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sexta-feira, 17 de abril de 2026

De para e sobre


 
Patrick Modiano é um colorista de recordações.

Bernard Pivot

(La Croix, 2014)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Novos caminhos da prosa?


A prosa parece querer assumir, neste século XXI, novos caminhos ou derivas de experimentação, talvez por cansaço ou esgotamento das orientações a que a ficção tinha sido conduzida. A efabulação de ficção-autobiográfica ou a prosa glosada sob o mote de outras artes, como a pintura e a fotografia, parecem assumir ou denunciar algumas dessas vias mais significativas. As viagens, sob um novo ângulo, em que se misturam história, biografia, revisitações de outros autores, diarística e ficção romanceada convocam, por exemplo, Bruce Chatwin, Claudio Magris e Paul Theroux.
Quanto à fotografia, como ponto de partida, mote ou fonte de inspiração, se ela surge esporádica, tímida e um tanto canhestra nos romances de Modiano, vem a ganhar dimensão maior nos livros de W. G. Sebald e, pelo menos, numa das obras mais recentes de Javier Marías ( Vidas Escritas, 2007).
Se neste livro, e na primeira parte, Javier Marías nos dá, por palavras e pequenos episódios, muitas vezes pitorescos, retratos instantâneos de 20 autores, na segunda parte (Artistas Perfeitos), cuja prosa é antecedida de 37 fotografias de cerca de 25 escritores, o escritor espanhol efabula livremente sobre as poses, os tiques observados nas fotos, as expressões, a indumentária usada e as conclusões a que chega a sua imaginação ou fantasia para caracterizar esses artistas. Creio que por aqui anda, ainda que discutível, uma experiência nova e singular de retratar e fazer prosa.



Para ilustrar o que disse, escolhi, dessa segunda parte de Vidas Escritas, o retrato do poeta W. B. Yeats (1865-1939), tirado por Howard Coster, em 1935, que Mariás seleccionou, fazendo-o acompanhar das considerações que lhe consagrou, neste livro. Assim:

Um poeta inegável é sem dúvida Yeats, apesar de na fotografia ter já os cabelos brancos e não ser costume associar facilmente os homens de idade com a produção de versos. Ao observar a sua expressão, vê-se um fanático ou um iluminado, alguém de carácter demasiado forte e convencido de tudo o que faz ou opina, é uma expressão de autenticidade. O cabelo desalinhado salva-o de ser velho e quase parece loiro, dota de movimento e brio toda a cara, é um indivíduo a que sobeja vigor. Mas chamam também a atenção as sobrancelhas mais escuras; e esse olhar invisível, apenas adivinhado por detrás das lentes, faz com que seja realmente com os lábios firmes que olha, como se todo ele fosse tão-só voz. (pg. 267/8)

sábado, 12 de janeiro de 2019

O leve do pesado


Já o meu amigo H. N., ao passar-me o livro de empréstimo, me aconselhara a ler primeiro 4 apontamentos, que vinham em Le Monde, sobre o último Houellebecq, posterior a este. Assim fiz.
Retive o que Compagnon dele disse. Qualquer coisa como: que lemos este autor, para sabermos como estamos (em França) - uma afirmação compreensível e interessante nos propósitos.
Eu iria mais longe e citaria Brel - estas pouco mais de 30 páginas, que já li de Submissão, não deixam de ser um plat pays, a que falta nervo e osso. E garra literária, apesar do tema poder vir a ser pesado...
Há, evidentemente, Paris, embora menos repetitivo do que em Modiano. Há decadência e indiferença, também. Há um saber contar de água chilra. Bem como há muitos livros como este, que se publicam, até mesmo em Portugal, todos os meses, de forma absurda e acrítica.
Mas falta-lhes osso. E consistência literária.

para H. N., com agradecimentos.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Não há 2 sem 3


Com a velha e soberana ironia inglesa, o último TLS (nº 5976) afirma que, hoje em dia, é mais difícil um escritor ganhar um Grammy, do que um letrista ser premiado com o Nobel da Literatura.
Em apoio desta conclusão fascinante, refere Patrick Modiano que escreveu cantigas para Françoise Hardy e Lucy Hope, e o cantautor Dylan que também escreveu para meio mundo e para si próprio. O último Nobel da Literatura, Kazuo Ishiguro quase conseguiu um Grammy com as 4 canções que compôs para o álbum de Stacey Kent (Breakfast on the Morning Tram), mas não chegou lá...
Mas não falhou o Nobel da Literatura, este ano.
Que Jacques Brel e Leonard Cohen lhes perdoem!

