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domingo, 11 de fevereiro de 2024

Da leitura (55)

 

É sempre com alguma expectativa que enceto a leitura de um autor desconhecido, sobretudo se já foi premiado. Neste caso, a francesa Annie Ernaux (1940), com o Nobel de Literatura de 2022.
Vou a páginas 43, o que não me permite tirar conclusões antecipadas, mas a obra lê-se corrediamente, com manchas tipográficas pequenas em vez de capítulos e com uma história autobiográfica (?), até aqui, simples.
Faz lembrar o estilo de G. M. Tavares (Expresso e JL), embora os textos deste autor sejam mais desarrumados.
A ver vamos o que o futuro me reserva do resto da leitura do livro La Place (1983)

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Desnorte



Creio que o Nobel atribuído às Ciências mantém, ainda hoje, a respeitabilidade e rigor em relação aos nomeados e premiados, pese embora o facto de que uma avaliação criteriosa do cidadão comum obrigasse a um conhecimento mínimo, mas também a alguma especialização da matéria em causa. A atribuição recente do Prémio Nobel de Medicina aos pioneiros (o norte-americano D. Weissman e a húngara K. Karikó) na descoberta de vacinas contra o covid-19, no entanto, parece-me séria e sensata. Merecida, também.
Quanto ao Nobel da Literatura, na minha perspectiva e de há uns tempos a esta parte, o desnorte e irracionalidade crítica têm sido quase sempre dominantes, quanto aos premiados. Neste ano de 2023, a "bolsa de valores" contém 5 escritores candidatos. Mas as notícias sensacionalistas encaram a hipótese de Joni Mitchell ou Patti Smith poderem vir a ser escolhidas. E porque não Elton John?, pergunto eu...
Agora, falando a sério, e se eu fosse do júri votaria, convictamente, em J. M. Coetzee (1940).

Nota pessoal, posterior: por lapso de memória, não me lembrei que Coetzee tinha sido nobelizado em 2003, conforme Maria, no blogue amigo Prosimetron, me recordou, e a quem agradeço.
Assim, este ano, não teria candidato. Abstinha-me.

sábado, 7 de outubro de 2017

Miscelânea descentrada


Levei cerca de uma hora a ler um hebdomadário e um diário, saídos hoje, ainda frescos.

Haverá alguém que imagine o Prémio Nobel a ser atribuído a John Le Carré? Creio que não.

Premeia-se por contraste, para tomar posição. Veja-se o da Paz, ou a deslocação do Sabadell...

Sempre Verão, também cansa. Porque conheço algumas pessoas que aspiram a ver a chuva, de casa.

Os 2 jornais, que li, recomendam quase só vinhos de 9 a 30 e tal euros. Para quem?

Recordo que, nas Cooperativas do Douro, as uvas se estavam a pagar a menos de 1 euro, o quilo.

No "Expresso", há dois encartes, grossos, sobre Angola. Vingança do chinês, ou subserviência lusa?

Vou reler o último livro de Gastão Cruz (Existência) para arejar a vista e mudar de alma.

Que, como dizia um poeta inglês: a esperança terá de ir para outras coisas.

Até porque Londres e o seu hipotético nevoeiro não me vão, seguramente, mudar a vida.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Modiano em Estocolmo


Do alto dos seus canhestros 1m94, aqui vai a primeira intervenção de Patrick Modiano (1945), a 7 de Dezembro de 2014, em Estocolmo. Com 2 minutos e 27 segundos introdutórios, em língua sueca, que eu não entendo, mas que, sendo formais, não terão decerto interesse de maior...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

1 Nobel, entre mais 2 autores franceses


A leitura que fiz de "Un Pedigree" (2004), em menos de um dia, ter-se-á ressentido, porventura, de ter sido ensanduichada entre a imediatamente anterior (L'Escalier de Fer, de Simenon) e a que se tem vindo a seguir (Balanço Final, de Simone de Beauvoir). Há que dizê-lo, por uma questão de isenção e honestidade. Porque são ambos, estes dois últimos livros, de grande qualidade literária.
Em jeito de resumo ou conclusão de leitura, eu diria que esta obra de Patrick Modiano (1945) é um livro, no mínimo, desconcertante. Porque, não sendo propriamente uma autobiografia, também não é uma obra de ficção, até porque as variadas figuras que por ele perpassam, não chegam a ter consistência literária, nem suficiente espessura psicológica. Muito menos será um ensaio. Mas Modiano bem nos tinha avisado: "J'écris ces pages comme on rédige un constat ou un curriculum vitae...".
Tirando uma acrimónia ressentida subtil, mas crónica, em relação ao pai e, embora menor, em relação à mãe ("C'était une jolie fille au coeur sec."), a narrativa é bastante asséptica (fria?), quanto a sentimentos ou descrição de emoções. A multidão infinita de personagens, que a cruzam e o ritmo veloz, fazem lembrar umas "Páginas" (ou será "O mundo à minha procura"?), de Ruben A., a que faltasse um estilo marcado e uma efabulação metafórica e imaginativa.
E há uma pergunta que, uma vez lido este "Un Pedigree" (título homenageando Simenon), fica a pairar, neste leitor que eu fui: Será isto verdadeira literatura? Pese embora que a leveza é este ar fluído, breve e efémero que predomina, em muitos dos livros que se publicam, nos nossos dias...

