Mostrar mensagens com a etiqueta Palmela. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Palmela. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Estado da natura 1

 

Este ano, as frésias estão preguiçosas em aparecer, enquanto as clementinas, ansiosas, vieram cedo (já as provámos, estão boas) e as suculentas, normalmente, difíceis em dar de si, já começaram a florir nos vasos da varanda a sul. Excepcionalmente, e por conselho avisado da D. Lídia, da sua banca já nos estreamos nos morangos de Palmela. Óptimos que eles estavam!

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Quase nocturno


Já sobra pouca luz ao dia e há 4 andorinhas, em voo frenético, que se apressam para algures a sul. Duas gruas esqueléticas e nuas param-me em frente à janela, como dinossáurios metálicos, inúteis. Palmela ainda se não acendeu de almenaras, mas o silêncio ameno e inesperado desta rua, no coração de Lisboa,  aumentou consideravelmente desde a quarentena.
Ó almas insensíveis e palermas!, por que não contabilizar, a favor, os grandes benefícios do confinamento, a começar pela ausência saudável dos turistas low-cost de alpergatas e calções havaianos, pelas ruas alfacinhas?!

domingo, 23 de setembro de 2018

Divagações 134


Esta linha semi-circular de luzes ribeirinhas, por cima dos telhados defronte, traz-me sempre uma paz muito singular e pessoal, à noite. Depois, há esse triângulo agudo, cavado, por entre os prédios altos  que permite ao meu olhar ver o Tejo e, mais ao longe, a silhueta semi-iluminada do castelo de Palmela. Fernão Lopes acaba por ser convocado à memória. E as almenaras que D. Nuno, em finais do séc. XIV, fez acender da Outra-banda, para dar ânimo ao Mestre, cercado em Lisboa, pelos castelhanos.
Mas, hoje, há Lua Cheia, o rio é um espelho reflectido de luar. E o Verão, preguiçoso em despedir-se, parece augurar, em temperaturas, um S. Martinho à maneira... Ora, tudo isto recusa, liminarmente, essa melancolia dourada de que o Outono gosta, quase sempre, de se acompanhar. E que também nos inunda, quer queiramos ou não, tantas vezes. Ganha-se assim, benevolamente, um compasso de espera, bem-vindo e inesperado. Assim seja!

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Situar o horizonte


A paisagem subjacente. A linha paralela junto ao rio, em frente, é quase rasa. Vem do Montijo, e só pelo Barreiro se interrompe, por algumas chaminés altas, fabris, no horizonte da terra ribeirinha, que acaba pelo Seixal. Em segundo plano, ao fundo e atrás, a linha sobe em direcção ao céu, por alturas de Palmela e do seu castelo roqueiro, seguindo, depois, crescente em direcção à Arrábida, que não vejo.
É na direcção de Palmela, mais próximo de mim, embora distante ainda, que eu posso ver, por entre mansardas e telhados lisboetas, num rectângulo muito irregular, o Tejo. Que vai azul cobalto, e corre tranquilo, sem ondulação aparente. E por inteiro, se não fora um cacilheiro que lhe fendeu as águas, numa linha branca de espuma, seguindo diagonal na direcção do Barreiro.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

As várias noites europeias


Achei franca e avaramente iluminadas as estradas alemãs, de noite. As vias belgas, um pouco melhor.
Mas, agora, ao ver ao longe e de noite, a colina de Palmela e o seu castelo, iluminados, parece-me ver um brasido, uma espécie de rescaldo de incêndio, com pequenos focos de luz forte que se derramam e prolongam até à beira-rio.
Nem o Ehrenbreitstein, quando rodeamos Coblença, estava assim iluminado. Uma diferença enorme, em suma, que me faz pensar que os povos iluminam as suas noites, na proporção quantitativa da luz que recebem durante o dia. Porque, realmente, a luminosidade belga e alemã, dos dias de Novembro, era muito rala e tímida. E o Sol raramente aparecia.
O pior são os custos energéticos...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Ventos


