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terça-feira, 11 de setembro de 2018

Desabafo (37)


Contra mim falo, infelizmente. Razão tinha Pacheco Pereira ao dizer que quem dava, realmente, notícias em tempo útil, embora no meio de miudezas e dislates intencionais, era a CMTV, porque os outros canais generalistas se limitavam a papaguear, em cacofonia sobreposta, aquilo que já todos sabiam.
E, para minha pena, terei que destacar também alguns vídeos e textos com interesse que o site do Observador, às vezes, publica, pelo meio da palha direitista e bafienta que lhe encomendam e pagam. Chamaria a atenção, por exemplo, para um recente, sério e magnífico artigo do historiador Luís Filipe Thomaz.
Com a probidade científica, que todos (creio) lhe reconhecem, o texto esclarecedor intitulado Por um Museu dos Descobrimentos, foi editado a 6/8/2018, no Observador. E faz parecer uma redacção infantil o abaixo-assinado que por aí circulou, subscrito por um punhado de puritanos e puristas politicamente correctos, mas ignorantes e fanáticos.
Que se me perdoe este elogio, em desconto de alguns, poucos, pecadilhos que terei cometido à esquerda...

quarta-feira, 8 de julho de 2015

sábado, 20 de junho de 2015

A reter


"...O que se passa hoje é como se, invisivelmente, se estivesse a realizar uma das funções essenciais que Orwell atribuía ao Big Brother, que era tirar todos os anos algumas palavras de circulação, porque sabia que é mais fácil controlar pessoas cujo vocabulário é restrito e que, por isso, têm dificuldades em expressar-se com clareza e riqueza e, em consequência, dominam menos o mundo em que vivem. O incremento de formas de expressão quase guturais como os sms e o Twitter apenas dá expressão a um problema mais de fundo que é a desertificação do vocabulário, fruto de pouca leitura, e de um universo mediático muito pobre e estereotipado. ..."

J. Pacheco Pereira, in Demasiado lampeiros para serem sérios (jornal Público de 20/6/2015).

sábado, 11 de abril de 2015

Palavras do dia (9)


Não deixei de ver, com imenso agrado, o aperto de mão, no Panamá, entre Obama e Raul Castro. Das breves declarações que fizeram, permito-me concluir que, pelo menos, me pareceram dois homens de boa vontade e dispostos a esconjurar o passado.
Se é certo que raramente me apetece falar de política, também é certo que não podemos passar sem ela, ou dispensá-la, como coisa inútil e alheia. Assim, alinhavei duas ("uma no cravo, outra na ferradura") citações irónicas de J. Pacheco Pereira, da sua crónica de hoje, no jornal Público. Aqui vão:

"No meio disto tudo, o principal partido da oposição responde com os mais pífios cartazes que é possível ter, umas coisas delicodoces com velhinhos abraçados e uns jovens muito alegres, limpinhos e saudáveis a divertir-se com conta, peso e medida. Da próxima vez espero que coloquem gatinhos ou ursinhos de peluche."
....
"Claro que Ricardo Salgado era um oligarca, mas Ricciardi não é; Jardim Gonçalves era-o, mas Paulo Teixeira Pinto não é; Armando Vara era-o, mas Ângelo Correia não é; e por aí adiante. Depois, a rede da sucata é estrutural da relação preversa do passado entre os interesses económicos e o poder político, a dos vistos gold, uma anomalia com que este Governo nada tem a ver."

sábado, 21 de março de 2015

Palavras do dia (7)


A frase, de J. Pacheco Pereira, vem na crónica do jornal Público, e repete-se ao longo do texto, intercalada, como um refrão ou estribilho, para sublinhar o carácter de alguns actores menores da nossa cena política. Reza assim:

"Homens sem qualidades não assumem responsabilidades."

sábado, 4 de janeiro de 2014

Palavras do dia


"...O enorme deserto do pensamento dos nossos dias vive dessa dualidade em que os temas, os modos e os tempos são definidos pelo poder e «recusados» pela oposição, dentro da mesma linguagem e aceitando muitas vezes os mesmos limites. ..."

José Pacheco Pereira, in Pangloss em Lisboa ( jornal Público, de 4/1/2014).

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

domingo, 6 de outubro de 2013

Humor político


"...Luís Filipe Menezes foi dar os porcos aos bairros sociais, mas os bairros sociais votaram Rui Moreira. E comeram o porco..."

J. Pacheco Pereira, em entrevista ao jornal Público, hoje.

sábado, 22 de junho de 2013

Palavras de hoje


"...Nestes dias do lixo, o desprezo pelo «humano» concreto tornou-se a regra e, de uma ponta a outra do nosso mundo quotidiano, varreu-se a preocupação humanista não só da política como de muitos outros aspectos da nossa vida. A tecnologia é usada, numa sociedade cada vez mais pobre, para criar novas exclusões. Valores civilizacionais como a privacidade e a intimidade são dissolvidos na «facilidade» do Facebook. O universo público mediatizado gera uma cultura de superficialidade e ignorância presumida. Os valores não circulam numa sociedade que vive na moda e na novidade. Todas as mediações, dificilmente construidas pela luta cultural consciente dos homens para viverem sem ser na selva, estão em crise. ..."

