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domingo, 7 de fevereiro de 2021

Mercearias Finas 166


Peixes de rio, desde tenra idade, nunca fizeram o meu pleno: tinham muitas espinhas insidiosas e traiçoeiras. Ao sável, ainda dei algumas oportunidades, no Abílio, de Queluz, onde o fritavam à maneira, na altura dele, com um rico e verde arroz de grelos malandrinho, para acompanhar, ou então uma açorda muito bem apaladada. O lúcio é que nunca eu tinha experimentado.


 

 Veio à colação e experiência, no Domingo, em duas amplas postas bem cortadas, que o dono da banca, na Trafaria, prometeu terem espinhas leais e fáceis de excluir. Falou verdade e gostámos imenso da nossa vernissage deste peixe de rio, grandão e saboroso, com lascas alvas e largas. O vinho branco, que era também uma novidade, no regional Lisboa, fez-se também notar pela positiva dos seus 13º, com Arinto, Viognier e Sauvignon Blanc. Fique o nome: Pedro Álvares, colheita de 2018. Bem podemos repetir, quer o lúcio, de rio, quer o vinho do Carregado.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Retratos (24)



Esguio, muito seco de carnes, pele muito branca, o que nele mais surpreendia era o aperto de mão musculado e forte vindo de uma tão aparente fragilidade corporal. 
Naquela vilória desengraçada e repetida, encontrá-lo era um oásis de frescura, no meio das minhas deambulações profissionais desinteressantes. E o prólogo apetecido de dez dedos de conversa estimulante. Bancário reformado, viúvo, pertencera à tertúlia lisboeta de José Marinho, era um ledor compulsivo e os seus diálogos tinham quase sempre um pendor filosofante.
Ele no início dos seus 80, eu a entrar nos sessenta, apesar da diferença de idades, fizémo-nos amigos leais, porque nos entendíamos facilmente. Trocámos muitas ideias e livros, mas há mais de 5 anos que o não vejo. O mais provável é já ter falecido, seguindo talvez o seu amigo Luís Amaro que lhe morava perto e de quem me falava muitas vezes.
O que eu não posso esquecer é que referindo-lhe eu, esmorecido, as leituras de Cícero (De Senectute) e Simone de Beauvoir (La Vieillesse), nos preparatórios para a velhice, J. Braga me tivesse oferecido, alguns dias depois, os Comentarios sobre la Vejez..., de Blanco Soler. Que foi, até hoje, o melhor livro que li sobre o assunto. E que conservo, religiosamente.
E já que falei de coisas santas, e a ele, que era crente, lhe desejo daqui a tranquilidade filosofante, lá, no assento etéreo, para onde provavelmente subiu.

sábado, 6 de abril de 2019

Memória de Belas


De Belas, eu poderia dizer muita coisa, mas vou ater-me ao essencial que me ficou, definitivo. Até porque - pecado meu original - não consigo lembrar-me da primeira vez que lá fui. Mas sou ainda do tempo em que, por Setembro, lá iam estadiar, em quintas frondosas, algumas famílias ricas de Lisboa, até venderem os terrenos para urbanizações selvagens e mais rendosas aos empreiteiros saloios que já tinham destruído a natureza primitiva e singular do Monte Abraão. Onde num Agosto solitário veio a morrer Ruy Belo - acrescente-se - num andar anónimo por entre a floresta de betão, alcantilada.
Depois, vem-me à memória, e em caminho, um chalet derruído, debruçado sobre a ribeira do Jamor, que foi pertença ancestral da família do meu amigo J. N.. Por essas bandas, tive também lições de condução, por dias e dias que me pareceram, na altura, intermináveis e fastidiosos. Adiante.
Agora, há um tempo que por lá não passo. Nem sei se o pitoresco mercado ainda existe ou se a estação de Correios, em cenário antigo de decoração datada, ainda funciona. A modesta pastelaria dos Fofos de Belas é que ainda pode adoçar a boca dos passantes, se por lá pararem, antes de seguirem pela estrada da Idanha ou, em retorno, quiserem voltar a Queluz. Percurso este que me traz afectuosas recordações de um princípio de tarde primaveril...



Por Belas andei, também, em busca de vestígios de António Nobre, para um artigo que foi publicado no nº 8 dos "Cadernos do Tâmega", de Dezembro  de 1992. Um velho barbeiro, ainda em exercício, localizou-me o edifício de um dos hotéis (modestíssimo) onde se hospedara o poeta do , quando, em busca de ares lavados e de saúde para a sua tuberculose terminal, por lá se aboletou. Expulso, devido às hemoptises frequentes, e por causa de outros clientes, viera depois hospedar-se na York House, às Janelas Verdes, em Lisboa.
Da torre antiga dos Coelhos, e do Paço de D. Pedro I, mas que D. Duarte ainda habitou, julgo-a hoje integrada na Quinta do Senhor da Serra que, outrora, era anualmente franqueada ao povo, para uma romaria afamada. Até que os senhores Marqueses de Belas se cansaram da devastação a que os seus campos eram sujeitos sob pretextos religiosos. E do lixo que ficava dos piqueniques populares, nesses domingos de reinação ruana...


