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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Praxes


Quando, em 1931, Alberto de Souza aguarelou este Estudante, as praxes académicas circunscreviam-se a Coimbra, tal como nos anos 60, quando por lá andei. E até o Dux Veteranorum estava obrigado a respeitar as regras do Código, que tinham mais de lúdico do que de punitivo ou dramático.
Nos anos 80/90, com a proliferação de canhestras e oportunistas Universidades, de saber pouco rigoroso e duvidosa qualidade científica, o uso de capa e batina e as praxes alastraram de forma selvagem, permanente, exercidas por energúmenos ignorantes e sádicos, sobre caloiros submissos e, talvez, propensos ao exibicionismo.
Foi assim que tivemos o nosso Jonestown (da seita People's Temple), na praia do Meco, embora de menores dimensões numéricas nas mortes incompreensíveis e inúteis.
Parece que o novo Ministro do Ensino Superior está disposto a um braço de ferro que acabe com estas práticas medievais e aberrantes. Faço votos para que não perca a coragem e não lhe falte a perseverança!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A foleirice e o desemprego

Ontem, o Chiado era uma algazarra gárrula e alarve de capas e batinas pretas praxando uns púberes caloiros e caloiras à futrica. O alarido foi pela noite adiante como, de tarde, já os tinha visto no Metro, suados e bebidos, bem agasalhados nos seus trajes negros académicos - que, em Lisboa, são de recentíssimo uso. Exibem-nos como quem mostra ténis Nike para identificar o estatuto...
Quando, nos anos 60, deixei Coimbra para vir estudar para Lisboa, foi uma libertação poder abandonar a capa, a batina e o colete negros, e voltar a trajar à civil. Era no tempo em que  as etiquetas das marcas, discretamente, vinham no avesso da roupa, fosse ela qual fosse. Por outro lado, o ambiente universitário de Lisboa era muito mais arejado do que o de Coimbra, fechado e quase reaccionário nas atitudes e praxes.
Mas, também nisto, a globalização estandardizou tudo. Até nos costumes académicos.
E, ontem, ao ver aquele negrume juvenil, não pude deixar de pensar, melancolicamente, que era uma espécie de luto antecipado pelo desemprego que os espera, dentro em breve...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Praxes conimbricenses



Fortuitamente, nasci em Coimbra e em plena celebração da Queima das Fitas, segundo me disseram. Nos inícios de 60 lá voltei para estudar e por lá passei cerca de dois anos lectivos. Vivi, "sofri" e, vagamente, exerci também as praxes académicas. Eram aspectos "legislativos" inocentes, se comparados com a crueldade e desmandos que, hoje, se praticam em nome da tradição (?) praxística. E que condeno, veementemente. Não sei se hoje se mantêm, em Coimbra, as regras que até tinham o seu próprio código em livro: "Código da Praxe Académica de Coimbra", Coimbra Editora, 1957. Dele respigo alguns pontos mais interessantes, hierárquicos e não só:
1. Título VI - Da hierarquia das Faculdades - Artigo 14º : A hierarquia das Faculdades, em ordem descendente, é a seguinte:- Medicina, Direito, Ciências, Letras e Escola Superior de Farmácia.
2. Título VI - Da hierarquia dos animais - Artigo 15º : A hierarquia dos animais, em ordem decrescente é a seguinte:- «Bicho», «cão», «polícia» e «caloiro».
3. Título XII - Das auto-protecções - Artigo 151º : Todos os que estiverem embriagados ficam auto-protegidos, ainda que só haja protecção de sangue. Esta protecção tem o nome de protecção do «Deus Baco».
4. Título II - Da tourada ao lente - Artigo 213º : Constitui "tourada ao lente" a recepção feita pela Academia ao professor universitário, doutorado ou não, nacional ou estrangeiro, no momento em que este se disponha a dar em Coimbra a sua primeira aula teórica a alunos universitários.