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terça-feira, 4 de setembro de 2018

Bibliofilia 164


O livro, cuja primeira edição (1629) é rara, e cara se a quisermos adquirir, tem um título do tamanho da légua da Póvoa (como se costuma, popularmente, dizer). Para que conste, aqui vai: Miscelânea do Sítio de Nossa Senhora da Luz de Pedrógão Grande: aparecimento da sua imagem, fundação do seu Convento e da Sé de Lisboa, com muitas curiosidades e poesias diversas. O seu autor, Miguel Leitão de Andrade (1553-1630), escreveu a obra e publicou-a no final da vida.


O livro, cuja segunda edição (1867) possuo, é de leitura agradável e proveitosa. Dividido em vinte capítulos abordando os mais diversos assuntos, a obra traz uma descrição minuciosa da batalha de Alcácer Quibir (1578), de que Miguel Leitão de Andrade foi testemunha presencial, e em que morreu o rei D. Sebastião.
Comprado o volume, por volta de 1990, em Lisboa, dei por ele Esc. 8.800$00. Encadernado em meia-francesa, o livro está em muito bom estado de conservação. Em 1993, a IN/CM publicou, em edição fac-similada, a terceira edição desta obra.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Desabafo (28)


A ditadura dos números, que continuam a dominar, tiranicamente, e a incendiar e ensandecer os pobres de espírito e as mentes mais frágeis.
Sobrepõem-se até aos sentimentos e ao luto de Pedrógão Grande - nesta silly season, parecem ser o grande e momentoso problema nacional.
Seria cómico, se não fosse trágico.
Calai-vos, gralhas!

terça-feira, 20 de junho de 2017

O grau zero do jornalismo


Há sempre quem, de forma despudorada, se aproveite da tragédia dos outros, para daí tirar dividendos ou benefício. Mostrando, num exibicionismo vergonhoso disfarçado de compaixão, as imagens da desgraça. Já nos bastavam essas moles humanas indiferenciadas e imitativas que, desde a morte de Diana, e cacofonicamente, se apressam, de tempos a tempos, a encher de campos de flores, velinhas votivas e mensagens infantis, ou "je suis charlie", os locais, as ruas e as praças dos massacres e tragédias.
Mas sempre se esperava que, ao menos os jornalistas, soubessem respeitar condignamente o luto dos outros e os corpos insepultos. Pois nem isso aconteceu, agora, com a tragédia de Pedrógão Grande. Até uma senhora - curiosamente, também ela vítima de uma infelicidade pessoal, há poucos anos - da TVI, se pavoneou, escandalosamente, em reportagem, ao lado de um cadáver. Outros jornalistas de televisão imitaram este macabro espectáculo miserável, do ponto de vista humano. Chegamos, efectivamente, ao grau zero do jornalismo.

(Chamo a atenção para a exemplar crónica de António Guerreiro, sobre este assunto, publicada no jornal Público de hoje, e intitulada: As vítimas dos incêndios e da televisão. )


segunda-feira, 19 de junho de 2017

A solidária culpa


É normal, expectável, pavloviano, demasiado previsível  e humano que, perante uma tragédia, usemos as duas mãos em sentidos bem distintos. Uma, em sinal inequívoco e consternado de solidariedade humana; da outra mão, usamos apenas o dedo indicador, para  acusar com ira.
Numa configuração que parece derivar, em última instância, do pecado original da culpa, e numa tentativa primitiva de a branquear, através da denúncia do Outro, tentando colocar-nos do lado dos inocentes.
Sem tentar criar uma imaginária terceira via, ou absolver-me, eu creio que vale a pena reflectirmos sobre umas palavras singelas, mas certeiras, que J. P. P.  intercalou, hoje, na sua crónica do jornal Público. Assim:
"... A primeira coisa a dizer é que há certas calamidades naturais que não têm controlo. De todo. Não gostamos de admitir isso, porque afecta a nossa noção de superioridade humana sobre a natureza, mas não é assim. De todo. ..." 

( E se tiverem paciência de ler toda esta crónica, Natureza, homem, obra, vida ou morte, repito, paciência, e oportunidade, talvez possam avaliar melhor a tragédia. Com menos emotividade e imediatismo primitivo. Ainda que isso pouco possa adiantar, pela quantidade de vidas ceifadas, em Pedrógão Grande.)