J. Pacheco Pereira, in Humanismo, jornal Público de 22/6/2013.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O beco


Entre a recente imolação pelo fogo do desempregado francês de Nantes (que, se calhar, nunca foi ao Louvre, mas precisava de comer e alimentar a família), o diálogo fecundo, mas inconclusivo (no último "Obs."), entre Cohn-Bendit e Stéphane Hessel, e, finalmente, o lúcido artigo de Pacheco Pereira, sábado no "Público", o triângulo isósceles fecha-se irremediavelmente num beco. Sem saída, senão por recuo.
O mercenarismo de muitos políticos corruptos, o corporativismo extremo dos partidos políticos e o desespero dos cidadãos conscientes - eis as razões deste cul-de-sac espiritual que dá razões ao mais profundo dos pessimismos ontológicos actuais. E que poderá dar justificação a movimentos anárquicos agressivos, singulares ou colectivos, mas também permite, em terreno inculto, o temível desenvolvimento do populismo mais grosseiro (Berlusconi, por exemplo).
Se a imolação pelo fogo já pode ser, recentemente, global (Tunísia/ França), se 2 gerações (Hessel/ Cohn-Bendit), quase se irmanam, no sentimento de claustrofobia, como poderá o comum da terra manter a serenidade e clareza de espírito, para não começar a bombardear as paredes do beco, para não ter de recuar ainda mais?! Ou para ouvir, com paciência cristã, as perlengas do professor da TVI que, arengando de gravata, prega, como um clássico cura de aldeia, a resignação, em nome do reino dos céus, como recompensa, ao fim de tudo?

sábado, 29 de dezembro de 2012

O pai natal dos pobrezinhos

Já não tenho paciência para ouvir a maioria dos comentadores televisivos, nem ler grande parte dos cronistas do meu jornal diário. São autênticas cassetes de ressonância uns dos outros, papagueando o mesmo blá-blá deslavado e desmiolado, abordando tudo pela rama do lugar comum, estupidificante e fastidioso. No meio deste cacarejar acarneirado há, felizmente, algumas (poucas) excepções.
A crónica de José Pacheco Pereira, hoje sábado, no jornal Público, é um brilhante exercício de inteligência e de análise na desmontagem dos pressupostos e mentalidade que enferma a mensagem de "Pedro e Laura" no Facebook. Há ocasiões em que gostaríamos de ter escrito o que acabamos de ler. Esta é, para mim, uma delas. Por isso, com a devida vénia a J. Pacheco Pereira e ao jornal, passo a reproduzi-la, parcialmente.
Mas, quem puder, que faça o favor de ler a crónica (Os convidados da mesa de Natal dos portugueses), integralmente. Não será, com certeza, tempo perdido.


sábado, 28 de julho de 2012

Entre Cila e Caríbdes


Entre o dossiê bem interessante do "Obs." desta semana, sobre a felicidade, e uma das crónicas mais pessimistas, que li até hoje, de Pacheco Pereira, no jornal Público, de sábado, o meu pensar balança...
É evidente que há, nos dois temas, uma diferença de tomo: é de dois países diferentes que se fala e escreve - França e Portugal. Mas se virmos um terceiro, como a Inglaterra, com as manifestações pela abertura dos Olímpicos, poderemos observar aquela sociedade sempre em festa, com multímodas boas almas populares gritando descontroladamente e regurgitando de "felicidade"... E já vão três mundos!
Tudo será uma questão de perspectiva, de cultura, de capacidade racional, maior ou menor. Pacheco Pereira diz-nos, em resumo, que, depois da silly season, lá para Setembro/Outubro, acordaremos todos (nós, portugueses) encostados à parede, constatando que não há futuro. O "Obs.", por entre Epicuro, Séneca, Leibniz, Bataille...tenta encontrá-lo. E, com ele, a felicidade. Não é coisa pouca, e, muito menos, fácil.
Porque, aqui pela terrinha, a questão para muita gente, na maior parte dos casos, é: como sobreviver com alguma dignidade ainda? Ou à boleia de Nietzshe ("Obs." dixit): "Há uma grande insónia, de ruminação, de sentido histórico que alimenta o ser humano e acaba por o aniquilar."

sábado, 30 de junho de 2012

As palavras do dia, antes que o Euro se acabe


As palavras são de José Pacheco Pereira, no jornal Público, de hoje, e num esplêndido artigo intitulado Morte cerebral. Aqui vai um excerto:
"...Eu não sei se estes  intelectuais pró-bola percebem o desprezo que têm pelo «povo», cujas exibições de grunhice eles apresentam como genuínas manifestações de ser português, pelo menos no futebol onde somos «grandes», enquanto somos pequenos em tudo o resto. Não, eu gosto demasiado do meu povo para achar que «este» é o meu povo, ou que este é o seu estado mais «natural» e genuíno.
Mas este é apenas o intróito porque o meu ponto é outro: é de que estamos perante uma construção que tem muito de artificialismo, que é gerada essencialmente por uma droga sintética, na qual se movimentam muitos interesses, dos media em crise, desesperados por audiências, por equipas de Mad Men à portuguesa, e pelas empresas de cervejas que procuram um público cada vez mais novo, que beba até ao estado de estupor, mesmo que depois falem gravemente dos malefícios do álcool. (...)"
E Pacheco Pereira termina, assim, o seu artigo:
"...Tudo isto está bem longe de ser gostar de futebol, "vibrar" pela equipa, ver os jogos, entusiasmar-se ou desgostar-se. Está muito para além disso. Isto é lavagem ao cérebro, e está cada vez pior."

