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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Régis Debray


Um dos últimos, senão o último representante de uma geração de ilustres e coerentes intelectuais activos (Orwell, Bernanos, Malraux, Char...) que deram o corpo ao manifesto, lutando, no terreno, por aquilo em que acreditavam, o francês Régis Debray (1940), autor prolífico (57 livros), lançou recentemente mais uma obra: Un cândide à sa fenêtre. E tem-se desdobrado em intervenções diversas (aconselho a audição de um vídeo que MR colocou no blogue Prosimetron, há pouco) e entrevistas. De uma das últimas, concedida à revista Marianne (nº 946), aqui vão, traduzidos, alguns excertos-sublinhados, que fiz:
-"Destruindo por todo o lado os Estados (Iraque, Líbia...) acabámos por trazer as tribos ao poder."
-"A superstição da economia, com um pouco de moral em cache-sexe, é isso que fazem os idiotas estratégicos."
-"Nós tirámos os sapatos antes de entrarmos numa mesquita; pedimos às jovens muçulmanas para tirarem o véu, antes de entrarem na escola. Chama-se a isto reciprocidade. A escola republicana possui uma sacralidade própria. Auschwitz, também."
-"Mas os homens da cultura, é uma questão de ecossistema, não devem misturar-se com os negócios, e cada vez menos. Julien Gracq dizia-me muitas vezes que a política não é uma actividade digna do espírito."
-"Vista da esquerda, a direita tem dois motores, o lucro e o medo (do outro, do novo, etc.). E vista da direita, a esquerda é o ressentimento e a fuga para o abstracto, para não olhar o real de frente."

com agradecimentos a MR.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Citações CCXXXIII


A propósito da "varredela" do latim e do grego, como opção, dos programas de ensino francês ( Projecto Collège 2016, da ministra da Educação, Najat Vallaud-Belkacem), Régis Debray (1940) declara em "L'Obs":

"Esta falsa reforma aplica no domínio escolar a visão do mundo da nossa classe dirigente. Ela é desprovida de consciência histórica, educada na superstição da economia e das finanças, dedicada ao culto exclusivo do número e do quantitativo."

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Recomendado : cinquenta e quatro - entrevista de R. Debray a L'Obs. (nº 2619)


O século XX não conseguiu esclarecer, devidamente, o valor e significado de algumas palavras de uso corrente, apesar da sua importância, sobretudo política. E, neste domínio, a esquerda teve ainda mais dificuldade no seu uso, ao contrário da direita que, nesse particular, é bastante mais pragmática e maniqueista, dividindo à partida sem dificuldade as coisas, entre boas e más. Guerrilha, terrorismo, atentados bombistas, ou suicidas, Israel/Islão, ditaduras/democracias, são algumas das palavras que, à esquerda, continuam envoltas em nevoeiro, dúvidas e muito vagamente situadas, entre o Bem e o Mal.
Régis Debray (1940) é um homem que teve e tem mundo. Não é um menino de coro, nem um puritano ou moralista, nem sequer um teórico. Foi amigo de Fidel e Guevara, fez guerrilha na Bolívia, foi preso, tudo isto antes de Maio de 1968. Todas estas experiências enriqueceram-no e ele sabe distinguir, entre o trigo e o joio, as grandes questões que se nos põem, neste início do século XXI.
Numa excelente entrevista, que deu a L'Obs., Debray separa, inteligente e claramente, essas águas que refiro no primeiro parágrafo deste poste. Em abono da recomendação, que proponho em título, alinho, traduzidas, algumas das respostas que ele deu, nessa entrevista. Como se seguem, para reflexão:

- Malraux dizia que a seita literária eram 10.000 pessoas. Para além disso, é um mal-entendido. Ou um oportunismo. Esperança de ordem cultural, portanto. De ordem política? Temo que, por esse lado, estejamos no fim de um ciclo, aquele que começou por volta de 1789 e que ligava a luta pelo poder a uma confrontação das ideias.
- O atentado de 7 de Janeiro desempenhará nisso algum papel? Ou será preciso uma guerra de verdade? Ou a chegada de uma troika do FMI para tomar conta dos comandos como em Atenas? Será preciso aproximarmo-nos de um precipício, em qualquer dos casos. Não ignoro que todos os séculos têm a sua pequena elegia sobre a decadência. Mas uma visão histórica alargada relativiza estas lamentações.
- A França manteve o proscénio dois ou três séculos. É normal que deixe esse lugar a outros. O meu amigo Daniel Cordier diz que a França morreu em 1940. A França enquanto grande potência, assim é. Mesmo assim ainda houve um "Verão indiano" com de Gaulle, mas a missa já tinha acabado. No fundo, podemos sobreviver bem a isso. Até podemos viver mais felizes.
- A substituição das letras pelos números e a ideia de que toda a expressão tenha de corresponder a um valor cifrado, quer seja taxa, score, desempenho ou parte do mercado, é qualquer coisa de espantoso. É esta ilusão económica que esterilizou a política? Ou a política é de tal maneira estéril, que nada mais resta senão o económico? Em qualquer dos casos, há por aqui um círculo vicioso que fez com que os nossos políticos se tornassem contabilistas. Fizeram-me viver uma adolescência política e agora querem que eu tenha uma velhice económica. Isto faz-me rir, e também chorar um pouco. Porque é uma mudança radical de referências.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A ressaca e os números da desordem


