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sábado, 10 de setembro de 2022

Divagações 181


Qualquer acontecimento que altera o curso da História, com o tempo, normalmente, ganha uma moldura própria que lhe vai conferir um enquadramento de seriedade para lá da simplicidade ou crueza inicial dos factos. É aquilo que, em linguagem popular, se costuma denominar por: dourar a pílula...
O antropólogo australiano Patrick Wilcken (1982), autor de Império à deriva (2004), é, ao que julgo, um historiador credível e fiável, com provas dadas. É assim que ele narra, a páginas 282/3, da obra acima referida, o episódio fulcral do Grito de Ipiranga que a 7 de Setembro de 1822 deu início à independência do Brasil. Citando, pois:




"... Havia também instabilidade crescente no Brasil. Numa série de épicas jornadas a cavalo, D. Pedro penetrou nas províncias vizinhas - primeiro em Ouro Preto, em Minas Gerais e depois em S. Paulo - reunindo apoios para o seu governo. E foi no regresso a S. Paulo, depois de uma visita ao porto de Santos, que ocorreu a cena ícone do nascimento do Brasil. Sofrendo de um ataque de diarreia, D. Pedro fez uma paragem não prevista junto de uma ribeira chamada Ipiranga. Aí, enquanto abotoava as calças, recebeu um mensageiro que vinha de S. Paulo com correio urgente. Trazia-lhe uma série de cartas - uma de D. Leopoldina e outra de José Bonifácio, bem como relatórios oficiais das cortes de Lisboa. Lendo tudo, o retrato era claro. Sete ml soldados estavam a ser preparados em Lisboa para seguirem para o Brasil. Tanto D. Leopoldina que se tornara uma apoiante ardente e influente do movimento pela independência, como José Bonifácio defendiam que se tinha atingido o ponto sem retorno. A 7 de Setembro de 1822, D. Pedro arrancou as insígnias portuguesas e atirou-as ao chão. Desembainhando a espada, proclamou: «Independência ou morte! Separámo-nos de Portugal!»"

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Da leitura 30


Com as comodidades de hoje em dia, dificilmente conseguiremos imaginar as atribulações de uma longa viagem marítima no início do século XIX (1807), que foi preparada à pressa, em aflição, desorganizada, como foi  a da ida da corte e da família real, na sua fuga para o Brasil, para escapar ao exército napoleónico.
Mas esta obra, Império à Deriva (Editora Civilização, 2004)), de Patrick Wilcken (1982), com bom trabalho de investigação (30 páginas de bibliografia) e pesquisa histórica, que me parece séria, dá-nos uma aproximação realista do que terá sido esse calvário para cerca de 10.000 pessoas, habituadas a mimos e conforto, muitas das quais nunca tinham feito viagens por mar.
Dou, em seguida, um pequeno excerto (pg. 54) para se ter uma visão parcelar do estilo do livro:

"No geral, porém, o registo histórico dá-nos muito pouca ideia dos pensamentos e experiências da família real portuguesa e do seu exército de criados nas longas semanas passadas a atravessar vagarosamente o Atlântico. Fica à imaginação de cada um os cheiros que se elevavam do fundo dos porões - as colunas de ar putrefacto que subiriam através das escotilhas de navios que, em muitos casos, não serviam há anos, as longas filas para usar as «cabeças», uma plataforma fixada ao bojo da ré e deixada suspensa sobre o rasto do navio, que servia de casa de banho ao ar livre; o tédio, a vergonha e a angústia dos que tiveram de abandonar os amigos e a família numa hora de grande aflição. As acomodações seriam rudimentares, a privacidade inexistente, o sono difícil senão impossível no convés descoberto, com borrifos de água do mar a molhar regularmente as filas de nobres estendidos nas tarimbas. E, durante o dia, o constante balanço dos navios terá sujeitado respeitáveis cortesãos à indignidade de crises públicas de enjoo marítimo."

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Últimas aquisições (7)


Tenho paciência bastante para, tranquilamente, esperar que, de autores recentes e modernos, as suas obras venham a aparecer nos alfarrabistas, embora usadas. Do processo, excluo por impaciência pessoal, apenas Steiner, Sebald, Magris e Manguel - e é tudo, creio. Que gosto de ler, mal sejam editados, em Portugal.
O resto, é uma questão de tempo e o preço, normalmente, compensa bem a espera. Tirando Los Sueños (Espasa-Calpe, 1952), de Quevedo, que aposentado na "salgadeira" (H. N. dixit), me custou apenas 1 euro, dei pelos outros 4 livros, que comprei ontem, aquilo que daria, pouco mais ou menos, por um deles, novo.


Vou assim também averiguar das excelências da escrita de Philip Roth (1933-2018), que muita gente incensa, e de quem nunca li nada.
Um único problema subsiste: em que lugar irei eu arrumar estes 4 livros, depois de lidos, quando a casa já está superpovoada e pejada deles?