
Estávamos na Bairrada profunda, entre estreitos e labirínticos caminhos, por entre médias e pequenas propriedades, que levavam a outros labirintos. Finais dos anos 80, ou início dos 90. Devíamos ter almoçado no "Vidal", modesta catedral gastronómica, onde ainda hoje se pode comer um dos melhores leitões assados da Bairrada; ou, é possível, que tivessemos ido almoçar ao "Almas(?) da Areosa", em Aguada de Baixo, comer uma deliciosa "Vitela à moda de Lafões", em caçarolas de barro. Este restaurante, que era de um ex-emigrante, está, hoje, fechado. Pena! O que ali me levava era um "Vinhas Velhas 1986", tinto, Baga monocasta, que o arquitecto Raúl Ramalho, na altura decano dos arquitectos portugueses, e pai do Pedro Chorão, me oferecera pelo Natal ou pouco depois. E eu, que nem era grande apreciador dos vinhos bairradinos, tinha ficado conquistado com aquele "Vinhas Velhas", criado - como ele gosta de dizer - por Luís Pato. O engenheiro e enólogo era já conhecido (mas não muito) dos apreciadores sensíveis e de bom gosto. Ainda a adega não era aquela estrutura nova de qualidade arquitectónica dos nossos dias, nem a promissora énologa Filipa Pato, sua filha, lançara algum dos seus "Ensaios" vínicos. Quando, finalmente e depois dos labirínticos caminhos, conseguimos chegar a Ois do Bairro, e à fala com Luís Pato, já o sol começava a declinar - era Outono. Atirei-lhe à queima-roupa com o "Vinhas Velhas 1986", e ele mostrou-se surpreendido - não achava que fosse um vinho fora do vulgar. Mas também já não tinha nenhuma garrafa para vender. Deu-me sugestões. Depois levou-nos à adega: provou alguns vinhos de enormes tonéis, e deu-nos a provar. Em seguida, para a compra, levou-nos até à loja de embalagem, onde cinco ou seis mulheres colavam, à mão, os rótulos nas garrafas. A supervisão deste grupo feminino estava a cargo da mãe de Luís Pato que, vitoriana e sentada, acompanhava com o olhar, agudo e penetrante, o trabalho da rotulagem. Tudo isto, num velho armazém, que não tinha nada a ver com a moderna adega de hoje, muito embora o Engenheiro-enólogo já exportasse grande parte da produção para a Inglaterra e para o Japão - disse-nos ele.
Depois, havia de vir o "Vinha Pan", o "Vinha Barrosa", o "Vinha Formal" e outras criações excelentes deste "grand seigneur" do vinho português.
Cavalheiresco, sempre, embora conservasse a distância e reservasse o sorriso, guiou-nos, no seu carro, à frente, até que saíssemos dos caminhos labirínticos e chegassemos à auto-estrada. Despediu-se, ao passarmos, com uma breve vénia que escondeu, por momentos, o seu bigode asa de corvo, já ligeiramente ensaraivado.