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quarta-feira, 28 de junho de 2017

O que é a chuva?...


... - perguntarão as crias implumes desta Primavera, dentro dos ninhos, aos pais.
Porque as únicas aves que vi hoje, quando saí de manhã para comprar o jornal, foram três rolas, com ar desconsolado e penas desalinhadas, que se abrigavam, nervosas, debaixo da frondosa Árvore da Borracha, à beira da Escola. Criaturas saíam dos carros, canhestras, abrindo desabituados guarda-chuvas para enfrentar os pingos. Eu próprio me pareci ridículo, de camisa de manga curta, e desajeitada umbrela aberta.
É certo que desconfiei, ontem à tarde na varanda a Leste, ao ver as nuvens mudarem de direcção. Em vez do Sul-Norte, passaram repentinamente para o rumo Norte-Sul. Era um sinal da Natureza, pelos vistos, que eu não entendi. Mas, afinal, a chuva sempre veio, depois de tão longa seca.
E, assim, é uma boa altura para relembrar esse duplamente galego Dominguez Alvarez (1906-1942), embora nascido no Porto, pintor que se naturalizou português, em 1936, para escapar à Guerra Civil Espanhola. E que pintava muito bem, embora de modo agreste e melancólico, à Rosalía poeta, também ela galega. Ambos, dessa terra a que chamaram sem ossos, acima de Portugal...


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Rosalía


Eu bem sei destes segredos
que se escondem nas entranhas,
se revolvem sempre inquietos
sob mil formas estranhas.

Eu bem sei destes tormentos
que consomem e devoram,
que fazem gemer os ventos
dos que mordem quando choram.

'Inda assim sorrindo canto,
ainda canto com brio,
tanto chorei, chorei tanto
como aguazinhas dum rio.

Tive em passados dias
fundas penas e pesares,
e chorei lágrimas frias
como aguazinhas dos mares.

Tive tão fundos amores
e tão fundas amarguras,
qu'era uma fonte de dores
nascida entre fragas duras.

Rosalía de Castro (1837-1885), Cantares Gallegos (XXII, II).

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Em sequência musical, de Rosalía, Amancio Prada

Evocação de Rosalía, por Juan Ramón Jimenez


Rosalía de Castro
(1885)

Chove em toda a Galiza. Chão e céu estão fundidos, o coração de quatro cavidades pela sua fibra interior, pela chuva. Toda a Galiza é o espaço de um grande, surdo coração. As aldeias, iguais igrejas negras, mais negras, negríssimas, de um negro primordial arrancado pela chuva, cheiram a estábulo humano e molhado. Rosalía de Castro pensa, de luto à porta de sua casa, do seu campo, casa cubo com trigo, uva, celeiro médio, água corrente próxima. Vê chover no verde brando, na terra líquida, na água terrosa; passar, entre água, a vaca constante, o albino adolescente descolorido, o passante cumprimentador, o peregrino lanzudo, o prior sujo, a débil menina sardenta, o pequeno carro lamentoso. Trinam baixo, afogados no ar aguado, os sinos de Bastabales:

(Campanas de Bastabales,
cuando vos oyo tocar
mórrome de saudades.)

Pobreza e solidão. Ânsia, angústia, asfixia de tanta solidão e pobreza circundantes. Uma boca grande, uma simpatia feia, choram, desesperam, soluçam. Rosalía de Castro, lírica galega, trágica, desesperou, chorou, soluçou sempre, negra de roupa e pena, esquecida do corpo, dourada de alma no seu próprio poço. Desconsolação de alma formosa encurralada, isolada, enterrada em vida! Rodeiam-na rebanhos humanos que são como rebanhos não humanos: o mesmo cabisbaixo pesar, idêntico aroma imperecível, igual mansidão e sensualidade resignada. E Rosalía de Castro não se cuida, não pode cuidar-se. Anda louca no seu ritmo interior, fusão de chuva e canto, de sino e coração. Toda a Galiza é um manicómio molhado, que a traz dentro dele. Galiza, cárcere de janelas em condenação da água, névoa, pranto, por onde Rosalía vê somente os fundos cálidos da sua alma.
Neblina sobre a Galiza. Uma névoa que flutua, algodão redondo, nata salgada, parafina sitiadora, sobre as rias; que cerca os muros, que envolve as praias, que tudo torna escuro entre ela, esbranquiçada e suja, desentendida. Entram cegamente os barcos, não entram. Perde-se o homem escasso na opaca totalidade melancólica. Longe, perto, em casa, no seu campo, pela costa deserta, reduzidas as distâncias pátrias, Rosalía de Castro dá voltas largas e lentas em redor das quatro rochas negras, das quatro paredes caladas. Rodeiam-na de perto, de longe, em cada casa só, rocha sozinha, tumbas gémeas, ocupadas ou vazias, de uma eterna tarde galega de defuntos, outras pobres Rosalías, mais velhas ou mais jovens, "viúvas de vivos e mortos, a quem nada  consolará".

