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domingo, 5 de novembro de 2023

Variações






Depois de O Retrato de Ricardina (Lisboa, 1868?), o primeiro romance que li de Camilo, ter-se-á seguido, ao que julgo, O Senhor do Paço de Ninães (Porto, 1867). O prefácio, que o romancista titulou Advertencia, na altura, não me despertou nem incomodidade, nem surpresa - estávamos em tempos liberais e mais saudáveis e não, como hoje, aperreados a puritanismos palermas e infantis. De criaturas virgens serôdias, inquisitoriais.
Saboroso e informado, vale a pena transcrever o início deste prólogo camiliano. Reza assim:

"Na edição d'este romance, dada em folhetins do Commercio do Porto, estampou-se uma nota que dizia respeito aos «mulatos» do seculo XVI. O author inadvertidamente entendeu á moderna a palavra como a tinha entendido outro ignorante mais antigo que ementára a lei de D. João III, citada na dita nota com as palavras «Leis respectivas aos escravos». Mulatos, ao menos os alludidos na lei de 1538, não eram homens, eram «machos asneiros, filhos de cavallo e burra». Se eu tivesse consultado frei Joaquim de Santa Rosa Viterbo antes de annotar o vilipendio dos escravos no seculo XVI, em Portugal, não injuriaria os filhos das burras chamando-lhes filhos de pretas. N'aquelle tempo era melhor ter a primeira linhagem. (...)"

Ora imagine-se, hoje em dia, um romancista voltar a escrever isto. Caíam-lhe em cima os fiscais todos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Divagações 177 (seguidas de uma curtíssima antologia)

 

Não se pode dizer que eu seja um entusiasta de prefácios, a livros. Mas aprecio imenso um bom prefácio e que tenha a qualidade adaptada ao conteúdo, enriquecendo-o. Como é o caso da maior parte dos prólogos de Jorge de Sena. Ou de alguns saborosos prefácios camilianos, como esta introdução de A Brasileira de Prazins, com que me cruzei, há pouco. E aqui vai o seu início:

Entre as diversas moléstias significativas da minha vèlhice, o amor aos livros antigos - a mais dispendiosa - leva-me o dinheiro que me sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de pílulas e tizanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me ilustro com os arcaísmos, arruíno o estômago e enferrujo o cérebro em uma caturrice académica.
Constou-me aqui há dias que a snr.ª Joaquina de Vilalva tinha um gigo de livros vélhos entre duas pipas na adega, e que as pipas, em vez de malhais de pau, assentavam sobre missais. O meu informador denomina "missais" todos os livros grandes; aos pequenos chama "cartilhas". Mandei perguntar à snr.ª Joaquina se dava licença que eu visse os livros. Não só mos deixou ver, mas até mos deu todos - que escolhesse, que levasse. Examinei-os com alvoroço de bibliómano. Eles, gordurosos, húmidos, empoeirados, pareciam-me sedutores como ao leitor delicadamente sensual se lhe figura a face da mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverisada de bismuto. (...)


quarta-feira, 20 de maio de 2020