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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sinais


Há quem diga:  Deus está nos pormenores. Mas o Tempo também se denuncia pelos detalhes, ou a incúria dos homens.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Eça, por Fialho


É sabido que Fialho de Almeida (1857-1911) não morria de amores por Eça de Queiroz (1845-1900). E é conhecida a cena de Fialho no Rossio, de ostensiva gravata vermelha, a observar o cortejo fúnebre de Eça. Os seus afectos inclinavam-se, sobretudo, para Camilo. 
Conheço, de Fialho de Almeida, dois textos sobre Eça. O primeiro  publicado em O Contemporaneo, relativamente suave; o segundo, bastante mais contundente, em jeito de apreciação literária, veio em o Brasil-Portugal, já depois da morte do romancista de Os Maias. Vou transcrever uma pequena parte do primeiro.

"Conheci-o ha pouco mais de um anno num gabinete de restaurant onde elle ia cear todas as noites, com rapazes. Espirito adoravel, bordado de infantilidades sabiamente premeditadas para os effeitos scenicos de seducção intellectiva, mordacidades de alto e polido estylo, e sobretudo esse privilegio sagaz de não perder um millimetro de estatura, pela intimidade e pela franqueza, prodigalisadas em volta. (...) Tudo nessa figura de cartilagem, franzina e pallida, trahe o espirito depurado em requintes subtis, á custa de uma especie de tortura physica, que o rala, ao mesmo tempo que o transfigura. Olhem bem essa masque de face cavada e nariz astuto, com olhos de myope alternadamente coriscantes e doces, bocca fina, que sob as azas do bigode, aos cantos se atormenta numa ironia que faz na sua conversa e na sua proza, um scintilar de espadas em duello. Ao premir na orbita o monoculo, as sobrancelhas negras extranhamente arqueadas aproximam-se e palpitam, como remiges em azas de corvo, pondo na physionomia, o que seja de um cunho mephistophelico. Voz grave, ora de morosidades morbidas, ora em catadupa febril. ..."

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Camilo, sobre poesia portuguesa, doméstica e provincial


"... Fui assinante das poesias do Sr. J. d'A. Rangel. O título modesto do volume (As Minhas Poesias) é um destemperado broquel que o autor escolheu para os seus versos.
Não sei se todos os poetas, como o Sr. Rangel, cantam a sua família, e as suas árvores, e os seus amigos, e as suas ninharias da vida.
O certo é que a poesia assim não passa de um traste de família - uma cronologia sem sabor - e o fruto de uma terrena concepção.
Muita charada, pueril e felizmente anunciada no index, e sucessivos sonetos à sua Ilemia - eis aqui os versos do Sr. Rangel, indiscretamente privados da paz de uma carteira, e condenados ao triste caminha do domínio público. 
A poesia, que se assenta na podre cadeira do meio-termo, cai.
Se eu fosse poeta, e me favorecessem os meus versos com o misericordioso epíteto de toleráveis - queimava-os. E se a minha família gostasse deles, dava-os a ler à minha família para me não apoquentar com o governo da casa.
Eu dou um conselho a todos os Rangéis do mundo.
Conquistar o nome de poeta é barato e bom.
Nesta época de oiteiros galvanizados a reputação sobe na razão inversa das garrafas monásticas.
Pois bem - quem pôde lá merecer um diploma reveja-se nele, e congratule-se no seio de sua família. Sustente o fogo sagrado dessa reputação vestal, mas não a dê ao mundo em letra redonda, se não quer vê-la descomposta em seu pudor pela mão desatenciosa da crítica.
O conselho é grátis."

Camilo Castelo Branco, in As Polémicas de Camilo - III (pg. 185).

