A leitura que fiz de "Un Pedigree" (2004), em menos de um dia, ter-se-á ressentido, porventura, de ter sido ensanduichada entre a imediatamente anterior (L'Escalier de Fer, de Simenon) e a que se tem vindo a seguir (Balanço Final, de Simone de Beauvoir). Há que dizê-lo, por uma questão de isenção e honestidade. Porque são ambos, estes dois últimos livros, de grande qualidade literária.
Em jeito de resumo ou conclusão de leitura, eu diria que esta obra de Patrick Modiano (1945) é um livro, no mínimo, desconcertante. Porque, não sendo propriamente uma autobiografia, também não é uma obra de ficção, até porque as variadas figuras que por ele perpassam, não chegam a ter consistência literária, nem suficiente espessura psicológica. Muito menos será um ensaio. Mas Modiano bem nos tinha avisado: "J'écris ces pages comme on rédige un constat ou un curriculum vitae...".
Tirando uma acrimónia ressentida subtil, mas crónica, em relação ao pai e, embora menor, em relação à mãe ("C'était une jolie fille au coeur sec."), a narrativa é bastante asséptica (fria?), quanto a sentimentos ou descrição de emoções. A multidão infinita de personagens, que a cruzam e o ritmo veloz, fazem lembrar umas "Páginas" (ou será "O mundo à minha procura"?), de Ruben A., a que faltasse um estilo marcado e uma efabulação metafórica e imaginativa.
E há uma pergunta que, uma vez lido este "Un Pedigree" (título homenageando Simenon), fica a pairar, neste leitor que eu fui: Será isto verdadeira literatura? Pese embora que a leveza é este ar fluído, breve e efémero que predomina, em muitos dos livros que se publicam, nos nossos dias...
agradecimentos a H. N., pelo empréstimo amigo.