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terça-feira, 20 de março de 2018

Receita para esgalhar um comentário de sucesso


Cinicamente, Reinaldo Ferreira (1922-1959) escreveu um poema intitulado: Receita para fazer um herói.
Ora, é sempre vantajoso mostrar admiração, surpresa perante o tema e abordagem de um poste que se comenta. Uma ponta de ingenuidade ou ignorância é sempre bem-vinda, e ajuda. Qualquer tipo de sentido crítico, ou discordância, é absolutamente dispensável, mas o exercício de prosa poética, mesmo que deslavada e fruste, no comentário, revela caridade e é, quase sempre, acolhido com manifesta alegria incontida (e correspondente) pelo administrador do blogue. Evite-se, de todo, a ironia. Raramente é percebida, e pode gerar equívocos lamentáveis. Obrigando a explicações posteriores sempre penosas e redundantes.
É preferível ser banal e comentar sobretudo postes muito banais, e com muitas imagens. Pensar, na net, é quase sempre exorbitar. A simplicidade no ciberespaço é dominante e aconselhável, em nome dos bons costumes. Não convém perturbar almas, nem criaturas. O cinismo para com os inocentes é um pecado capital. E indesculpável, em absoluto. Daí os like, tão queridos do feicebuque.
Finalmente, evitem-se os palavrões, por ordinários, mesmo vindos de anónimos tímidos, a quem os pais tiveram vergonha de baptizar, por pudor e manifesta dignidade própria e humana, acautelando o futuro.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Reencontro


Os reencontros, passados muitos anos, nem sempre são felizes. Por crescimentos diversos de quem se revê, divergência nos interesses que se aprofundaram entretanto, pelas rugas do tempo na face outrora jovem - sentimento que nem sempre pensamos poder ser recíproco...
Há muito que eu não voltava à poesia de Reinaldo Ferreira (1922-1959) que li, empolgado, em anos de extrema juventude, por um livro emprestado por um amigo. E, hoje, no alfarrabista que frequentemente visito, o livro (em imagem) oferecia-se-me, acusando o tempo, mas até com as páginas por abrir. Lá o trouxe, que o preço era convidativo.
No prefácio, José Régio, certeiro, aponta-lhe as influências de Cesário e Pessoa, com muita justeza. Bem como uma certa desigualdade na qualidade dos poemas. A leitura de "Receita para fazer um herói" já não me empolgou como na juventude. Até porque já nem há a guerra colonial, no horizonte.
Mas continua a ser interessante um pequeno poema que eu quase sabia de cor, e voltei a ler:

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.