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Exposição


No próximo sábado, 18/10/2014, pelas 18h30, na Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea (Almada) inaugura uma exposição de desenhos, com trabalhos de Rafael Bordalo Pinheiro, Henrique Cayatte, Sofia Areal, entre vários outros artistas. A mostra estará patente até 25/1/2015.

sábado, 21 de junho de 2014

Uma louvável iniciativa (31)


Da famosa andorinha de  Bordalo criada, em 1891, e reproduzida, depois, industrialmente, até aos manjericos dos Santos Populares do mês de Junho, passando pelos celebrados e artísticos tapetes de Arraiolos, aqui ficam mais 3 símbolos de Portugal, que a RAR, em boa hora, fez constar nos seus pacotinhos de açúcar.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Sra. Rattazzi


Na temática Portugal visto pelos Estrangeiros, o livro "Le Portugal à vol d'oiseau" (1879), de Madame Rattazzi (1831-1902), tem um lugar à parte, sobretudo, pela polémica que provocou, na época.
A Sra. Rattazzi (Marie-Laetitia Bonaparte-Wise), embora nascida na Irlanda, era sobrinha neta de Napoleão, e o apelido, que usou, pertencia ao segundo marido (Urbano Rattazzi) que foi primeiro-ministro, em Itália. A escritora esteve, por duas vezes, em Portugal (1876 e 1879), e da memória dessas estadias, acrescentadas de alguns factos pitorescos, pequenas fantasias e algumas inverdades, acabou por fazer um livro, em dois volumes sob forma epistolar, que foi publicado em França. Cerca de dois anos passados, a obra foi traduzida para português, tendo provocado algum desconforto, no meio intelectual luso, pelo retrato que ela fez do país e dos portugueses. Aqui ficam algumas passagens:

"A mais activa occupação da realeza em Portugal é a instituição dos títulos." (I, pg. 12)
"Exceptuando a Belgica, Portugal tem sobre todos os paízes catholicos a primazia do carrilhão." (I, pg. 28)
"O portuguez é hispanophogo, e se de tempos a tempos não trinca, sob a fórma de costelleta, o hespanhol que lhe cahe nas unhas, é simplesmente por timidez, e não porque lhe escasseie o appetite." (I, pg. 69)
"Os usos e costumes theatraes em Portugal estão ainda em estado primitivo." (I, pg. 106)
"As casas em Lisboa, como em todo o resto de Portugal, são habitadas, principalmente, de verão por um enxame de baratas (...) Disseram-me que todos acabavam por habituar-se." (II, pg. 19).

Compreende-se, pelo pouco que transcrevi, a presumível reacção indignada de alguns intelectuais lusos, em que se destacaram Antero e, sobretudo, Camilo, que acabou por escrever um pequeno livro de desafronta...

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Oliveira Martins, em louvor da mulher minhota


No seu "Portugal Contemporâneo", Oliveira Martins (1845-1894), no capítulo que dedica ao movimento e sublevação da Maria da Fonte, tece algumas considerações sobre as características das mulheres minhotas que, embora pecando pela generalização excessiva, não deixam de ter algum fundamento. Demos, então, a palavra ao historiador novecentista:
"...No Minho, como em todas as regiões de stirpe celtica, a mulher governa a casa e o marido; excede o homem em audacia, em manha, em força; ara o campo e jornadêa com a carrada de milho á frente dos boisinhos louros. Requestada em moça nos arrayaes e romarias pelos rapazes que a namoram, conversando-a com as suas caras paradas, basta vêr um d'esses grupos para descobrir onde está a acção e a vida: se no olhar alegre, quasi ironico da moça garrida, luzente de ouro, se na phisionomia molle do rapaz, abordoado ao cajado, contemplativo, submisso, como diante d'um idolo. A vida de pequenos proprietarios põe na família uma avidez quasi avarenta e na educação dos filhos instinctos de governo. Quando se casam, as moças conhecem o valor do dote que levam, e os casamentos são negocios que ellas em pessoa debatem e combinam.
Não é uma esposa, quasi uma serva, que entra no poder do marido, á moda semita que se infiltrou nos costumes do sul do reino: é uma companheira e associada em que o espirito pratico domina sobre a molleza constitucional do homem desprovido de uma intelligencia viva. A mulher parece homem; e nos attritos da dura vida de pequenos proprietarios, quasi mendigos se as colheitas escasseiam, cercados de numerosos filhos, apagam-se as lembranças nebulosamente doiradas da luz dos amores da mocidade, e fica do idolo antigo um rudo trabalhador musculoso, com a pelle tostada pelos soes e geadas, os pés e as mãos coriaceas das ceifas e do andar descalça ou em soccos nos caminhos pedregosos, ou sobre a bouça de urzes espinhosas. Não se lhe fale então em cousas mais ou menos poeticas: já nem percebe as cantigas da mocidade no desfolhar dos milhos! ..."