Juan Ramón Jimenez, in Españoles de tres mundos (pgs. 54/55), Alianza Editorial, 1987.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Batalha de Montjuic

Por razões afectivas, há duas comunidades autonómicas espanholas, que se sentem, ou nós sentimos, mais próximas de Portugal do que de Castela. Refiro-me à Galiza e à Catalunha. A raíz comum do galego-português na poesia, no iño, nos sentimentos quase minhotos (Rosalía), na gastronomia, explicam, em parte, essa afectuosidade recíproca com a Galiza.

Da Catalunha, e do pouco que conheço, talvez a maneira de ser que é menos alacre e orgulhosa ( e não estou a falar de sentimento de independência que os catalães têm arreigado) do que a castelhana, a recordação do Condestável D. Pedro, filho do homónimo português das-sete-partidas, que lá foi rei. Mas os portugueses devem, também, em parte, à Catalunha, a sua re-independência de 1640. Porque os dois movimentos independentistas ocorreram no mesmo ano (1640), na Catalunha com els segadors (os ceifeiros) e, em Portugal, com boa parte da nossa nobreza. E Filipe IV (terceiro de Portugal) teve que dividir as suas tropas para tentar sufocar as duas rebeliões simultâneas, e Portugal ganhou com o facto.

Por isso, hoje, recordo a Batalha de Montjuic (26 de Janeiro de 1641), ganha por Pau Clarís, herói catalão que morreu pouco tempo depois. E a versão alargada do hino da nação catalã: Els Segadors, em homenagem aos campesinos que iniciaram a revolta, no séc. XVII.

P. S.: para os 3 Amigos prosimetronistas, que andam por terras de Espanha.

sábado, 31 de julho de 2010

Na frescura da noite


São 21,30, mas apetece ficar. Não há lua, ainda. Mas um friínho (Rosalía) insinuante e quase húmido refresca a noite e a varanda a leste. Penso na viagem que me não apetece: apenas quem vou rever me faz ir. Foi o ar que arrefeceu, porque não há vento - as árvores estão quietas: sonham, talvez, ramos novos e raízes mais fundas.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Salão de Recusados XVI : Poesia Galega


A alma mais profunda foi comum, no início, e ainda hoje a contiguidade entre o norte de Portugal e a Galiza é enorme. Entre a chuva, a morrinha ou o "inho" minhoto e o "iño" galego há toda uma irmandade de ternura. E há, pelo menos, para lá dos trovadores galaico-porugueses, um nome incontornável - Rosalía.

1. Um repoludo gaiteiro
de pano sedán vestido
com'un príncipe cumprido
cariñoso e falangueiro,
antr'os mozos o primeiro
e nas suidades sin par,
tiña costum'en cantar
aló po-la mañanciña,
con esta miña gaitiña
as nenas ei de engañar.

Rosalía de Castro (1837-1885)


2. D'aldea lexana fumegan as tellas;
detrás d'os petoutos vay póndos'o sol;
retornam pr'os eidos co'a noite as ovellas
tiscando n'as veiras o céspede mol.
Un vello, arrimado n'un pau de sanguiño,
o monte atravesa de car'o piñar.
Vay canso; unha pedra topóu n'o camiño
e n'ela sentou-se pra folgos tomar.
- Ay!, dixo, qué triste!
qué triste eu estóu!
Y- un sapo qu'oía
repuxo: - Cro, cro!

Manuel Curros Enriquez (1851-1908)


3. Sopra o curisco fora
arrofíanse os campos coa xiada
cai das nubes a neve peneirada...
o inverno chora,
no tellado da casa; o vento refunfuña
cando pasa
y-as tellas arrebuña.

Gonzalo López Abente (1878-1963)


P. S. : Para MR que, há pouco, lembrou Rosalía.