Entretanto, a vila ganhou o sossego dos condomínios fechados e o golfe aristocrático dos campos relvados a perder de vista, em zonas reservadas, tornando-se cada vez mais igual a outros espaços, que abundam por aí.
Foi perdendo, aos poucos, o seu encanto primitivo e que eu apreciava tanto.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Mercearias Finas 137


Por muito alternativos que sejamos, ou inovadores na originalidade e maneira de ser, todos temos rotinas, ainda que bissextas. Quando vamos, no fim-de-semana, ao mercado da estrada de Almoçageme, frequentemente no regresso, refeiçoamos em Queluz, até para reencontrar o inamovível e insubstituível Fernando, que já vai nos seus 58 anos, sempre leves, bem dispostos, ágeis e simpáticos dos seus mais de 40 de bom serviço. Antes, eu cumpro o meu indeclinável dever de ir cumprimentar e ver a minha amorável ribeira do Jamor, com os seus patos que, às vezes, se aventuram do Palácio, mas nunca chegam a Belas... A ribeira, por sua vez, é dissimuladora: parece tranquila mas, quando ganha força e poder, pode transformar-se em destruidora e assassina. Como já o foi, no passado.



Desta vez, e como o "Abílio" tem sempre peixe fresco e de confiança, fomos nos filetes de Linguado e nas Pescadinhas contorcionistas, com um malandro arroz de grelos, bem verdinho. Quanto ao vinho, a decisão foi mais lenta. A garrafeira do restaurante já não é a que foi, embora a quinta do Cartaxo, do sr. Abílio, octogenário, continue a produzir tinto, branco e uma aguardente bagaceira, ainda estimáveis, embora de alta graduação. E é por aqui que começa a história...



Não nos apetecia o vinho da casa. Perguntei ao Fernando, que foi avô recentemente, quais seriam as opções, a princípio, de brancos. Referiu-me o banalérrimo JP que eu raramente aprecio pelo excesso de sabor a Fernão Pires. E o Planalto, duriense, que, pouco mais tarde, me referiu já não ter, desculpando-se.
Fomos então para tintos, desmanchando a regra e porque também estava frio.



Falou-me, então, de um Lybra, que tinha sido engarrafado à má fila, por um consagrado produtor do Ribatejo que, tendo comprado as uvas Syrah, ao sr. Abílio da sua quintinha do Cartaxo, o comercializava sob o seu nome, para lhe dar um estatuto maior.
O tinto monocasta era realmente muito bom. O "produtor"-engarrafador, pelos vistos, é que deixa muito a desejar...
Para sobremesa, optámos por Arroz-doce e Maçã assada. E ainda passámos, ao sair, pela "Marianita", para trazer uns Sonhos enriquecidos e umas belíssimas Broas Castelar - que o Natal já anda perto!

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Um simples painel de 4 azulejos


Pelo nome, iriamos dar a Queluz e ao conhecido e primoroso restaurante, e assim faria todo o sentido que os azulejos tenham sido confeccionados em Sintra, que lhe fica próxima. Desiludam-se, porém. Porque o painel foi colocado no pátio interior de uma nobre mansão, ao fundo da rua do Raimundo, em Évora. Talvez para lembrar que, no Alentejo, também se podem degustar magníficos pratos de caça, em estação propícia. Como perdizes, por exemplo.

domingo, 15 de novembro de 2015

Mercearias Finas 108 (e não só...)


Por aqui (imagem), sossegadamente, nos iniciámos na estação da caça, neste ano da graça de 2015, com uma perdiz silvestre, estufada, a saber a campo. Acompanhada de batata frita, fina, e uma salada de feijão verde. Veio também, para a mesa, um jarro de colheita particular, de uma quinta próxima do Cartaxo, vinho branco fresco - sem pergaminhos especiais, mas capaz - porque estava calor. Rumámos, então, a Sintra. Por Colares, 4 Vampiros em falta esperavam-me numa Feira de Velharias espalhada por um  pequeno Largo, e, por volta de Almoçageme, de regresso, na estrada, com permissão e benevolência da A.S.A.E., ou porque era Domingo, uns feirantes expunham, ao ar livre, garbosamente, produtos de Fumeiro nortenhos, fruta da várzea de Sintra, queijos saloios, mel e outros produtos da terra. Trouxe um salpicão de Mirandela, que promete, e uma garrafa de Espadeiro minhoto, com linda cor rubi clarinho. Havemos de ver e provar, em altura própria que os mereça.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Impromptu (17)


