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terça-feira, 28 de junho de 2022

Contiguidades

 

Fernando sempre me foi um nome agradável. Desde tenra idade. E o contraponto feminino, também.
Penso seriamente que a geração espontânea não existe, e a ligação ou associação mental (em arte, sobretudo) é recorrente, fecunda e muitas vezes sugestiva.
O pintor colombiano Botero (1932) e o francês Léger (1881-1955) privilegiaram de algum modo, na sua obra, a obesidade humana ("gordura é formosura", dizia-se...), para além de terem o mesmo nome de baptismo. As luxuriantes e nédias flamengas de Rubens podem também inserir-se nesse excesso carnal.
O pintor inglês William Roberts (1895-1980), sendo mais comedido e nem tendo o mesmo nome, não deixa de os lembrar, neste quadro de 1939. Que a leiloeira Christie's pôs à venda, aqui há uns bons anos, por uma estimativa entre 10 e 15.000 libras.


quarta-feira, 14 de julho de 2021

Retratos de Isabel de Portugal, mulher de Carlos V



 A imperatriz, três anos mais nova do que Carlos, era esbelta e airosa, ruiva e de pele levemente rosada, como a sua avó, e sua homónima Isabel; mas era mais feminina e, a julgar pelos retratos de Ticiano, Coello e outros, muito mais bela. Os seus olhos eram azúis como os do seu marido, mas muito mais escuros; as suas sobrancelhas largas, desenhadas com uma leve irregularidade encantadora; a sua fronte, lisa e fina, de ampla curva que traduzia uma personalidade harmoniosa e equilibrada; o seu lábio inferior era um pouco grosso, ainda que menos do que o do seu marido, Habsburgo; o superior era como um arco divino de amor; o seu abundante cabelo, dourado. Era em suma de um tipo bem mais nórdico do que do Sul e, segundo a opinião de todos, a mulher mais digna de ser amada na terra.

William Thomas Walsh, in Felipe II (Espasa-Calpe, 1968).



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Lembranças de Antuérpia


A Bélgica é um país pequeno, mas tem edifícios enormes a atestar, de forma inequívoca talvez, um passado imperial (Congo, Ruanda...), ainda que muito breve, em tempo de seu exercício...
A estação ferroviária de Antuérpia, construída entre 1895 e 1905, é um bom exemplo dessa desmesura, embora hoje razoavelmente aproveitada nas suas três plataformas de vias para comboios de vários destinos europeus.



Ponto turístico de consenso geral, como para mim é, do ponto de vista particular, a livraria De Slegte, à beira da casa(-museu) de Rubens, pintor que eu já não frequento por devoção artística, também pela sua desmesura de celulites, tão bem expressa no Rapto das Filhas de Leucipo (hoje, em Munique), que colhia as minhas preferências juvenis, em detrimento dos retratos da também nutrida Hélène de Fourment.



A De Slegte, comedidamente distribuída por três andares, dedica um deles aos livros usados, a bom preço normalmente. De lá trouxe, há uns anos, uma abada de livros de Simenon que me faltavam, sem esportular muitos euros. Desta vez, tive menos sorte. Mas ficaram-me os olhos num Le Marteau sans Maître, de René Char, na sua edição original (500 exemplares), autografada, acompanhada de uma carta do poeta francês, justificando a oferta. Pediam 600 euros pelo lote, mas eu não estava preparado para tanto...



Tive de me contentar com a versão francesa de An der Zeitmauer, de Ernst Jünger, em muito bom estado e por abrir, que me custou apenas 10 euros, e que tenho vindo a ler, com agrado e proveito.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Para a iconografia de Isabel de Portugal


Da casa real portuguesa, Isabel de Portugal (1503-1539), filha de D. Manuel I e D. Maria de Aragão, é porventura uma das figuras mais retratadas ou, ao menos, cujo retrato foi feito por pintores de maior qualidade. Culta, piedosa e de rara beleza, Isabel casou, em 1526, com Carlos V (1500-1558), tendo morrido de parto ao dar à luz o quinto filho, que nasceu morto. Três filhos lhe sobreviveram, sendo que o mais velho, Filipe II de Espanha, viria a ser rei de Portugal.
O seu retrato mais conhecido é, provavelmente, o que foi pintado por Ticiano, e que encima este poste. O casal régio foi também pintado por Peter Paul Rubens, e a tela pertence ao acervo dos duques de Alba. O terceiro retrato, do pintor inglês William Scrots, está num museu da Polónia. Há quem duvide que o quadro represente Isabel de Portugal. A tela, na minha opinião, acusa influências de Lucas Cranach, não deixando de ser uma bela obra.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Produtos Nacionais 20