J. P. Oliveira Martins, in Portugal Contemporaneo (pgs. 186/7), Parceria Antonio M. Pereira (1925).

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

3 reis e 1 consorte, vistos por um monárquico


Como se sabe, Ramalho Ortigão (1836-1915) foi um monárquico convicto, até ao fim dos seus dias. Mas esse facto nunca o impediu de usar de humor e sentido crítico em relação aos reis portugueses. Em "Perfis e Costumes", Ramalho faz uma apreciação bem disposta sobre 4 representantes da Monarquia portuguesa, assim:
"...D. Pedro fôra um bravo militar, que - como ele próprio escrevia ao marquês de Resende - nos constitucionalizou à força: Sois mon frère ou je te tue.
D. Miguel foi um rei-esbirro, assim como o irmão foi um rei-soldado; acamaradava a dois caceteiros, o José da Polícia e o João Sedvém, êle tinha êste ideal fixo: organizar uma boa sociedade exclusivamente composta de frades e de toureiros, e rachar o resto à bordoada.
D. João VI era um príncipe feito de lombo de porco e marmelada, - um ventre sempre cheio, quási sempre constipado, constantemente polvilhado de rapé e enformado nuns calções sujos.
Enfim Malherbe veio. Chegou o Senhor D. Fernando (Augusto Francisco António).
Um pouco menos rei que os seus predecessores, rei apenas por afinidade, esta circunstância tornava-o simpático. ..."

para MR, em jeito de geminação, por ter falado da morte de D. Pedro IV, no Prosimetron.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Recomendado : vinte - Ramalho Ortigão


"Ramalhal figura" lhe chamava Eça, com a sua habitual ironia, abstractizando o vulto alto de Ramalho Ortigão (1836-1915), nascido no Porto, a 24 de Outubro. Moderno em muitos aspectos, adepto da prática de ginástica diária e caminhante infatigável, mas conservador nos seus princípios ideológicos de monárquico convicto, eis o autor de "John Bull" que convoco, neste blogue e no dia do aniversário do seu nascimento, para que seja mais lido. Da sua prosa coloquial, simples e elegante, recomendaria "As Praias de Portugal - Guia do Banhista e do Viajante" que, a par de "Os Pescadores" de Raul Brandão, é um dos livros portugueses em que melhor se fala do Mar. Para aguçar o apetite ouçamos, então, um bocadinho de Ramalho Ortigão ("De Pedrouços a Cascais"):
"Se queres dar, leitor, o mais belo dos passeios permitidos ao habitante de Lisboa, faze o que eu ontem fiz.
Levanta-te às 5 horas da manhã, num domingo, veste-te à luz do candeeiro, porque em Setembro ainda não é bem dia a essa hora, pega na tua bengala e no teu binóculo e vai à ponte dos vapores do Cais do Sodré.
Tomamos um bilhete de ida e volta no vapor de Cascais por dez tostões. Ainda é cedo, o vapor não parte senão às 7 horas. Entramos no Café Grego e fazemo-nos servir uma chávena de leite ou chá preto. ..."

