O antepenúltimo TLS (nº 5957) dedica a sua temática semanal e as suas primeiras oito páginas ao Cinema. A razão desta escolha reside - julgo eu - na pertinência de um depoimento (Illuminations), a abrir, do realizador norte-americano Martin Scorsese (1942), escrito de propósito e a convite do director do jornal literário inglês (Stig Abell). Com o objectivo de responder a uma recensão crítica, publicada anteriormente no TLS, e não inteiramente favorável, sobre o seu último filme "Silence", baseado numa novela do escritor japonês Shusaku Endo. O texto de Scorsese pretende, sobretudo, defender a profissão do filmmaker como Arte, independentemente dos meios utilizados.
O realizador, referindo quatro imagens emblemáticas de outros tantos filmes e realizadores (o carrinho de bebé pelas escadas de Odessa, de Eisenstein; a maré de sangue jorrando, em Shining, de Kubrick...), chama a atenção para a memória redutora destas imagens, que podem fazer esquecer que há um antes e um depois, nos trabalhos de filmagem. Como se, de uma ópera, fixássemos apenas uma ária, embora cheia de beleza, em detrimento da obra no seu conjunto. E Scorsese acrescenta:
"Anos e anos, cresci habituado a ver o cinema desvalorizado como arte, por uma série de razões: ser contaminado por considerações comerciais; não poder ser arte porque, na sua realização, há demasiadas pessoas envolvidas; ser inferior a outras artes porque «não deixa nada para a imaginação» e simplesmente captura, só por algum tempo, e por feitiço (spell) o olhar do espectador (no fundo, o mesmo - nunca referido - que acontece com o teatro, a dança ou a ópera que requerem, também, intermitentes momentos da atenção interior, mais acentuados, no tempo.)..."