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sábado, 2 de novembro de 2013

Retratos 12


O sr. Abílio respira honestidade profissional por todos os poros. E nos preços que faz. Nos seus 80 anos, improváveis e rijíssimos, embora muito afáveis, leva já 67 de profissão constante, porque iniciou a sua aprendizagem a meio  da adolescência, mal completara os 13 anos. Aprendeu os rudimentos de artífice numa relojoaria da rua dos Sapateiros, em Lisboa, que tinha a representação da Patek Philippe e mais duas ou três marcas de consagrada respeitabilidade. Aí se vendiam, à confiança, e arranjavam relógios, a cargo de três bons profisionais.
Depois, e anos mais tarde, por razões várias veio a estabelecer-se na Outra Banda do Tejo.
A relojoaria, pequena, na velha Almada, está desarrumada, mas só para quem vem de fora. Pequenos ponteiros para substituição, coroas, braceletes, tudo ele encontra, com rapidez surpreendente, gesto sucinto e habituado, naquele aparente caos humano e ameno de trabalho manual.
Nós tinhamos entrado para comprar uma pilha e duas braceletes de relógio, iam as 11 quase no fim. E, de repente, poucos minutos passados, quatro ou cinco grandes e maviosos relógios começaram a bater, em uníssono de inesperada sinfonia, as 12 horas. Tenho de confessar que, por momentos, me senti transportado à infância, e uma tranquilidade beatífica e feliz me banhou a memória...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Uso pessoal 8



Ao princípio era o Omega, que a minha Mãe usava, mas que fora do meu Pai. Esse relógio mítico desapareceu aquando da sua morte, era redondo e antigo, e nunca mais o vi.
Mas o meu primeiríssimo relógio era rectangular, pequeno, da marca Solvil (suiço) e ofereceram-mo, pelo exame da 4ª classe, tinha eu 9 anos. Era no tempo em que só se tinha um relógio e, quase todos os dias, tínhamos que lhe dar corda, para que não parasse. A esse ainda teve que se lhe substituir o vidro do mostrador, umas 2 ou 3 vezes, que as quedas das tropelias infantis não perdoam...
Aos 14 veio o Cauny Prima, de boa memória, na imagem. Quando fiz 34 anos, ofereceram-me o Longines que nem sempre se portou bem, em rigor e pontualidade, embora tivesse sido bem caro. E, pela primeira vez na vida, eu era detentor de 2 relógios, em perfeito funcionamento - coisa fina!, para quem fora habituado a só ter um e a uso.
Era também no tempo em que começaram a aparecer os Swatch, que se mudavam como quem muda de casaco, de acordo com as circunstâncias... No final do séc. XX, veio de presente o Junghans (alemão) que ainda hoje uso e tenho, no pulso. Impecável quanto a exactidão, redondo, também, e discreto. Há ainda um Tissot que não aparece na fotografia, um pouco pesado, comprado barato num Flohmarkt de Colónia, por 125,00 euros, em segunda mão. Funciona bem.
O Casio-Quartz, na imagem, é chinês de origem, e foi um caso de emergência. É que eu não consigo andar sem relógio de pulso e, um dia, em Lisboa, reparei que me tinha esquecido do Junghans, em casa. E lá entrei num desses bazares chineses onde, por tuta e meia, o adquiri. Pelo preço que dei, até trabalha bem.
Na imagem que encima este poste, pode ver-se o relógio de bolso que foi do meu Avô. Mas esse, coitado, já deixou de trabalhar há muito, e não tem conserto. Além de ter um dos ponteiros à dependura. Mas acho-o bonito e, por isso, o conservo. A marca dá pelo nome de Remontoir Cylindre e, ao que tudo indica, poderá ser de origem francesa. Ou então do cantão francês da Suiça.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Gentilezas, na manhã


Eu devia vir, ainda, com um olhar alumbrado ou perdido, porque o Segurança amável, já depois de eu me ter aviado num balcão dos CTT dos Restauradores, quando me dirigia para a porta de saída, me perguntou, solícito e prestável: "- O Senhor já foi atendido?" Respondi-lhe que sim, agradecido. Mas o meu olhar, provavelmente confundido, vinha de trás, no tempo e no local. Foi na rua Garrett.
A meio, vinha eu a descê-la, alguém me interrompe o passo decididido, com um "Olá!" amigável, em voz melíflua. Olho o rosto, em frente, e acho-o parecido com aquele corpanzil das Secretas, megalómano (Pedro Lomba dixit), que passou informações a Relvas e que, agora, passa todos os dias nos telejornais, como em tempo de seca costuma passar aquela vaca (sagrada) morta e esquálida, do Alentejo. Ora, aquele rosto, à minha frente, eu não o identificava de lado nenhum, por isso, perguntei: "-Conhecemo-nos?"
O homem, com cerca de 40 anos, resmoneia qualquer coisa rápida, como: "Bes...Millenium..." E, a páginas tantas, eu já tenho, na mão direita, um relógio reluzente com pulseira metálica dourada, e ele a continuar: "- ...sobrou da promoção e, como é cliente..." E eu, estupefacto, recebo também na mão um cartão de visita, que o homem tirou do bolso, num instante. E ele a continuar, sedutor: "- Depois vai pagar ao Banco, não se preocupe, se não quiser ou puder pagar-me a mim..." Um minuto depois, enquanto, vou recusando timidamente ("já tenho um Tissot e um Longines, não preciso de mais relógios!"), o "bancário de rua" acrescenta-me mais um relógio (desta vez, prateado), na minha mão direita. Acrescenta: "-São só 40 euros, porque sobraram da promoção do Banco." Como eu continuo a recusar, reforça: "- Faço-lhe 20, mas se não tiver, aí, o dinheiro, pode ir pagar ao banco..."
Quando me consigo libertar do assédio, na rua Garrett, a frio, começo a pensar que o homem, parecido com o Silva Carvalho (em corpanzil) das Secretas, queria que eu tirasse a carteira do bolso, para ma roubar e fugir. Deixando-me com 2 relógios na mão e um cartão de visita, falso. Irra!...
(Fica o aviso: rua Garrett, relógios - a história é verdadeira.)