domingo, 23 de janeiro de 2011

As novas corporações : psicólogos e informáticos


Para lá de alguma mágoa política que este dia me deixa, e que saberei digerir, democraticamente, queria abordar um outro assunto que, também, se deverá e poderá relacionar com estas Eleições Presidenciais de 2011. Não quero, antes, deixar de reter e referir a enorme abstenção verificada de que, Rui Rio, tirou a conclusão lógica e clarividente: "...é preciso fazer uma ruptura com este sistema" (político). Mas vamos ao tema do título deste poste. Porque a vida continua...
Nos últimos 30/40 anos, em Portugal, houve 2 segmentos corporativos que ganharam evidência, grande visibilidade mediática e importância, i. e.: as corporações dos psicólogos e a dos informáticos. Deixemos os psicólogos para um outro dia. Os informáticos têm sido os gurus portugueses, nos últimos tempos, mais idolatrados. Mas têm sido, também, responsáveis, por exemplo, por chegarmos a uma dependência bancária, e nos dizerem: "Não temos sistema!"; e nós darmos meia volta e sair, sem resolvermos ou tratarmos aquilo que queríamos. Onde, a eficácia desse Banco? Na minha opinião, nenhuma, pelo menos na escolha da équipa informática por que optou. A sua eficácia ficou demonstrada, amplamente. Mas há que relembrar, também, aqui há uns anos, a ridícula telenovela da colocação dos professores, no consulado de Santana Lopes e ministério Bustorff, da Educação. Ou o Estado não sabe escolher os informáticos, ou os informáticos portugueses são, mesmo, muito maus e pouco eficazes. Valha a idolatria, analfabetismo informático dos portugueses, ou a sua falta de sentido crítico, em relação à informática. E fechemos o círculo, voltando ao princípio. Hoje, muitos dos eleitores portugueses não conseguiram votar. Até a ex-ministra Maria de Belém, para votar, foi obrigada a esperar para "desembrulhar" a dicotomia informática Cartão do Cidadão/ Cartão de Eleitor. Conseguiu votar, depois de 2 horas gastas para resolver a questão. Concluiria: o Governo deveria mudar, totalmente, a sua équipa de informática, ou os informáticos portugueses têm de fazer, rapidamente, um reciclagem de competências, eliminando o lixo abundante desta corporação.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Oito luas fatais fitam o espaço"


O título deste poste tirei-o de um poema que Fernando Pessoa dedicou a António Duarte Gomes Leal (1848-1921), também ele poeta, e a quem, no amplo sentido "verlaineano" do termo, poderíamos apelidar de "maldito". Na idade adulta, vivendo de expedientes ou da colaboração em jornais republicanos, mas também do património que o Pai - morto jovem - deixara, e que sua Mãe, parcimoniosamente, moeda a moeda lhe ia dando, após a morte dela, em pouco tempo, delapidou o que sobrara. Os restantes 11 anos, viveu-os Gomes Leal em decadência gradual até à sua morte, em casa do amigo Ladislau Batalha, na Rua do Telhal. Vagabundeou muito, antes. Pode dizer-se que foi um sem-abrigo, "avant la lettre", e muitas vezes, sem dinheiro para pagar um quarto, adormecia nos bancos do Rossio ou da Avenida da Liberdade. Mas assim como esbanjou dinheiro, também esbanjou talento. Dos seus versos se sente o eco em Cesário e Nobre, e um pouco menos em Pascoaes.
Era consensualmente admirado como poeta. Quando já quase indigente, a República, pelo seu Parlamento, votou-lhe uma tença, no melhor exemplo camoniano - pagavam-na tarde e a más horas... E Aníbal Soares, monárquico convicto, também lhe arranjou um subsídio, provavelmente, do seu próprio bolso. Dele, na literatura e antigas selectas, ficou memória do poema "A Duquesa de Brabante" que Gomes Leal dedicou a Alberto Osório de Castro. Opto pelo soneto "Fantasias" onde se notam "raízes" do que, depois, Cesário Verde viria a fazer com outra elegância e geometria...

Tenho, às vezes, desejos delirantes
De a todos te roubar, meu lírio amado!...
E levar-te, em um vôo arrebatado,
Aos países fantásticos, distantes.

À Índia, China ou Irão, e os meus instantes
Passá-los a teus pés, grave e encruzado,
Num tapete chinês aveludado,
Com flores ideais e extravagantes.

Nossa vida seria - ó pomba minha! -
Mais leve do que a asa da andorinha,
E, nas horas calmosas, eu e tu...

Olhando o mar sereno, o mar unido,
Comeríamos os dois arroz cozido...
- Embalados num junco de bambu!