A Lua trocou-me as voltas e nasceu por trás do castelo de Palmela, como se fosse uma almenara fora de época. Esperava começar a vê-la na rectaguarda do casario ribeirinho do Barreiro. Além disso, veio tarde, embora Cheia. Ao entardecer, o Sul devolveu ao Norte as nuvens de ontem, que o vento mudou de rumo. Na véspera, elas eram tão escuros, ao fim do dia, que pareciam vir do pio cavernoso e antipático de uma gaivota irascível que andava, a meia altura, a pairar por sobre o Tejo. Mas, hoje, não a vi, quando por lá andei.

domingo, 30 de outubro de 2011

Às revoadas


A noite virá mais cedo, hoje, com a mudança da hora. Três focos, que parecem de incêndio, brilham ao longe: um junto ao Castelo de Palmela, os restantes dois semeados pelo casario raso do Seixal. É o sol que se reflecte, nos seus últimos brilhos, em espelhos de acaso, antes de desaparecer. Também os estorninhos revoluteiam incessantes e intensos, aproveitando a última luz, sobre o Tejo. Revoadas do fim de Outubro a que já me habituei, todos os anos, por esta época. Os estorninhos devassam os ares, provavelmente, em busca dos insectos desprevenidos que pairam sobre as águas do rio. O céu, de azul pálido vai ficando róseo, e depois cinzento até ficar escuro. Tudo isso é natural.
O que não é natural, e eu estranho, são as súbitas revoadas (que costumam durar de 2/3 dias a uma semana) de visitas que caem como bandos de estorninhos, convergindo, massificadamente, sobre um poste do Arpose. Nestes últimos três dias, o "ai Jesus!" tem sido um poste de 10 de Julho de 2010, intitulado "Vergílio Ferreira sobre a Arte". A voracidade tem sido imensa. As visitas caem às dezenas sobre as palavras sábias do escritor. Porquê? Para quê esta súbita voragem sobre um poste que tem mais de um ano? Talvez nunca o venha a saber.
O que sei, de real e concreto, é que são 18,30hrs., e já é noite.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Nocturno de Lisboa


O segredo é querer pouco. Mesmo  que  o alto de Palmela se apague, ao longe, na neblina.
As boas notícias até parece que vêm do rio, como lâminas nocturnas que, embora frias, trazem alegria. Chega-se a um ponto em que, da margem, o que podemos e queremos levar é unicamente o essencial. E não ficarmos sozinhos, com a memória toda a pesar na travessia. Sem ninguém que carregue um pouco dela, no seu peso mais íntimo, partilhando os desastres, as alegrias, as vergonhas e os triunfos efémeros do tempo. O Seixal, o Barreiro e o Montijo tremulam de luzes muito frágeis. O Tejo é uma mancha muito escura e, hoje, não será o Letes definitivo. Caronte afastou-se na sua barca, com o negócio perdido.
O segredo é querer muito pouco, cada vez menos. Só o essencial.

para o António, afectuosamente. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ao lusco-fusco


Primeiro, a neblina fecha de todo o que antes fora o tufo verde e alto de Palmela. Há uma linha branca, como um sulco, traçada por um barco sobre o verde-escuro do Tejo. Acendem-se as primeiras luzes no Seixal e no Barreiro: vejo-as ao longe. As andorinhas despedem-se com a aragem fresca e o declinar da luz. Ficarão, por certo, as gaivotas até mais tarde. Ou pela noite fora, altas, sobrevoando o rio, nas suas aéreas manchas esbranquiçadas.