Em matéria de bolos, o meu gosto é sazonal, nunca fui compulsivo. Nem me colo às montras das pastelarias, de olhos esbugalhados, em transe de baba e gula...
Mas, este fim-de-semana, lá comprei e comi um Jesuíta. Não dos originais (Confeitaria Moura - Santo Tirso): este, que comprei, era desnaturadamente alfacinha, pobrezinho, embora até tivesse amêndoa laminada torrada, por cima, desvirtuando a receita tradicional, mais sóbria, de massa folhada, com cobertura de açúcar e claras, estratificada e acastanhada, quebradiça.
A sua origem, no norte de Portugal, é recente. Parece que de finais do século XIX, e terá sido criação de um pasteleiro (de Bilbau?) espanhol, que se fixou em Santo Tirso, e lá abriu loja. Inspirando-se, talvez, nos Jesuítas do celebrado Colégio das Caldinhas, ali bem perto, e nos seus antigos chapéus, deu aos bolos o formato singular, que ainda hoje conhecemos e os identifica.
Sobre a excelência deste bolo, quando original, uma pequena história comprovativa. Há cerca de 2 anos, em viagem de Guimarães para o Porto, eu e um amigo, parámos em Santo Tirso, para tomar um café. Eu quis comprar dúzia e meia de Jesuítas, para oferecer à dona de casa, que me aboletava, por uns dias, na Invicta. O meu amigo dissuadiu-me, dizendo, que os três não conseguiríamos dar conta de tanto bolo, lá em casa. Acabei por comprar apenas 6. Que desapareceram, até à noite, nesse mesmo dia...

terça-feira, 15 de abril de 2014

O fascínio pelo perdido ou inacabado


Será talvez característico da natureza humana criar um grande fascínio por obras que, desaparecidas por razões acidentais, misteriosas ou outras, nunca mais foram descobertas. Bem como por algumas que, tendo sido projectadas, nunca foram feitas.
De incunábulos referidos no passado, mas nunca encontrados, até ao desaparecido Parnaso que Camões andaria a escrever, e jamais apareceu. Do fresco A Batalha de Anghiari, que Leonardo da Vinci teria pintado, por volta de 1505, e de que só se conhecem esboços, nos seus cadernos, e uma cópia feita por Rubens, posteriormente. Muito embora, em 2012, se tenha aventado a hipótese de ele se encontrar por trás de um fresco de Vasari, no Palazzo Vecchio, em Florença. Mas tudo são suposições.
Mais recentemente, poder-se-ia falar, também, de Il viaggio di G. Mastorna, que Fellini planificou ao pormenor e escreveu, com Dino Buzzati, mas que acabou por jamais realizar.
Não esquecendo a 8ª Sinfonia (Incompleta) de Schubert, que o compositor nunca chegou a terminar, e que nos deixa, ainda hoje, suspensos, do que poderia ter sido...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Perto da casa de Rubens

Parou de chover. A Graanmarkt está quase deserta de gente, cruzada embora, na diagonal, pelo voo e grasnar de um corvo enorme, quando saio do Bourla, para vir fumar, cá fora. De artistas e actores, o café mantém uma atmosfera boémia e informal de anos sessenta, com prateleiras espelhadas que multiplicam as garrafas de gin, whisky, Porto, conhaque e licores.
Quando volto para dentro, na mesa do canto, duas balzaquianas elegantes estao a ser servidas de Möet & Chandon, pela empregada solícita e jovem. Mas eu nunca virei a saber quem é este Lawrens que marcou a mesa ao lado da nossa, para as 17h45, porque tenho de sair antes. Sei que virá acompanhado, porque a reserva é para 2. Como reza o pequeno bilhete sobre a mesa.
Antes que feche, quero ir à De Slegte, onde há 3 anos comprei uma abada de Simenon, usados e por pouco dinheiro. E valeu a pena, mais uma vez. Trago de lá "Le Fils", que me faltava. E que já comecei a ler, depois de  um Cordon Bleu muito saboroso, em casa Amiga, acompanhado por um aconchegado Tempranillo da Ribera del Duero (2011). Porque também se come muitíssimo bem, na Bélgica: é só lembrar as bem fornidas mulheres de Rubens...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pinacoteca Pessoal 40 : Pieter Brueghel, o Velho

