Tem-se rodeado de alguma polémica uma recente e ambiciosa exposição, em Nova Iorque, intitulada Unfinished: Thoughts left visible. A mostra abarca diversas obras inacabadas que vão desde pinturas de Leonardo da Vinci a Picasso, passando por Van Eyck, Rembrandt, Turner e Cézanne, entre outros mestres.
O mote para esta exposição partiu de uma citação de Plínio, o Velho, que, na sua obra História Natural, refere, mais ou menos, o seguinte: "...um facto pouco comum, mas memorável, são as últimas obras de um artista, inacabadas, que acabam por ser mais admiradas do que as que foram terminadas, porque naquelas se podem ver os traços preliminares e descortinar as intenções do pensamento do artista." Esta citação poderia aplicar-se a Da Vinci, sobretudo, ao quadro incompleto S. Jerónimo, que seria um bom exemplo.
Tenho alguma dificuldade em aceitar este postulado, que me parece excessivamente dogmático, considerando até o facto de saber-se que algumas pinturas (abandonado o tema original) foram pintadas por cima, com motivos divergentes dos iniciais. Mas Patrick McCaughey (TLS nº 5901) refere ainda, a propósito da inacabada Rue en Anvers-sur-Oise (1890), de Van Gogh, onde o céu não foi completamente pintado: "Todos poderão reconhecer a veemência do trabalho de Vincent van Gogh, cujas pinceladas muito marcadas de azul parecem ter a força de marteladas que imprimissem na tela, a fresca revelação do poder e paixão do Pintor."
Mais convincente esta afirmação, mesmo assim deixa-me dúvidas.
Mais convincente esta afirmação, mesmo assim deixa-me dúvidas.