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Da leitura (10) : o livro e o marcador


Eu queria dar uma última oportunidade ao homem, porque até simpatizo com ele, no seu ar canhestro ao dar entrevistas, na sua aparente simplicidade desarrumada, no seu discurso gaguejante e pouco objectivo.
E a oportunidade surgiu. Numa loja próxima do Largo do Rato, que se dedica, principalmente, à venda de material informático usado, há uma pequena secção de livros, daqueles de capas berrantes e que são efémeros best-sellers por cerca de um mês, e que também podem ser vistos nos transportes públicos a serem lidos por leitores anónimos e muito variados... E, de repente, vejo numa das estantes um dos mais badalados títulos de Patrick Modiano (1945), publicado antes mesmo (1997) de ele ter sido premiado com o Nobel, em 2014. A obra, Dora Bruder, foi publicado pela Edições Asa, em 1998, e estava ali, naquele improvável alfarrabista, ao preço simbólico de 50 cêntimos, ainda por cima com o marcador original e tudo...
E eu, que tinha lido, desalentadamente, Pedigree (2004), que me parecera um relatório repetitivo e cheio de nomes, resolvi dar uma segunda e última oportunidade ao homem, e lá trouxe o livro para casa, para o ler e tirar conclusões sobre o romancista francês. De uma coisa, estou eu certo: o homem sabe escrever, e contar. Mas é sempre a mesma sensaboria desinteressante, o itinerário das mesmas ruas de Paris por onde lhe passeia a memória, o registo desordenado e repetitivo, numa burocrática nostalgia que mais se assemelha a um balanço seco de um contabilista de uma firma envelhecida no tempo. Quanto a Modiano, resumindo, fiquei vacinado...

P. S.: da leitura, retenho o mais interessante, que é uma carta, comprada por Modiano a um alfarrabista das margens do Sena, e que ele transcreve na íntegra (pgs. 104/9), quase no final da novela Dora Bruder. Trata-se de uma missiva de recomendações e despedida de um tal Robert Tartakovski, judeu, em trânsito para um campo de concentração, onde veio a morrer. O mais curioso é que ele não tem nada a ver com Dora Bruder e nem sequer é seu parente ou conhecido... Essa carta, em itálico, é assim uma espécie de colagem despropositada, um apenso sem justificação. Embora um documento humano tenso de desespero com grande qualidade dramática. Penso que é a melhor parte do livro... Hélas!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Divagações 90


Tenho que me arrancar, quase à força, do sofá da sala e da leitura, para vir respirar este ar de luz, junto à janela, ao começo da noite, como coisa essencial do dia que vai acabando.
Dois dos mais importantes escritores franceses da actualidade, Modiano e Houellebecq, foram mal-amados na infância e na adolescência. Quase abandonados pelos pais. Eu não me posso queixar.
Há uma neblina cinzenta sobre o rio. As andorinhas, lá fora, parecem desenhar metereóricos voos loucos, paralelos à minha janela. Numa autêntica vertigem visual.
E zilram, zilram com o seu coro agreste e insólito. Como que a querer agredir a noite que vai, agora, começar. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Modiano em Estocolmo


Do alto dos seus canhestros 1m94, aqui vai a primeira intervenção de Patrick Modiano (1945), a 7 de Dezembro de 2014, em Estocolmo. Com 2 minutos e 27 segundos introdutórios, em língua sueca, que eu não entendo, mas que, sendo formais, não terão decerto interesse de maior...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Alberto de Lacerda