domingo, 10 de outubro de 2010

A meio da tarde


É uma aguarela cinzenta com pequenos laivos de azul pálido e anémico a que o sol, por momentos, atende sobre o rio. A neblina desfez-se. O branco das paredes acentua-se, como também o esmaecido café-creme degradado dos prédios mais antigos ressalta de humidade e gretas, como rugas, defronte. Sobressai, quase berrante, insólito, o tijolo vivo de alguns telhados substituídos, há pouco, e onde pousam pombas mansas, e um ou outro melro nervoso, no seu passo miúdo - mas demoram pouco. Duas gaivotas, em voo alto e sereno, sobre o Tejo. Um barco à vela sulca as águas do que parece um lago tranquilo. Palmela envolve-se e resolve-se de neblina, ciclicamente, ao longe.
Ouve-se o rumor quase aveludado e sem freio do 28 deslizando nas calhas lavadas pela chuva, da rua vazia de pessoas. Também um pássaro misterioso inicia um canto sibilino e breve. Sem os gritos roucos, habituais, uma gaivota passou quase rente à janela e, uma das asas, parece acenar-me de perto. Há silêncio, inesperadamente. Até chegarem os arrumadoraes de automóveis, lá para o começo da noite de domingo, com o seu cortejo de vozearia e palavrões...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Curiosidades 18 : almenaras


No poste anterior sobre jacarandás e estorninhos referi, en passant, as almenaras que o Condestável fez, em Palmela, para dar ânimo aos sitiados de Lisboa. Creio ser do conhecimento geral que almenaras eram fachos que se acendiam nos castelos para dar notícia de presença, para longe. Mas julgo que vale também a pena transcrever, da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, a parte em que as refere. Segue:

"...Nun'Álvares foi comer a Coina, e ali repartiu o esbulho per todos, sem havendo pera si parte alguma. E dhi cavalgou e foi a Palmela; e quando foi noite, mandou fazer tais almenaras de fogo, de guisa que o viam os de Lisboa, por saberem os da cidade que estava ele ali, e tomarem algum esforço.
E certamente assim foi de feito, que o Mestre, quando viu aquelas almenaras de fogo em Palmela bem entendeu que era Nun'Álvares que ali estava com suas gentes, e houve mui gram prazer, ele e todos aqueles que o viam; e mandou acender grandes tochas no grande eirado dos paços del-rei hu estonce pousava, por as verem de Palmela, e lhe dar a entender que via suas almenaras e que lhe respondia com aqueles lumes, pois outra fala antre eles haver não podia. E assim esteve o Mestre per um bom espaço falando com os seus nos feitos de Nun'Álvares com aquele doce razoar e louvores quais tão leal servidor merecia de se dele dizerem. Desi colheu-se pera sua câmara.
Nun'Álvares er apagou seus fogos por cobrar o sono que dante perdera; onde fique com boas noites. E nós tornemos ver a atribulada Lisboa, em que ponto está. ..."

Jacarandás, estorninhos e a O. C. D. E.


Timidamente, os jacarandás refloriram e os estorninhos regressaram à boa visibilidade lisboeta. Na Av. 24 de Julho, com atenção, já se podem descobrir no seu renascimento de memória biológica (vide Arpose, 15/6/2010, Dário Castro Alves) e genética brasileira, os cachos azúis e lilazes floridos, esparsos ainda, por entre a folhagem.
Vi também 4 ou 5 estorninhos, discretos, vindos de uma frondosa "ficus ficus", quase no Chiado, atravessar para o jardim da casa, que foi de nascimento, do Conde de Farrobo. Não eram ainda aquelas nuvens densas que se cruzam e recruzam, sobre o Tejo, ao fim do dia, entre Outubro e Novembro. Mas deu para perceber, além da temperatura, que Lisboa entrara no Outono.
Depois, no Telejornal, veio um senhor mexicano (de "paupérrimas feições"[ Guimarães Rosa]) da O. C. D. E., mas sem "sombrero", falar aos portugueses do "Inverno" que se aproxima rigoroso e inevitável, e como contrariá-lo: mais IVA, mais IMI, mais IMT... Raio de globalização, onde até os mexicanos nos vem dar receitas para viver!...
Olho para o semi-círculo de luzes que, no escuro e ao longe, demarcam o Tejo e a terra firme ribeirinha. O luar e o céu limpo deixam ver Palmela das almenaras do Condestável , para dar coragem a D. João I, cercado em Lisboa pelos espanhóis, e digo para mim mesmo: ao menos, deem-nos uma estação de cada vez! Senão, morremos todos embuchados.