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segunda-feira, 16 de março de 2026

Natalícios

 

Se bem me lembro, creio que comi, pela primeira vez, já tarde na vida, ganso assado, e na Alemanha, por alturas do Natal. Julgo que não estava muito nos hábitos alimentares portugueses dado que, pelo menos a Sul, era já substituído pelo peru, na sua corpulência, pela consoada que, a Norte, não dispensava, normalmente, o Cozido de Bacalhau tradicional.
Ora, porém da leitura do livro constante do poste anterior (Arte do Cozinheiro e Copeiro, 1841), o seu autor Visconde de Vilarinho de São Romão (1785-1863) refere, quanto a gansos, que "Estas aves são boas pelo Natal, engordam-se um mez antes,", o que me permite pensar que nesta primeira metade do século XIX, o peru ainda não tinha ganhado, possivelmente, lugar de honra na mesa natalícia.

domingo, 11 de maio de 2025

Pontifícia menor



 Só me ocorre um provérbio: Não bate a bota com a perdigota.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Eduardo Chirinos (Peru, 1960-2016)


Uma formiga, com esforço,
leva consigo uma folha.
                    A folha é enorme,
várias vezes o seu próprio tamanho.
Trata-se porém de um dever inevitável,
uma pura obediência atávica.
                   Na sua retaguarda
idênticas formigas vão fazendo o mesmo
com diversas folhas. Amanhã vão repetir
um ritual cuja razão totalmente ignoro.

Em breve, vou completar cinquenta anos.
Penso na formiga,
na sua cega dança até à morte.

domingo, 3 de julho de 2016

Cesar Vallejo (Peru, 1892 - 1938, Paris)


Margens do Gelo


Venho ver-te passar todos os dias
vaporzinho encantado sempre longe...
Teus olhos são dois rubros capitães;
teu lábio um vermelho e breve lenço
acenando sempre um adeus de sangue!

Venho ver-te passar; até que um dia
ébria de tempo e crueldade,
vaporzinho encantado sempre longe,
a estrela da tarde há-de partir!

As enxárcias; ventos que atraiçoam;
ventos de mulher que já passou!
Os teus frios capitães hão-de dar ordens;
E quem terá partido serei eu!...


Cesar Vallejo (1892-1938).

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Mario Montalbetti (1953, Peru)


Objeto y fin del poema


É de noite e ele precisa de aterrar
antes que se acabe o combustível.
Assim terminam todos os seus poemas
tentando exprimir numa linguagem pública
um sentimento privado.

A sua ambição é a linguagem do piloto
falando para os passageiros
a meio de uma situação desesperada:
parte engano, parte esperança, em parte verdade.

Todos os poemas terminam de forma igual.
Feitos em pedaços contra um morro escurecido
que não estava nos mapas.

E logo falam os destroços: a fuselagem,
a cauda como sempre, intacta,
o cheiro de coisa queimada consumida pelo fogo.

Porque nenhuma palavra sobrevive.


Mario Montalbetti, in El lenguage es un revolver para dos (2008).

terça-feira, 20 de abril de 2010

Um homem dividido



A literatura espanhola conta com dois escritores de nome Garcilaso de la Vega. Um, poeta e o outro historiador. Aquele de que quero falar, para o distinguirem do poeta, chamam-lhe "El Inca Garcilaso de la Vega". Nasceu no Peru, em Cuzco, a 12 de Abril de 1539, filho do capitão espanhol D. García Lasso de la Vega e da princesa inca Isabel Palla Chimpu Occlo, filha do chefe Huallpa Tupac. Garcilaso viveu com a mãe até aos 10 anos e é dessas memórias e conhecimentos que irá falar na sua obra-prima intitulada "Comentarios Reales de los Incas", publicado pela primeira vez em Lisboa, em 1609. Garcilaso viera para a Europa aos 21 anos de idade. Estudou, combateu, escreveu e traduziu os "Diálogos de Amor" de Leão Hebreu. Dominava o latim, o italiano, o espanhol e o quechua. Homem da renascença espanhola, como militar serviu sob as ordens de D. João de Áustria, mas acabou por se retirar para um mosteiro, desiludido. Dividido entre duas culturas, dizia nos "Comentarios Reales...": "...Naquele tempo tive notícia de tudo aquilo que temos vindo a escrever porque, na minha meninice, me contavam as suas histórias (dos Incas, reis do Peru) como se contam as fábulas às crianças pequenas. ..."
P. S. : em complemento, para H. N..