Se, como é costume dizer-se, a felicidade não tem história, a infelicidade faz-se por esquecer, porque nunca nos há-de iluminar os dias do futuro.
Todos os anos, pelo mês de Dezembro, o TLS promove um inquérito junto dos seus colaboradores habituais, dos críticos especializados e de escritores, para que estes elejam os livros do ano, que melhor impressão lhes deixaram, após a leitura. E, de todas as vezes, eu procuro, ansiosa e afanosamente, essas páginas e respostas, a ver se encontro, nessas escolhas, algum autor de língua portuguesa. Não tenho sorte, normalmente, como foi o caso deste ano, embora, no passado, já por duas vezes, José Saramago tivesse sido referido. Mas neste Dezembro de 2014, em que o próprio Patrick Modiano, Nobel recente, é referido por apenas 3 (dos cerca de 60) inquiridos, portugueses é que não havia. Nem sequer brasileiros...
Para minha surpresa, no entanto, na última página do TLS (nº 5826), com esboços de dois retratos, feitos pelo poeta Robert Duncan, falava-se de Alberto de Lacerda (1928-2007), cujos últimos anos de vida, em Londres, foram coalhados de privações, amargura e solidão. Coleccionador compulsivo (de arte, cartazes, pequenos vestígios do passado...), o poeta português, nascido em Moçambique, conheceu, privou e era conhecido de muitos dos mais célebres escritores e artistas ingleses (T. S. Eliot, Edith Sitwell, Evelyn Waugh, Auden...), seus contemporâneos, e possuía abundante correspondência de muitos deles.
Para quem não saiba, grande parte deste espólio de Alberto de Lacerda, graças à intermediação do, também, poeta Luís Amorim de Sousa (1937), encontra-se à guarda da Fundação Mário Soares, na rua de S. Bento. Onde, creio, pode ser consultado. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

De uma entrevista a Patrick Modiano


A revista Lire, no seu número de Novembro de 2014 (nº 430), dedicou a Patrick Modiano (1945), prémio Nobel de Literatura 2014, um importante dossiê, incluindo uma entrevista muito interessante com o escritor francês. Dela respigamos uma pergunta de François Busnel e a resposta de Modiano:

François Busnel:  Mas deve deduzir-se de este método, que V. não tem uma relação feliz com a escrita?

Patrick Modiano: Não. O que agrava o meu caso, é esta espécie de sonho preambular a todo o início da escrita e de que eu tenho necessidade antes de passar ao acto. Eu sou como essas pessoas que, na borda de uma piscina, esperam horas até mergulhar: escrever é, para mim, qualquer coisa de desagradável, pois sou obrigado a sonhar muito antes de me pôr ao trabalho, de encontrar maneira de tornar agradável esse trabalho bastante longo e difícil. Entretanto, eu compreendi, agora, a razão do alcoolismo de muitos dos grandes escritores: creio que se trata dessa perpétua baixa de tensão e o álcool funciona como o grande estimulante (dopant), mesmo quando acabámos de escrever.

de algum modo, em geminação com MR, no seu Prosimetron.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

1 Nobel, entre mais 2 autores franceses


A leitura que fiz de "Un Pedigree" (2004), em menos de um dia, ter-se-á ressentido, porventura, de ter sido ensanduichada entre a imediatamente anterior (L'Escalier de Fer, de Simenon) e a que se tem vindo a seguir (Balanço Final, de Simone de Beauvoir). Há que dizê-lo, por uma questão de isenção e honestidade. Porque são ambos, estes dois últimos livros, de grande qualidade literária.
Em jeito de resumo ou conclusão de leitura, eu diria que esta obra de Patrick Modiano (1945) é um livro, no mínimo, desconcertante. Porque, não sendo propriamente uma autobiografia, também não é uma obra de ficção, até porque as variadas figuras que por ele perpassam, não chegam a ter consistência literária, nem suficiente espessura psicológica. Muito menos será um ensaio. Mas Modiano bem nos tinha avisado: "J'écris ces pages comme on rédige un constat ou un curriculum vitae...".
Tirando uma acrimónia ressentida subtil, mas crónica, em relação ao pai e, embora menor, em relação à mãe ("C'était une jolie fille au coeur sec."), a narrativa é bastante asséptica (fria?), quanto a sentimentos ou descrição de emoções. A multidão infinita de personagens, que a cruzam e o ritmo veloz, fazem lembrar umas "Páginas" (ou será "O mundo à minha procura"?), de Ruben A., a que faltasse um estilo marcado e uma efabulação metafórica e imaginativa.
E há uma pergunta que, uma vez lido este "Un Pedigree" (título homenageando Simenon), fica a pairar, neste leitor que eu fui: Será isto verdadeira literatura? Pese embora que a leveza é este ar fluído, breve e efémero que predomina, em muitos dos livros que se publicam, nos nossos dias...

