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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Leilão

 


Não são muito frequentes os leilões de livros, hoje em dia, e este que a Livraria Ecléctica levará a efeito, a partir de 24/4/2026, tem alguma importância pelo acervo rico que contém. O destaque centra-se na literatura portuguesa do século XX, com particular incidência na poesia. As obras pertenciam  ao bibliófilo Joaquim Guerreiro (1967-2017).
Por amostra, vou referir alguns dos lotes de 3 colecções:

1. Cancioneiro Geral, Lisboa (Centro Bibliográfico, 1950-58): 21 volumes, faltando apenas o nº17.
    Com uma uma base de licitação de... 150 euros.
2. Poetas de Hoje (1961-1972), Portugália Editora 32 livros (de 39). Com uma estimativa de venda        
    entre 150 e 250 euros.
5. Cadernos Iniciativas Editoriais (Lisboa, 1956-80), 26 obras. Estimativa entre 150/200 euros. 

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Decadência

 
Houve um tempo, no passado, em que várias instituições ou editoras eram uma garantia de qualidade de tudo aquilo que produziam ou publicavam. A Portugália, Sá da Costa, Assírio & Alvim, por exemplo, eram nomes de prestígio no universo editorial português. Os conselhos de leitura dessas empresas, o rigor da crítica e a exigência dos leitores a isso obrigavam também, evitando os equívocos e desmandos de hoje.
Custa-me por isso a perceber que a última das editoras referidas tenha publicado uma pretensa biografia de Alexandre O´Neill (registada num poste recente do Arpose) tão mal enjorcada e desarrumada.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Divagações 190



Esta semana começou, finalmente, com um dia soalheiro, mas que pouco durou. Embora o azul regressasse. Pois que, na passada, depois das orvalhadas tipo S. João, amanhecia sempre por entre nevoeiros espessos que convidavam a perdermo-nos ao sair para a rua.
Coincidiu, nessa altura, que eu tentasse localizar, em data, o ano de publicação de algumas obras de Aquilino Ribeiro (1885-1963). Ora, ao contrário da Portugália, muito precisa nesse tipo de informações , ou da Relógio D'Água, a Bertrand nem sempre fornece, no livro, esses dados importantes. Suspeito das razões e, se não fosse Aquilino dar nota da data do final da escrita de algumas das suas obras, ou na dedicatória ou prefácio inicial, teríamos ainda mais dificuldade  em situá-las. A Editora Bertrand prefere falar de milheiros do que dos anos de publicação. E, deste modo, até podemos ficar perdidos pelo nevoeiro do tempo...



segunda-feira, 31 de julho de 2017

António Reis, realizador e poeta


Sei que o autor era conhecido, já antes, em círculos restritos portuenses em que se lia poesia e se ia ao cinema, com alguma devoção. Mas para muita gente, e para mim, que gostava ou fazia poesia, a publicação, em 1967, de Poemas Quotidianos, de António Reis (1927-1991), pela Portugália, foi uma pedrada no charco. Porque era uma poesia muito singular, subjectiva mas atenta, despida de atavios, para a época, e fora editada na prestigiada colecção Poetas de Hoje.

Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz
torna mais belo
e mais útil
cada objecto

Lido este poema, pelo livro emprestado na altura por um amigo, vi que estava perante um poeta diferente, sério perante a vida, atento aos pequenos sinais de existir. Não me lembro já do que Eduardo Prado Coelho, no prefácio da edição da Portugália, dizia desta poesia do quotidiano anónimo dos homens sem história. Por preocupada arrumação, classificaram estes poemas de António Reis no segundo neo-realismo. O que me parece, hoje, muito redutor.
Agora que, passados 50 anos, a Tinta da China, em boa hora resolveu reeditar o livro, fala-se em Guillevic, como seu parente de influência. Talvez. Mas ao poeta francês falta-lhe a ternura, que António Reis sabe usar com parcimónia natural. Vejo-o mais próximo de Saúl Dias (Júlio, como pintor, irmão de José Régio), embora mais urbano e atento aos ruídos da cidade.
Talvez por isso, António Reis terá deixado de escrever versos, depois, e filmou Trás-os-Montes (1976). Cansado, provavelmente, da cidade e dos seus artifícios, tentadores mas efémeros.
Seria quase desnecessário dizer que recomendo, vivamente, este livro de poemas.

agradecimentos a ms, afectuosamente.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Versões


É um pormenor sem importância, talvez. Mas atesta as transformações por que passa um poema, até à sua versão final. Ou aquela que um Poeta acha mais concorde e perfeita.
Por outro lado, é pouco provável que venha a ser feita, alguma vez, uma edição crítica da obra de Eugénio de Andrade (1923-2005), muito embora grande parte do seu acervo se encontre na BPMP. Mas também dele, ultimamente, pouco se tem ouvido falar ou, melhor dizendo, da sua poesia.



Em Jan./Fev. de 1960, a Revista Vértice (nº 196-197) publicou um pequeno conjunto de poemas de Eugénio de Andrade, com o título Improvisos de Outono. O segundo poema, que é um dos que eu mais aprecio do Autor, tinha inicialmente 6 versos, como pode ver-se, na imagem acima. E não tinha qualquer dedicatória, na sua versão primeira. 