Lorca gostava de Gongora, em prejuízo de Quevedo. Pensando bem, talvez se justifique esse afecto literário, porque o poeta Federico não deixa de ser um barroco cultista que escrevia curto, em resumo lírico - mas que, às vezes, chegava ao derrame...
Todas as memórias físicas ou mentais guardam, umas e outras, preciosos documentos, valiosos para os seus detentores e para outros alguns, por sua temática própria, e porque são antigos na idade. Valem o que valem, consoante quem os vê.
Assim, pode ser que uma velha padaria desactivada, próxima do Palácio de Queluz, conserve ainda, no lambril interior da loja, velhos, azuis e bonitos azulejos oitocentistas. Poucos saberão, no entanto, que o alvará original está em nome de um francês, que foi o seu primeiro proprietário e artífice.
Ou que uma antiga e modesta estalagem, na margem do Ave, que abre sazonalmente, ostente, com galhardia, na sala de jantar e como ex-libris da casa, uma antológica garrafeira pequena, mas notabilíssima.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Pela IC 19


Quem diria, pela manhã, a noite que se pôs.
Pareciam sucessivas, assimétricas e desordenadas bandeiras do Brasil, pelas bermas da estrada, de Lisboa a Sintra, os milhares de azedas que recamavam, generosas e alacres, o verde tenro dos campos.
Olho sempre Queluz, com bonomia e gratidão. E, depois, o Fernando tinha para nos oferecer umas postinhas de sável frito com uma magnífica açorda de ovas, que estava daqui!...
Saímos reconfortados com a vida, esquecidos das asperezas do mundo. Até parecia que tínhamos acabado de visitar a Primavera. As azedas vieram connosco.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Mercearias Finas 84


Eu já ia muito em cima da hora, para me dar ao luxo de passar pela ribeira - como costumo fazer - e onde há, quase sempre, aves inesperadas, para além dos quotidianos pardais ou dos patos, que vêm do Palácio, subindo as águas e debicando os limos das margens.
O restaurante, dantes tão ocupado, tinha apenas duas mesas com três clientes espaçados e, por isso, escolhemos lugar à vontade. Convidado, que era, escolhi, na mediania de preço, as pescadinhas fritas (de rabo na boca) com arroz de tomate, que sempre foram uma boa opção, por lá. O branco do Cartaxo, da quinta do sr. Abílio, na sua ligeira acidez citrina, combinou bem.
Mas não resisti a perguntar ao Fernando, se o ciclóstomo de água doce (anunciado, com destaque, na ementa) era à bordaleza ou com arroz de cabidela, malandrinho. "É como quiser!" - respondeu-me ele. Mas a escolha estava feita embora, se fosse eu a pagar, a lampreia tivesse sido a eleita, que já no ano passado me privara dela, ao passar no "Solar dos Presuntos", às Portas de Sto. Antão. E já tinha saudades...
Mas o Fernando é um empregado gentil, que me estima. A meio das pescadinhas, trouxe-me um pratinho dela, com uma posta generosa, em arroz de cabidela. "Gostava que me desse a sua opinião, porque fui eu que a preparei." - acrescentou. Estava óptima, no seu leve avinagrado tintoso, a saber a rio. Que não ribeira...
E foi assim que fiz a minha vernissage, este ano.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A ribeira do Jamor


Passei por lá, ontem. Quase diria, em romagem de saudade. Foi na ribeira do Jamor que vi as primeiras galinhas de água. E, se não fosse um velho explicá-las ao neto, nem hoje saberia dizer o nome daqueles pássaros pernilongos. Viam-se, pela ribeira, pequenos patos que subiam do Palácio de Queluz, melros, pintassilgos e pequenos pardais. Ouviam-se rãs a coaxar, no Verão, cigarras e grilos musicavam o ar. E havia uma figueira, antiquíssima, que a crassa ignorância e desapego da freguesia de Queluz ou da Câmara de Sintra mandou arrancar. Dava uma sombra benfazeja, nos dias de calor, para quem atravessasse a pequena ponte quase artesanal que nos levava ao outro lado. E figos, bem saborosos - que ainda comi dois ou três...
Ontem, a ribeira do Jamor ia transparente e límpida. Normalmente, quando lá passava, na ponte, as margens estavam juncadas de lixo e detritos. A atenção ao ambiente já morreu há muito e as criancinhas também aprenderam pouco, nas escolas portuguesas, de agora... Como eu dizia, a ribeira ia clara e limpa em direcção ao Palácio. Na sua placidez inofensiva e bucólica, esquecemos que esta ribeira do Jamor, aquando das chuvas do Inverno, também pode ser assassina. Matou nos anos 60, voltou a matar em Fevereiro de 2008 : duas jovens que iam, de Belas, para o seu trabalho, logo pela manhãzinha. Quem a visse, ontem, à ribeira do Jamor, cantarolando entre os seixos lavados e os limos verdes, não acreditaria.