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domingo, 17 de março de 2024

Mercearias Finas 197

 

Creio que nos últimos trinta anos conheci e provei muitas variedades de peixes que nunca tinha experimentado antes. Julgo que isto decorreu, em parte, das restrições impostas à pesca de algumas variedades de pescado, que obrigou a arte e os profissionais a virarem-se para outras qualidades menos conhecidas e mais numerosas quanto à existência marítima.
Se só nos anos 80 comi pela primeira vez Peixe-galo, em filetes, no restaurante 1º de Maio, ao Bairro Alto, o Rascasso veio já muito mais tarde à minha mesa, bem como o Cantaril, e o Lúcio que não é muito frequente aparecer à venda nas bancas do mercado. Quaisquer deles colheram a minha aprovação gastronómica e gosto de favoritos na alimentação.
Desta vez, dominical e assado, veio à mesa, em primícias nossas, um bodião, que dizem os compêndios é peixe que, com a idade, pode mudar de sexo. O que, nos tempos que correm, não é coisa anormal. Tendo sido acompanhado, e muito bem, por um Dão branco Vinha Maria Premium 2017 (Encruzado, Bical e Malvasia-Fina), nos seus 12,5º bem amadurecidos e saborosos.



 

domingo, 31 de maio de 2020

Mercearias Finas 158


Nós íamos pelas sardinhas, mas a D. Leonor ainda não as tinha. Parecidos, só carapaus, que não nos apeteciam para hoje.
Só para a semana: em Junho é que começa a nossa pesca. A que tem havido é espanhola - não presta de sabor! - disse-nos com experiência a Senhora.
Na semana passada tínhamos levado um peixe-galo da banca dela, que estava bom e fresquíssimo.
Circunvaguei o olhar pelo mármore: douradas, azevias, pescadas, chocos e lulas, pregados, duas corvinas grandes, e um único goraz, que também é um peixe solitário. Raramente vai acarneirado ou em cardume, pelas águas marítimas...
O bicho era bonito e fresco, de guelras berrantes e olhos ainda bem salientes.



Ora, eu há mais de 20 anos que não ia em gorazes e HMJ nunca os provara. Fiz conversa sobre o caso, com a Dona da banca e a filha, que ao fim-de-semana, embora licenciada, vem sempre para ajudar a mãe. Fiquei a saber que, durante cerca de 10 anos, os gorazes quase desapareceram de venda (prenúncio de extinção?) e eram muito caros os poucos que apareciam. Recentemente, voltaram. Este, que me namorou, estava a 19,90 euros, o quilo, mas filei-o por escolha final apetecida.


Veio do Telmo um pimento vermelho para, com tomate e cebola, fazer a cama ao goraz, no forno, e, de fora, uma couve-flor maneirinha, em contraste de sabores. A provar, para a mesa, um branco de Pias, da colheita do ano passado, lotado por Arinto, Antão Vaz e Verdelho, com 13º comedidos, que bem exemplificou a sua nobre condição alentejana.
Como sou poupado e gosto de ser preciso, usando, normalmente, com parcimónia verbos (amar, adorar e outras fantasias de meninas pouco experimentadas e de cavalheiros serôdios) muito abusados, direi apenas que tudo estava nos conformes. E bom.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Mercearias Finas 92


Peritos, algo sofisticados, dizem que se devem escolher os pratos de acordo com o vinho que tencionamos abrir. Ou seja, ao contrário do que faz o comum dos mortais que, em função do prato premeditado, vai à garrafeira seleccionar o vinho mais apropriado. Não chego eu àquele esmero enológico, até porque não sou um perito, nem sofisticado.
Mas já me tem acontecido que, ficando duvidoso em relação a um vinho tinto, depois do prato principal, o confronte com queijo, para uma prova dos nove; e, se for branco, para uma maior certeza, o faça acompanhar, depois, de fruta, ou doce, à sobremesa, para uma opinião final.
Duma coisa, tenho eu a certeza: dos brancos alentejanos que conheço, o meu favorito é o Herdade Grande, de António M. Lança, da região da Vidigueira. Abri, no passado domingo, uma garrafa da colheita seleccionada de 2013, que confirmou, pelo seu lote cuidado (Antão Vaz, Arinto e Viosinho que, desta vez, substituiu o Roupeiro), a excelência. Para acompanhar uma criação de HMJ, de peixe-galo com gambas. Que estava uma beleza!
Uma saudade recente...


P. S.: um agradecimento especial, a MR, pelos pimentinhos...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mercearias Finas 60 : o teleósteo maravilhoso


Não se pode dizer que, no Norte, aqui há 40/50 anos, e nas terras interiores, a oferta de peixe fosse muito alargada. O bacalhau, sempre, as sardinhas e carapaus, sobretudo no Verão; a pescada, e mais raramente, os pargos e os linguados. Não havia muito mais, no dia a dia. Semanalmente, passava um homem de bicicleta que se fazia anunciar tocando um cornetim de som desagradável: num pequeno cabaz, na retaguarda do velocípede, trazia peixes do rio, que eu detestava - tinham pouco sabor e muitas espinhas, finíssimas e traiçoeiras.
Mas por Agosto, anualmente, era a desforra e variedade. Lembro-me, especialmente, do "patêlo", que era uma espécie de raia pequena, muito saborosa. E que, em vez de espinhas, tinha cartilagens quebradiças e flexíveis. Frito e com batatas fritas e/ou arroz de tomate, era o meu prato de peixe preferido, na Póvoa de Varzim. Mas, era sabido, a partir de Setembro lá voltava a escassez.
Por isso, só em finais dos anos 80, travei conhecimento com o Peixe-galo e com a excelência dos seus filetes, acompanhados de um  malandrinho e verde arroz de grelos. A "vernissage" foi no "1º de Maio", ao Bairro Alto, num jantar com a minha amiga B., que tinha a preocupação e faculdade de me descobrir e indicar bons restaurantes. Admirei então aquelas lascas brancas e onduladas, consistentes e saborosas, ficando devoto fiel. E, embora, não seja muito frequente nas ementas de restaurantes, sempre que há, opto.
Ora, há dias, num pequeno mercado outrabandista, o que é que eu vejo, na banca da nossa peixeira de referência? Um magnífico, e único, Peixe-galo, no esplendor da sua feiura de teleósteo, a 9,20 euros o quilo. Não hesitei um segundo, mas perguntei: "Pode prepará-lo em filetes?" A peixeira respondeu, surpreendida: "Mas ele é bom, é grelhado!" Embatuquei, mas assim veio e assim foi - grelhado e maravilhoso, a saber a mar. Com arroz de tomate e pimento vermelho. Acompanhado de perto, na excelência, por um Chardonnay, 13,5º, da colheita de 2011, produzido pela Casa Santos Lima.
Ah! esquecia-me de dizer que a sobremesa foi uma tarte de maçã-reineta, que HMJ aprimorou na perfeição. E que vai em imagem, para que conste.