de cúmplice proximidade se possa vir a estabelecer. Ou a solidão cultural dos espaços que habitam, esses fregueses, a isso obrigue ou justifique...
Ginha, Guedes, Almarjão, Tarcísio, Beckmeier são nomes saudosos, do meu passado, bem como alguns outros apelidos de que nunca soube ou nem sequer decorei o nome. De livreiros e livreiros-alfarrabistas que me trazem saudades. Não sou promíscuo com facilidade, muito menos me exponho, aos primeiros contactos. Conservo, de início, uma prudente distância, porque recuar depois, é sempre mais difícil e, hoje em dia, o profissionalismo é raro, no comércio livreiro. Mas surpreendo-me, muitas vezes, com a proximidade extrovertida e a familiaridade devota e pia, com que alguns fregueses convivem com os seus fornecedores de livros. Falta de prática, conhecimento e experiência, talvez.
Exclusivo demais (quem sabe?, pela bitola actual), no meu universo, destaco apenas dois nomes: Bernardo e Rosa. Que respeito e estimo, como livreiros. O resto, é apenas a vulgaridade do costume, e de negócio...

segunda-feira, 7 de março de 2016

5 esboços dispersos, com remate


1. Há vozes, por vezes, ao telefone ou quando ouvimos uma canção, em que não conseguimos identificar, de imediato, o género. E não é sequer pelo tom grave e áspero, que pode parecer masculino, ou pelo veludo suave da sinestesia, que poderia ser feminino. Nosso ouvido? Ou voz do Outro(a)?
2. Talvez por causa do vento frio, as mãos, de que não vejo o rosto, parecem acariciar a chávena de chá, morna provavelmente, e surgem na distância como uma aparente sobrecapa que recobre, acaricia e parece proteger a porcelana. É um gesto, um desenho que reencontra outros, na minha memória.
3. De muitas conversas, há quase sempre o registo apagado de uma palavra ou frase, que ressurge depois, e fica como um título, um sublinhado desse diálogo encerrado. Na altura da conversa, porém, não o fixámos devidamente. Ele impõe-se depois, autónomo, ganha força. E não mais se apaga.
4. Inesperadas e de acaso, há relações sociais que, discretamente, ganham substância e uma consistência imprevisível, com o tempo, sem que nada fizessemos para isso. Chegam, por vezes, muito próximo da amizade.  Mas há também outras que se apagam num silêncio gradual, sem lhe sabermos a causa e a razão de ser.
5. Haverá, porventura, vários graus de amizade. Difíceis, no entanto de hierarquizar. Requerem sobretudo fidelidade, lisura, atenção e inteligência. Quando verdadeiras e desinteressadas, as amizades conseguem resistir até à distância geográfica e mesmo ao silêncio. Porque podem retomar-se e ressurgir. Mas, não perdoam a mentira, embora possam sobreviver à omissão (quando o Outro a pratica, e nós a percebemos).

Algumas (amizades) me ficaram pelo caminho. E pareciam bem sólidas, antes da ruptura ou do término surgido, inesperadamente. Terá havido um apagamento gradual, um desinteresse ou, quem sabe, um incidente involuntário. Há gente assim e assado, gente que se resume ou mirra no silêncio, porque as escolhas não terão sido perfeitas. Minha culpa? Ou do Outro?
Seja qual for a razão, valerá a pena reconvocar Virginia Woolf: "Perdi amigos, alguns deles, por morte... outros, por mesquinha inabilidade em atravessar a rua."