Os morangos ainda sabem a nada, ou a água chilra deslavada, porque só em Maio começam a ganhar personalidade gustativa. Mas os nossos queijos tradicionais ainda estão na sua plenitude de sabor. Está a acabar-se a saison da lampreia que, castiçamente, é muito curta: Fevereiro e Março. E ainda não me começou a apetecer sardinha: lá para finais de Abril, talvez. Mas, hoje em dia, há de tudo sempre e em qualquer altura. Perdeu-se assim a espera desejada dos primores.
Ontem, vieram para a mesa umas Vieiras gratinadas, que estavam um espanto, com o seu recheio doméstico, mesclado de bocadinhos de lombo de linguado e segmentos róseos de gambas. Hoje, fora de tempo também, há-de comer-se uma especiosa maionese de lagosta, porque era preciso descongelar o frigorífico. E tudo isto vai indo assim, fora de tempo. Acessível de preço, saboroso nem sempre, mas sem os rituais antigos, que a memória conserva.
Porque dantes, Lagosta era uma vez por ano e na Póvoa de Varzim, quando a minha Mãe decidia ir à rua Tenente Valadim escolher, do tanque da loja de marisco, o bicho que lhe parecesse mais maneirinho e a contento. A loja tinha viveiros próprios encravados e cavados em penedos do mar da Póvoa, que eu cheguei a visitar e conhecer. E a Lagosta era o primor e o ritual de Agosto. Vinha, viva, de patas ou pinças atadas para casa, onde era metida na panela, cruelmente, em água fervente com algumas, poucas, pedrinhas de sal grosso...