agradecimentos a H. N., pelo empréstimo amigo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Perplexidades menores


Que me fará iniciar, hoje, o terceiro poste sobre Patrick Modiano (1945), Nobel de Literatura 2014, francês, mas de que nunca li nenhum livro, até agora?
A sua prestação em vídeo-entrevistas (Youtube) é canhestra, titubeia interminavelmente nas respostas, parece ter um pensamento errático e desarrumado, faz grandes gestos desacompanhados, abusa frequentemente de jargões: evidemment, é um deles...
E o mais estranho é que, nem os dois últimos Le Monde des Livres, nem os 2 mais recentes "Obs." disseram o que quer que fosse sobre ele, ou sobre a sua obra. Terá Modiano má imprensa? É bem possível...
Mas estas misteriosas omissões insólitas e curiosas seriam comparáveis, por exemplo, a que, aquando da atribuição do Nobel a José Saramago, nem o JL, nem a revista Ler, nem o Atual (Expresso), nem sequer a ípsilon (do jornal Público) falassem dele.
Talvez Modiano seja apenas aquilo que os franceses disseram de Hollande: "É um homem normal." No caso concreto: é um escritor normal (banal?). Ou terão vergonha de falar sobre ele?

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Qualidade, quantidade e coscuvilhice


Era sabido que os romances de Patrick Modiano (1945), em França, não se vendiam muito (em Portugal, parece que também não...), embora o considerassem um digno sucessor de Simenon, na sábia construção de atmosferas. É provável que, agora e por algum tempo, passe a vender mais, que o Nobel acaba sempre por trazer às livrarias alguns cordeirinhos tresmalhados.
Entretanto, a última obra da senhora Trierweiler - diz o "Obs." - já vendeu 442.000 exemplares, fazendo, com certeza, o pleno dos leitores das melhores revistas róseas gaulesas. E até nem incluo nestes consumidores, por uma questão de justiça, o sr. Hollande, que tinha todo o direito ( e interesse) de conhecer o enredo dessa obra histórica e actual. Mesmo que já não tivesse uma atmosfera nupcial...

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O que eu não sabia de Modiano


De Patrick Modiano (1945), escritor de língua francesa, com ascendência paterna italo-judaica, recém-premiado Nobel da Literatura, para além do nome, pouco ou nada eu conhecia. Nem sequer tinha lido nenhuma obra sua.
Por curiosa coincidência, um dos últimos Le Monde (3/10/14) inclui uma recensão (Créateur d'ambiance), de Éric Chevillard, sobre um seu recente livro, Pour que tu ne te perds pas dans le Quartier, editado pela Gallimard. No jornal tinha eu, por acaso, feito alguns sublinhados nesse texto. Aqui os passo a alinhar, traduzidos:
- Para certos escritores, a unidade da medida é a frase. (...) Mas outros autores, pelo contrário, usam a frase como uma peça neutra de um puzzle. (...) Tomemos como exemplo a obra de Patrick Modiano. Os seus romances não são livros, mas aerossóis: ambiência Modiano.
- Patrick Modiano é há mais de quarenta anos uma bela figura da nossa literatura, que vive o seu sucesso com uma elegante modéstia e que persegue incontestavelmente uma indagação pelas brumas do passado.
- Segundo Modiano, a verdade dos seres e da sua história não existe senão no passado, um passado que se vai desnudando à medida em que eles se esforçam para se re-transportarem até ele.

domingo, 8 de setembro de 2013

No ano do centenário do nascimento de Albert Camus


É um documento humano de grande lucidez, este discurso que Albert Camus (1913-1960) leu, em Estocolmo, aquando do recebimento do Prémio Nobel da Literatura, em Dezembro de 1957. Aqui fica.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Por amor aos livros