Aqui perto, em Wuppertal, anunciam uma mostra de Rubens, que pouco me tenta. Entre flamengos, escolheria Brueghel (1525?-1569), de que gosto bastante mais. Como deste quadro insólito, de cerca de 1550, intitulado: "Extraíndo a pedra da Loucura, ou uma Cirurgia à Cabeca". Que pertence ao Museu Sandelin.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Pequena história (6) : Junqueiro, sobre Rubens



O poeta Guerra Junqueiro (1850-1923) era grande apreciador de Arte. Como, aliás, se pode ver pelo acervo de peças que constituem a Casa-Museu Guerra Junqueiro, doadas pela filha mais velha, Maria Isabel, à Câmara do Porto. Mas também tinha um acentuado sentido de humor. Uma vez, o Poeta referindo-se à obra de Rubens (1577-1640), terá dito:
"Quando vejo um quadro de Rubens, dá-me vontade de gritar: - Rubens, traz-me meia tonelada de coxas de deusas. Rubens é um marchante de carne olímpica!"

sábado, 3 de dezembro de 2011

Pinacoteca Pessoal 21 : Renoir - a Arte feliz


Embora o considerem da linhagem e na sequência natural de Rubens e Fragonard, Pierre-Auguste Renoir, nascido a 25/2/1841, em Limoges, é bastante mais do que isso. O que em Rubens é, muitas vezes, exuberância, é, nos nus de Renoir, uma sensualidade contida e uma alegria de viver, pressentida. Dizia Raymond Cogniat que "Cézanne olha e raciocina, Renoir vê e sente". Para Cézanne o modelo era um pretexto que tinha como objectivo a Pintura; em Renoir será a concentração sobre a personagem do modelo que mais lhe importa. Aliás, os nus na obra de Renoir são tardios, surgem apenas à roda dos 40 anos do pintor. Inicialmente, em cores dispersas, alastradas que, após conhecimento mais profundo da obra de Rafael (quando esteve em Itália), se concentram e intensificam, dando mais densidade às figuras.
O quadro em imagem (Petite Baigneuse Blonde, de 1887), pertence  ao acervo da Nasjonalgalleriet, de Oslo. Renoir morreu, em Cagnes, a 3 de Dezembro de 1919.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cuidem-se!


Portugal junta-se, hoje, à Irlanda e à Grécia, neste suicídio, para já, microcósmico europeu. Por erros próprios, é certo - também. Mas cumprindo uma estratégia obscura, de natureza económico-financeira que visa a destruição do euro, como moeda comum e solidária, e minar a coesão dos paises da Europa. Fatiar para enfraquecer, ressuscitar os egoísmos de sobrevivência, é o objectivo mais imediato. E recuperar aquilo que as ratazanas cinzentas perderam com a crise recente e anterior. Embora alemã, a Sra. Merkel nunca deve ter lido Brecht. Muito menos o napoleãozito de ascendência húngara, com os tacões das botas reforçados, que deve ter ficado todo contente por poder mandar bombardear a Líbia - ele, que nunca tinha entrado numa guerra. E já nem falo no "Camarão"...

Seguir-se-ão a Espanha, a Bélgica, a Dinamarca, a Itália... - a sequência é arbitrária para as agências de ratos (rating agencies), desde que consigam atingir os seus crapulosos objectivos.

Mas, à falta de solidariedade europeia, soma-se o provincianismo sedento de poder e a falta de coesão nacional portugueses. Seria pior o P.E.C. IV do que a entrada do F.M.I., em Portugal? Quem se lembrar dos anos de chumbo de 1983-4, com certeza, sabe a resposta.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sequência genética (quase sem palavras)








Fernand Léger nasceu em 4 de Fevereiro de 1881.
Dos 4 pintores representados, há 2 de signos do Fogo ( Botero e José de Guimarães), um da Água (Rubens) e Léger, do Ar (Aquário): por aqui, também, não chegamos lá. Há que ver os ADN´s...

quarta-feira, 17 de março de 2010

Curiosidades 1






Segundo Eduardo de Noronha (1859-1948), no seu livro "Reinado Florescente", 1928?, para o casamento do futuro rei D. Carlos (1863-1908), com a princesa ( mais tarde rainha) Maria Amélia de Orleães (1865-1951), a mãe do noivo, raínha D. Maria Pia (1847-1911) usou: " um vestido, cópia admirável, feita por Worth, do quadro do Louvre «O triunfo de Maria de Medicis» de Rubens. A raínha, que conta apenas 42 anos, sem ser formosa, desprende de si uma distinção e um garbo que a todos domina..."




Nota: (Charles Frederick) Worth (1825-1895), costureiro inglês que se fixou em França, é considerado o pai da "Alta-Costura" moderna.