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terça-feira, 12 de abril de 2016

Osmose 82

                                                                                                                                     para a Fernanda 


As palavras entalam-se entre a boca e o coração, sem solução à vista. Todas são pequenas e todas são excessivas para definir esse buraco negro que é a morte. Que é sempre dos outros, porque o silêncio eterno e definitivo nunca permitirá que falemos da nossa.
Os poetas mais dotados serão talvez capazes de a imaginar e antecipar em versos densos, mas indecisos, provavelmente errados, não na rima, mas na conclusão. O silêncio tem sempre pouco a dizer, mesmo que cheio de memórias, que se apagam.
Porque continuaremos a comer, a adormecer, talvez com mais insónias, por entre os pesadelos, a sorrir, talvez com menos vontade, a amar pequenas coisas, na sucessão dos dias. A viver, finalmente, embora com menos verdade - porque chamam por nós, não sei de onde. Talvez da terra.
Mas ninguém regressa, nem se reencontra mais. Por isso são frustes os sinais de afecto entre os sobreviventes: um beijo, um abraço apertado, uma carícia terna. E todas as palavras são inúteis.