Com a devida vénia a MR, no seu Prosimetron, eu não resisti ao plágio de transpôr este "cristalzinho" para o Arpose. Não fossem os livros, não fosse este sósia de Buster Keaton envelhecendo, lentamente...
O filme teve o Óscar de melhor curta metragem. Às vezes o Óscar acerta, às vezes o Nobel cai bem, às vezes o azeite vem ao de cima.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

As palavras sucintas


De Wislawa Szymborska (1923-2012), polaca, que recebeu o Nobel em 1996, conheço muito pouco: 2 ou 3 poemas que apareceram traduzidos, em jornais portugueses. Mas, por outro lado, sou um curioso interessado pelos discursos que os galardoados fazem em Estocolmo, ao agradecer o prémio. Já aqui, no Blogue, me referi às palavras de Camus, às de T. S. Eliot e às de Saramago, pelo menos. Porque me parecem importantes, sempre, para melhor conhecimento da obra e do homem ou mulher, em causa.
Ao que parece, o discurso Nobel de Wislawa Szymborska foi dos mais sucintos, se não o mais curto dos que foram pronunciados, em Estocolmo, até hoje. E cheio de auto-ironia. Aqui vai uma parte dele:
"...O trabalho dos poetas não podia ser menos fotogénico. Há alguém que se senta a uma mesa ou se deita num sofá e, imóvel, olha para a parede ou para o tecto. De vez em quando essa pessoa escreve umas linhas, apenas para riscar uma delas, 15 minutos depois, e lá se passa mais uma hora sem que nada aconteça... Quem suportaria assistir a uma coisa destas? ..."

domingo, 10 de outubro de 2010

Memória 42 : Harold Pinter

Harold Pinter (1930-2008) faria, hoje, 80 anos. Grande dramaturgo, recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 2005. Já doente, não foi a Estocolmo para recebê-lo, mas gravou um vídeo onde disse aquilo que queria dizer. Era um intelectual interventivo, como já não os há, praticamente. Todos eles acantonados, hoje, no limbo do conforto, vivendo dos dividendos da patética submissão aos poderes dominantes. Falando de "Trifles, trifles. Bagatelles....", como diria Jorge de Sena, e assobiando para o lado neste mundo cada vez mais injusto e apodrecido de princípios éticos.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

François de Mauriac, católico e pecador


Precisamente há 40 anos, François de Mauriac falecia em Paris, poucos dias antes de completar 85 anos: nascera em Bordéus, a 11 de Outubro de 1885. Algum tempo após a sua morte, vieram à luz pormenores da sua vida privada e pessoal que fizeram abalar a sua imagem de figura moral das letras francesas. Engajado num catolicismo socializante, "gaulliste" fervoroso, Mauriac recebera o Prémio Nobel da Literatura em 1952 ("Les grands romans vient du coeur."). Analista cirúrgico das paixões da alma, os seus romances estruturam-se na intensidade trágica dos conflitos humanos sem resolução, onde o bem e o mal - muitas vezes identificado pela religião - se digladiam, interminavelmente.
O Deserto do Amor, Thérese Desqueyroux, O beijo ao Leproso, traduzidos em português, são alguns dos seus romances mais significativos. E de que retenho memória; como ele dizia, "nous méritons tous nos rencontres. Elles sont accordées a notre destiné". Este determinismo, algo dramático ou fatalista, de espírito, que é uma das suas marcas romanescas, não excluía, porém, um sentido de humor agudo e brilhante. Poucos anos antes de falecer, disse: "C'est merveilleuse la veillesse... domage que ça finisse si mal.".

domingo, 3 de janeiro de 2010

Nos 50 anos da morte de Albert Camus






Completam-se, amanhã, exactamente 50 anos sobre a morte de Albert Camus (1913-1960), num brutal acidente de viação. Figura incontornável quer no desespero existencial do seu pensamento, quer na esperança quase juvenil e generosa de pensar o futuro, A.C. foi Prémio Nobel de Literatura, em 1957. Algumas das suas obras, mais importantes, ajudaram a crescer a minha geração. Destaco "O Estrangeiro" e "O Mito de Sísifo" que ele terminava com esta frase lapidar : "É preciso imaginar Sísifo feliz."


Transcrevo um pequeno excerto do discurso que Albert Camus pronunciou, em Estocolmo, quando recebeu o Prémio Nobel. São palavras, ainda hoje, de grande actualidade.


"...Cada geração sente-se, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrupta onde se mesclam revoluções decaídas, tecnologias enlouquecidas, deuses mortos e ideologias esgotadas, onde poderes medíocres podem hoje destruir tudo, mas não convencer, onde a inteligência se rebaixou para servir o ódio e a opressão, esta geração tem um débito para com ela mesma e para com as próximas gerações, que é restabelecer, a partir das suas próprias negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer..."