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quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Do que fui lendo por aí...67



É um livro maciço (1.060 páginas, incluindo as notas finais) que terminei há pouco de ler, sem no entanto, ao longo do percurso, ter feito batota na leitura ou me ter desinteressado, porque Pierre Assouline (1953) fez um bom trabalho sobre a vida e obra de Georges Simenon (1903-1989).
Pelo caminho, fui tomando os meus apontamentoss com citações da obra, de que retenho duas mais interessantes, que traduzi:

- Simenon é desde há pouco o autor mais roubado nas bibliotecas municipais da cidade de Paris. (pg. 559)

- "É tempo de me passar para o clã dos velhotes", ou ainda: "Envelhecer é uma sucessão de últimas vezes." (pg. 912)

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Registo



É Pierre Assouline que o refere, a páginas 324 de Simenon, a propósito deste livro editado em 1937:

Do próprio testemunho do autor, Le Testament Donadieu deve ser considerado como o seu "premier roman". Dito de outro modo, o primeiro dos seus romances não policiais, a ser de facto literário, ainda que se inicie por uma morte enigmática.


Nota pessoal: este romance de Georges Simenon (1903-1989) é também um dos mais extensos dos ditos "romans durs" do escritor belga. Com 318 a 466 páginas consoante as editoras e o tipo e tamanho de letra, nas suas diversas impressões.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Antologia 21



Outros locais, outro meio. Mas deixando Fayard pela Gallimard, Simenon não muda de estilo. Ele segue o seu plano.
Seria sobrestimar realmente a influência  de um editor atribuir-lhe um tal poder sobre o mecanismo de criação de um dos seus autores. Principalmente quando este tem a força de carácter e a personalidade de um Simenon, mais inclinado a imaginar a sua obra do que a debruçar-se sobre as teorias da sua escrita. Contrariamente ao que inventaram esses ensaístas muito franceses que as classificações dão como seguras, não há uma época Gallimard, entre a época Fayard e a época Presses de la Cité, como se costuma dizer dos períodos azul ou rosa de Picasso.

Pierre Assouline (1953), in Simenon (pg. 296).

terça-feira, 2 de abril de 2024

Da construção de um policial

 
Em 1931, Georges Simenon (1903-1989), em artigo para J. K. Raymond-Millet, que veio a ser publicado em Le Courrier cinématographique de 31 de Junho, descreve de forma sucinta e exacta o uso do seu tempo, centralizado na elaboração dos seus romances policiais. O modo exemplar e pitoresco do texto justifica, para registo do Arpose, que o traduza, com base no livro de Pierre Assouline, Simenon (pgs. 228/9). Assim:




"A minha existência está segmentada em períodos de quinze dias. Em cada um destes períodos, um romance é inteiramente composto. No primeiro dia, eu passeio, sozinho e ao acaso. Corro, sento-me ou ando. Observo quem passa. Dou espaço às minhas personagens. Apresento-as umas às outras. Vejo. Quando chego a casa, já tenho o «ponto de partida» onde se desenrolará a acção e a sua «atmosfera». Não me é preciso mais nada. E nem penso mais nisso. Deito-me. Adormeço. Sonho. As personagens crescem por dentro de mim e sem o meu concurso. Em breve já nem sequer me pertencem: têm a sua vida própria. No dia seguinte e dias posteriores, eu não tenho mais nada senão contar-lhes a história. Já lhe tinha dito que dactilografo eu próprio as minhas páginas directamente sem passar pela escrita à mão? Poucos retoques ou modificações. Os meus livos saem ao primeiro jacto.
Escrevo sempre sem um plano; deixo a minha gente agir e a história evoluir seguindo a lógica das coisas. Os meus romances têm geralmente doze capítulos. Começo um capítulo cada manhã, não mais. Isto não me ocupa mais do que hora e meia; mas em seguida fico vazio para o resto do dia. Bom! doze capítulos, portanto doze dias, e isto faz com o dia de preparação, treze dias. No décimo quarto dia, eu releio o meu alfarrábio. Corrijo os erros de distracção, a pontuação, talvez uma dezena de palavras em todo o texto. E levo a obra ao meu editor. No décimo quinto dia, recebo os meus amigos, respondo às cartas que recebi entretanto durante essa quinzena, e dou entrevistas. E tudo isto recomeça exactamente da mesma forma, durante a quinzena que se segue."

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Para uma silhueta de Maigret



Tenho vindo a ler, paulatinamente, um grosso volume, com mais de mil páginas, em que o francês Pierre Assouline (1953) se debruça sobre a vida e obra do belga Georges Simenon (1903-1989). Sendo um trabalho importante e original de análise e investigação, achei por bem vir a fazer uma pequena selecção do que fui lendo, e traduzindo algumas passagens mais significativas, que por aqui deixo registadas:




"Nome (Maigret) engraçado. Como o teria ele (Simenon) encontrado? Quando o pequeno Sim era jornalista na Gazette, um elemento da polícia de Liége chamava-se Arnold Maigret, mas nada indica que os dois homens se tivessem conhecido. Em Paris, um tal Julien Maigret, que acabava de passar quinze anos no Congo, prepara-se para assumir o cargo de primeiro director do Poste Colonial, emissora de rádio do império francês, em maio de 1931, ou seja dois anos depois de ter surgido o patronímico pela pena do escritor. (...) E Simenon descobrirá ainda mais tarde com boa disposição, lendo no inglês Sainte-Beuve de Harold Nicholson, que na página 201 um certo «M. Maigret, director da Segurança geral» teve uma intervenção nos acontecimentos ocorridos em 1855, se não há mais tempo!
Bem como há que confessar: que se ignora como este nome lhe veio ao espírito, ainda que se possa especular infinitamente sobre a relação entre a sua raiz (maigre) e a silhueta volumosa desta personagem com 110 quilos e 1,80 m. de altura.
Jules Maigret nasce para a literatura aos 45 anos, que é praticamente a idade com que morreu o pai de Simenon. Está casado, sem filhos, tal como Simenon a princípio." (Pgs. 207/8)