 A frase de Régis Debray, que encima e ilustra este poste, na sua abstracção metafórica e abrangente, parece-me exemplar na caracterização dos tempos que vivemos. Porque, se de um lado se reúne e agrega o irracionalismo fanático da ignorância civilizacional, do outro lado do mundo, ocidentalizado, o que prima é uma convicção de fogachos, um emocionalismo demagógico, muito intermitente e inconsistente, explorado, a maior parte das vezes, pelas centrais mediáticas. Que tudo uniformizam, num camaleonismo banal e vulgar. Nesta bipolaridade superficial de 2 mundos, há um ponto comum: a inexistência de sólidas e fundamentadas razões, coerentes e éticas, duradouras e políticas.
Hoje, ao comprar o TLS, tive uma breve conversa com o dono da tabacaria onde vou semanalmente adquirir o jornal inglês. Fiquei a saber que ele recebia, por rotina, 2 Charlie Hebdo, e que vendia normalmente apenas um. Depois do massacre de Paris, e nos dias seguintes, uma das empregadas da tabacaria esteve quase diariamente a atender o telefone, por causa dos pedidos de encomenda da revista satírica francesa. Alguns clientes quase imploravam pela garantia de poderem comprar um exemplar.
A tabacaria recebeu 25 revistas. Da lista de reservas, ficaram cerca de 170 potenciais clientes por atender...

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Régis Debray a "Le Monde"


São palavras de um homem zangado, que terá dado, ao longo da sua vida, para o peditório de um mundo melhor, talvez inutilmente. Que investiu em causas que, entretanto, perderam significado, que olha em volta e não gosta do que vê. Mas as suas palavras, em entrevista a "Le Monde"(18/7/2014), envoltas numa cortante e seca ironia, não deixam de ser objectivas, realistas e sábias. Por isso, traduzindo alguns excertos, aqui partilho algumas das respostas e reflexões de Régis Debray (1940). Como se segue:
- No Oriente, inventam a pólvora e criam os fogos de artifício. No Ocidente, fabricam canhões.
- Por outro lado, a França republicana tendo renunciado ao seu sistema de valores e à sua autonomia diplomática, acabou por integrar os comandos da OTAN, decisão anedótica mas simbólica do presidente gallo-ricain Sarkozy, imitado pelo seu sósia Hollande. Eis-nos, por isso, de regresso à "família ocidental". A dupla morte histórica de Jaurés e De Gaulle que deu a esta abdicação o sentido de um regresso à normalidade.
- ...uma coesão, sem precedente sob a égide de Washington, aceite, em definitivo, por todos. Num mundo multipolar, o Ocidente é o único conjunto unipolar. Jamais um Chinês se deixaria representar por um Indiano, e vice-versa. Jamais um Brasileiro por um Argentino ou um Nigeriano pela Áfica do Sul. O Ocidente não tem senão um número de telefone em caso de crise, o da Casa Branca.
- O Ocidente de Montaigne, de Levi-Strauss, de Zeev Sternhell e de Snowden, eu estou pronto a bater-me por ele. O Ocidente dos etnólogos, da curiosidade, da coragem cívica, para que o Outro exista, é aquilo que é preciso defender. O canto do mundo onde é permitido duvidar. Nós temos até o privilégio de poder absorver a negatividade crítica. Quando temos um dissidente, cooptámo-lo. Quando há um opositor, reintegrámo-lo. Repare, fizeram de Daniel Cohn-Bendit a grande celebridade da Europa neo-liberal.
- É preciso termos a noção de que a modernização é regressiva e que a mundialização é uma espécie de balcanização. Quanto mais o mundo se uniformiza pela técnica e pela economia, mais necessário será recuperar as identidades perdidas.

com agradecimentos a H. N..

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Citações LXXV : Régis Debray


"... a religião não é o ópio do povo mas a vitamina do fraco."

Régis Debray (1940), em entrevista a Magazine Littéraire, nº 421 (Junho de 2003).