Cerca de dois anos depois, Eugénio de Andrade publica na Delfos a sua primeira Antologia (25 de Novembro de 1961). O poema (pg. 206) é então dedicado ao amigo e crítico literário Óscar Lopes. Passa a intitular-se Passo e Ardo... E os 6 versos iniciais são reduzidos para cinco. Desaparece o Sol doirado?, substituído por Luz?. Bem como se altera a ordem das palavras no 2º verso, que não terá ainda, aqui, a sua versão definitiva. 




Todo o ano de 1966, Eugénio de Andrade passa, a pente fino, a sua obra - conforme o referiu em carta. Aperfeiçoando os poemas, modificando-os de acordo com uma maior exigência de maturidade. De novo desaparece a dedicatória, e a quintilha perde, mais uma vez, o seu título anterior, passando a ser designada por Quase nada. O segundo verso é também alterado: desaparece Música?, substituída por Água?. E a ordem das palavras sofre modificações. Os Poemas virão a ser publicados pela Portugália, em Novembro de 1966, na celebrada colecção: Poetas de Hoje.
O poema teve deste modo a sua redacção definitiva. É assim que ele vai aparecer nas futuras edições da IN-CM (Abril de 1980) e de "O Jornal/Limiar", em 1990. Entre a primeira versão e a última, no entanto, tinham decorrido quase sete anos ( o que faz lembrar Camões...). Por essas reconfirmações de 1980 e 1990 se estabeleceu o ne varietur do poema.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Miscelânea bibliográfica e poético-canora


Quando, em Dezembro de 1963, a Portugália fez sair, na sua prestigiada colecção Poetas de Hoje, os Poemas de Edmundo de Bettencourt (1889-1973), o poeta madeirense não seria conhecido de muitos leitores portugueses. O seu nome, um pouco a exemplo recente de Bob Dylan, era mais reconhecido como cantor, nesse particular, de fados de Coimbra. As Saudades de Coimbra, de sua autoria, e Samaritana eram gravações de êxitos que lhe estavam associados.
Mas o elogioso prefácio (Relance sobre a poesia de Edmundo de Bettencourt), de Herberto Helder, com um apologético apoio e explicação dos singulares Poemas Surdos, contribuiram para que o livro fosse procurado e se esgotasse. A insularidade de ambos os poetas talvez explique esta aproximação, à partida, pouco provável.


Afora poesias avulsas, esparsas e intermédias publicadas em revistas, Edmundo de Bettencourt fora colaborador (e, depois dissidente, com Torga e Branquinho da Fonseca) da revista Presença e publicara apenas e sob a  chancela deste movimento, 33 anos antes, um único livro de poemas intitulado O Momento e a Legenda (1930). O meu exemplar, adquirido não há muito tempo num alfarrabista de Lisboa, fora dedicado a Mário Coutinho (1899?-1984) e incluia, solto, também um poema passado à máquina, assinado, que teria sido publicado na Revista de Portugal, segundo indicação manuscrita de Edmundo de Bettencourt.


Não ficaria de bem comigo se não juntasse, a este poste, uma das gravações, antigas, do poeta-cantor de Coimbra, pese embora a deficiente gravação do fado conimbricense que, para mim, é um dos mais bonitos que conheço. Talvez valha a pena informar que o fado "Samaritana", em causa, no período do Estado Novo, era proibido, pelo tema provavelmente beliscar a moral católica. Pude, no entanto, ouvi-lo, na República Baco, clandestinamente e entre amigos, no início dos anos 60, em Coimbra. E aqui fica ele, pela voz de Edmundo de Bettencourt. Que era também poeta. Como o Bob Dylan.



quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Reencontro


Os reencontros, passados muitos anos, nem sempre são felizes. Por crescimentos diversos de quem se revê, divergência nos interesses que se aprofundaram entretanto, pelas rugas do tempo na face outrora jovem - sentimento que nem sempre pensamos poder ser recíproco...
Há muito que eu não voltava à poesia de Reinaldo Ferreira (1922-1959) que li, empolgado, em anos de extrema juventude, por um livro emprestado por um amigo. E, hoje, no alfarrabista que frequentemente visito, o livro (em imagem) oferecia-se-me, acusando o tempo, mas até com as páginas por abrir. Lá o trouxe, que o preço era convidativo.
No prefácio, José Régio, certeiro, aponta-lhe as influências de Cesário e Pessoa, com muita justeza. Bem como uma certa desigualdade na qualidade dos poemas. A leitura de "Receita para fazer um herói" já não me empolgou como na juventude. Até porque já nem há a guerra colonial, no horizonte.
Mas continua a ser interessante um pequeno poema que eu quase sabia de cor, e voltei a ler:

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Em resumo


O fim da tarde foi bem empregue: vi Amigos, aprendi algumas coisas interessantes, que não sabia. E, embora o tema, parcialmente, não fosse "my cup of tea" (como os ingleses dizem), até fiquei com curiosidade de relembrar alguns factos de que me esquecera, com o tempo. Por isso, repeguei neste livro de 1940, da Portugália, que tem uma capa bem interessante.
Mas para que não fique nenhuma dúvida, desde já e aqui, me declaro: republicano e laico.