terça-feira, 29 de maio de 2012

1 tema com 3 andamentos


1. As idiossincrasias de cada um têm destes caprichos: de tanto ler dois ou três cronistas do JL (quando o comprava, regularmente), agora que eles são escritores badalados, não os consigo já ler - saturei, absolutamente. Mas também porque a arquitectura da sua prosa é frágil, com truques repetitivos e expedientes para agradar, na transversal. Por debaixo do casaco distinto, nota-se a camisa rota... Mas é bem verdade, o que o povo diz: "Mais vale cair em graça, do que ser engraçado."
2. Há dias, Pacheco Pereira referia as dezenas de livros (inúteis) de autores desvalorizados pelo Tempo e sem o mínimo interesse de leitura (Ponson du Terrail, Paul de Kock...) que juncavam a biblioteca familiar, que herdou. É verdade, estes autores de sucesso, aqui há 70/ 80 anos, aparecem aos pontapés, nos alfarrabistas, agora, e são agrupados, em leilões, por lotes de 20 ou 30, a ver se tentam algum licitador que olhe mais à quantidade do que à qualidade do que compra. Mas, a maior parte das vezes, são retirados de praça, sem se venderem.
3. Um escritor meu amigo costumava dizer que: passava bem sem a glória póstuma, queria era o reconhecimento no Presente, enquanto vivo. Parece que, neste particular, Walter Scott (1771-1882) foi um homem cheio de sorte. Ganhou bom dinheiro com a escrita, foi best-seller constante e houve até uma scottmania (segundo o TLS) que ainda chegou ao séc. XX. O aeroporto de Edimburgo tem o seu nome, nos Estados Unidos há 22 vilas e cidades denominadas Waverley (título duma das suas obras), para não falar no incalculável número de ruas Walter Scott, que existem por toda a Commonwealth.
Ficou o nome, ficaram os mitos que criou (o "ogre de Oslo" referia-se muito a Ivanhoe), ainda se vende, mas quase ninguém o lê. Saturou.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O "croissant" e a História


De um interessante artigo de J. Pacheco Pereira (1949), inserto no jornal "Público", de hoje, intitulado A nova luta de classes, passo a transcrever um pequeno excerto. Embora aconselhe, a quem puder fazê-lo, a sua leitura integral. Segue o excerto:
"...A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, torna o mundo mais interessante e alimenta a curiosidade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco correcto de turcofobia, ou, pior, de islamofobia. Mas quem sabe o que é e donde vem o croissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa  e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História. ..."

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os livros que temos e os livros que lemos


Há dias, no "Público", Pacheco Pereira cronicou sobre a possibilidade de leitura de um ser humano, ao longo de toda uma vida. Concluía que, um leitor regular e empenhado, no máximo, talvez conseguisse ler, ao todo, 4.000 a 5.000 livros.
É normal, quando alguém conhecido entra, pela primeira vez, nas nossas casas (quando elas estão cheias de livros), perguntar: "Já leu estes livros todos?" Até aqui há uns anos, eu costumava responder: "Só cerca de 80%..."; mas, hoje, a fasquia teria de ser posta mais abaixo. Para ser verdadeiro, teria de dizer: "À volta de 60-70%, apenas..."
E tenho várias pedras no sapato. Nunca consegui ler o "À la recherche du temps perdu" de Marcel Proust, embora já tivesse feito inúmeras tentativas. "A Morte de Virgílio", de Hermann Broch, é outra das minhas faltas. Mas o meu maior remorso é o "Guerra e Paz" de Tolstoi. Em tempos de extrema juventude, consumi a minha Mãe, para que me comprasse os 3 altos ( e caros na altura: 150$00 escudos) e grossos volumes da Editorial Inquérito (1957), com tradução de José Marinho. Minha Mãe, depois de muito instada, lá mos comprou. Pois, infelizmente e até hoje, nunca consegui passar da página 70.
Mas tenho esperança de que nem tudo esteja perdido. Também tinha vários livros de Graham Greene, na biblioteca, desde os meus vinte anos, e nunca os tinha conseguido ler. Uma vez, já depois dos 45 anos, peguei num deles ao calhas e, gradualmente, li-o todo, e todos os outros com enorme agrado. Quase com tanta voracidade como quando, em 24 de Maio de 1971, fiz perto de uma directa, sem dormir, a ler, do princípio ao fim, nessa noite, "O Aprendiz de Feiticeiro" de Carlos de Oliveira.