O bonito gera mais amplos consensos de agrado, em Arte, do que o feio, quando representado. Para, esteticamente, apreciarmos o "feio" é sempre necessário ultrapassarmos alguns obstáculos pessoais, sociais e até, por vezes, de cânone consagrado no Tempo. É muito mais fácil gostar ou aceitar a pintura dos pré-rafaelitas, do que admirar a obra de um Chaim Soutine ou de Francis Bacon. Pelo meio ficarão decerto Munch, Lucian Freud ou Paula Rego, e tantos outros pintores. Comecei pela Pintura, para chegar a outra arte. O poema (traduzido por João Barrento, para a Relógio d'Água) que vou transcrever, foi escrito por Gottfried Benn (1886-1956), escritor alemão que exerceu medicina, civilmente e no exército alemão. É, na minha opinião, um bom poema, embora possa não ser considerado "bonito". Intitula-se "Kleine Aster" (Pequena Sécia). Aqui fica:
Um carroceiro afogado foi içado para cima da mesa.
Alguém lhe tinha enfiado entre os dentes
Uma sécia, de um lilás claro-escuro.
Quando, a partir do peito,
por debaixo da pele,
lhe arranquei a língua e o palato
com uma grande faca,
devo ter-lhe tocado, porque ela escorregou
para o cérebro que estava ao lado.
Meti-lha na caixa torácica,
no meio das aparas de madeira,
quando o cosiam.
Bebe no teu vaso até à saciedade!
Descansa em paz
Pequena sécia!