Romã
Há fruta cujo paladar desloca
a sede habitual de experiência.
A língua sabe. Mas analisa a ciência
num sal de exílio e de saliva. A boca
conserva só esse fulgor sombrio
de sílabas pensadas e que têm
a dor aguda dum rubi, refém
do pomo aonde se esmiúça o brilho.
Ou se trata do fruto em que a pupila
se apalata minúsculo. Rutila
em seu culto indiviso e mineral.
Ou agrupa a romã sua conquista
na glória funda de estar sendo vista
estilhaço de sapiência palatal.
Fernando Echevarría (1929-2021), in Poesia, 1980-1984 (pg. 453).