agradecimentos a H. N., pelo empréstimo amigo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Perplexidades menores


Que me fará iniciar, hoje, o terceiro poste sobre Patrick Modiano (1945), Nobel de Literatura 2014, francês, mas de que nunca li nenhum livro, até agora?
A sua prestação em vídeo-entrevistas (Youtube) é canhestra, titubeia interminavelmente nas respostas, parece ter um pensamento errático e desarrumado, faz grandes gestos desacompanhados, abusa frequentemente de jargões: evidemment, é um deles...
E o mais estranho é que, nem os dois últimos Le Monde des Livres, nem os 2 mais recentes "Obs." disseram o que quer que fosse sobre ele, ou sobre a sua obra. Terá Modiano má imprensa? É bem possível...
Mas estas misteriosas omissões insólitas e curiosas seriam comparáveis, por exemplo, a que, aquando da atribuição do Nobel a José Saramago, nem o JL, nem a revista Ler, nem o Atual (Expresso), nem sequer a ípsilon (do jornal Público) falassem dele.
Talvez Modiano seja apenas aquilo que os franceses disseram de Hollande: "É um homem normal." No caso concreto: é um escritor normal (banal?). Ou terão vergonha de falar sobre ele?

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Qualidade, quantidade e coscuvilhice


Era sabido que os romances de Patrick Modiano (1945), em França, não se vendiam muito (em Portugal, parece que também não...), embora o considerassem um digno sucessor de Simenon, na sábia construção de atmosferas. É provável que, agora e por algum tempo, passe a vender mais, que o Nobel acaba sempre por trazer às livrarias alguns cordeirinhos tresmalhados.
Entretanto, a última obra da senhora Trierweiler - diz o "Obs." - já vendeu 442.000 exemplares, fazendo, com certeza, o pleno dos leitores das melhores revistas róseas gaulesas. E até nem incluo nestes consumidores, por uma questão de justiça, o sr. Hollande, que tinha todo o direito ( e interesse) de conhecer o enredo dessa obra histórica e actual. Mesmo que já não tivesse uma atmosfera nupcial...

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O que eu não sabia de Modiano


De Patrick Modiano (1945), escritor de língua francesa, com ascendência paterna italo-judaica, recém-premiado Nobel da Literatura, para além do nome, pouco ou nada eu conhecia. Nem sequer tinha lido nenhuma obra sua.
Por curiosa coincidência, um dos últimos Le Monde (3/10/14) inclui uma recensão (Créateur d'ambiance), de Éric Chevillard, sobre um seu recente livro, Pour que tu ne te perds pas dans le Quartier, editado pela Gallimard. No jornal tinha eu, por acaso, feito alguns sublinhados nesse texto. Aqui os passo a alinhar, traduzidos:
- Para certos escritores, a unidade da medida é a frase. (...) Mas outros autores, pelo contrário, usam a frase como uma peça neutra de um puzzle. (...) Tomemos como exemplo a obra de Patrick Modiano. Os seus romances não são livros, mas aerossóis: ambiência Modiano.
- Patrick Modiano é há mais de quarenta anos uma bela figura da nossa literatura, que vive o seu sucesso com uma elegante modéstia e que persegue incontestavelmente uma indagação pelas brumas do passado.
- Segundo Modiano, a verdade dos seres e da sua história não existe senão no passado, um passado que se vai desnudando à medida em que eles se esforçam para se re-transportarem até ele.