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domingo, 13 de janeiro de 2019

Marcar territórios


No final dos meus anos de Liceu, eram muito populares uns cadernos em que constava um conjunto de perguntas diversas que nós propunhamos a colegas, desafiando-os (e -as) a responderem por escrito. Normalmente, esses questionários terminavam a perguntar qual a frase célebre preferida do questionado(a) condiscípulo(a). E ninguém se coibia de responder a essas inocentes questões.
Creio que nenhum de nós sabia, na altura, que eles eram os toscos sucessores de um mais bem elaborado questionário de 40 perguntas que Antoinette Faure (1871-1950) propôs, em Maio de 1886, ao seu amigo Marcel Proust (1871-1922), então adolescente. Tratava-se de uma espécie de teste de personalidade que permitia, pelas respostas, avaliar os gostos e maneira de ser dos entrevistados.
Desconheço se hoje esses cadernos ainda circulam nas escolas, com a mesma finalidade.
Mas essa tendência humana para revelar-se aos outros, creio que ainda existe, em cada um de nós, com mais ou menos parcimónia e discrição. E há muitos sinais sobreviventes desse original Questionário de Proust, que o desaparecido Jornal de Letras ressuscitou nos anos 60 para, de algum modo, entrevistar escritores portugueses, homens de teatro e outras personalidades.
E é frequente em muitos blogues que os administradores, nos seus perfis, insiram os seus livros preferidos e autores, os filmes predilectos, músicas favoritas e outras particularidades, marcando assim o seu terreno de eleição e de afectos. Mas também, algumas mais raras vezes, para exibir a sua cultura. E é curioso verificar o contágio provocado pelos postes que enumeram listas de escolhas. São daqueles que mais comentários colhem, habitualmente, dos seguidores desses blogues...