"Maigret não é um intelectual nem um cerebral: não pensa nem reflecte. Bastante inteligente, mas não manhoso, é um intuitivo e instintivo puro. Como uma esponja, absorve, impregna-se, penetra numa atmosfera para melhor compreender os mecanismos desse meio. O seu faro, ainda mais do que a sua capacidade de reflexão leva-o às mais audaciosas deduções. (...) É um homem de rituais. Vai ao cinema uma vez por semana. À tarde quando regressa a casa, entre o segundo e o terceiro andar, desabotoa o casaco para tirar as chaves do bolso. Embora saiba que Louise, a sua mulher, lhe abrirá a porta mesmo antes de ele meter a chave na fechadura." (pg. 209)

com agradecimentos a H. N., pelo empréstimo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Recomendado : cinquenta e dois - Simenon


Organizado por Pierre Assouline, com textos e iconografia muito variada, este Hors-Série Le Monde, saído há poucos dias, é um must, para quem goste da obra de Georges Simenon (1903-1989).

quarta-feira, 7 de março de 2012

Cepticismos


Talvez pela idade, talvez por cepticismo, raramente me abandono, com facilidade e de imediato, à euforia mediática, tantas vezes leviana e superficial, com que se saúdam mudanças de regimes políticos. Há que esperar, até ver. Basta-me o exemplo do Irão, na sua transição do Xá Reza Pahlevi para o ayatollah Khomeini, para fundamentar a minha prudência e reserva.
Sobre as ditas Primaveras árabes, presentemente e ao que parece, a Tunísia, em questão de liberdades, não vai lá muito bem; o Egipto, após a restauração da democracia (?), já conta várias mortes na sua agenda política. E, na Líbia, o país está ameaçado por cisões territoriais importantes. Mas com o apanhar das canas, depois dos foguetes delirantes, já pouco se importam os jornalistas incipientes, grande parte dos jornais, e muitos dos canais televisivos. Já estão noutra onda de euforia...
A propósito da liberdade intelectual, nos dias de hoje e na Tunísia, a situação não é brilhante, nem saudável. Pierre Assouline, no "Le Monde" (2/3/2012), cita uma romancista do país (Azza Filali?) que terá dito: "Conhecemos mais escritores que morreram por causa da sua escrita, do que escritores que tenham vivido da sua escrita". Como metáfora, parece-me concludente. E suficientemente elucidativa para me permitir a mais comentários... Por aqui me fico.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A ressurreição de Georges Simenon


O recente ressurgimento de interesse pela obra de Georges Simenon (1903-1989) levou a que o jornal "Le Monde" lhe tivesse dedicado um suplemento de várias páginas, em 17/6/2011. Muito embora os livros, tendo Maigret como protagonista, continuassem a editar-se, regularmente, e a ter leitores fiéis, começou a aumentar o interesse pelos chamados romances "durs", três dos quais tiveram, em anos recentes, adaptações televisivas filmadas: "Les Innocents", em 2006, "Monsieur Joseph" baseado em "Le petit homme d'Arkhangelsk", em 2007, e a adaptação de "La mort de Belle", em 2009, sob o título de "Jusqu'à l'enfer", por Jacques Santamaria.
Também em Itália (com tiragens de 50.000 exemplares), na Suiça e Alemanha, a edição de obras de Simenon se tem intensificado através de novas traduções porque, como "Le Monde" refere, as antigas, em qualidade, deixavam muito a desejar. Nomeadamente 2 feitas, para a língua alemã, pelo poeta Paul Celan ("no melhor pano cai a nódoa"...). O filho de Simenon, John, estuda também a possibilidade de vir a publicar a correspondência pessoal do Pai, onde se incluem cartas de Fellini, Henry Miller, Mauriac e outros. Na França volta a publicar-se a sua obra completa, desta vez juntando no mesmo volume livros com os três  temas principais de Simenon: o policial (Maigret), o chamado romance "dur" e a autobiografia ficcionada.
Eu, que o tenho por autor de referência e cabeceira, há muito, gostaria de realçar algumas das suas obras da minha preferência, se possível a ser lidas em francês e no original: "Le chat" (1966), "Lettre à ma Mére" (1974), "Tante Jeanne" (1950), "La neige était sale" (1948). Mas o interesse e qualidade da obra de Simenon não se esgota nos 4 livros que acabo de referir. Não são, de todo, romances ligeiros, nem muito divertidos (para isso, ler "La maison des sept jeunes filles", de 1937), muitas vezes são até melancólicos ou pesados. Como diz Pierre Assouline: "Simenon se savait incapable d'être drôle." Mas a sua leitura, muitas vezes, também pode funcionar como uma vacina, tendente a um desejado reequilíbrio pessoal. Fica a recomendação.

para H. N., por óbvias razões.

sexta-feira, 26 de março de 2010

A lágrima do Filósofo





Mão atenta de um Amigo fez chegar, até mim, um pequeno artigo de Pierre Assouline. Apontamento breve e conciso, grave no tom, humano de conteúdo. Entre várias informações interessantes, conta que a George Steiner foi permitido folhear, no Château de Chantilly, em França, um exemplar dos "Comentários da Guerra da Gália", de César, que tinha sido pertença de Montaigne. E que tinha anotações, nas margens, do próprio punho do senhor de Eyquem. Perante a preciosidade bibliográfica, George Steiner não conseguiu reter uma lágrima, comovido - conta Assouline.



P. S.: Com agradecimentos a H. N. .