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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Quase um soneto


 Memoriae


Na varanda de begónias e avencas
no leve mofo e solidão do estio
se desprende silêncio  Ao largo a fonte o
quebra  Quantos anos eu botei menino

Rodou a bola  Partira-se o pião
E assustado no casarão enorme
a ver fugir-me o jogo do botão
tear infinito me fazia homem

Secaram os goivos no jardim em frente
cresce ainda murta aqui além informe
Os velhos passam  A estrada negra parte
para onde?  E tão longe da memória
da varanda de avencas e begónias  


António de Almeida Mattos (1944-2020)


Nota Pessoal: este poema de A. de Almeida Mattos foi publicado, inicialmente, no suplemento Cultura e Arte do jornal O Comércio do Porto, vindo a integrar depois (1985) a antologia "Poetas de Fafe". Aqui o lembramos no dia em que o António, se fosse vivo, completaria 77 anos.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Formar o gosto


Há dívidas que nunca mais se pagam. E eu tenho uma delas para com Óscar Lopes (1917-2013).
Não tanto pelos livros que publicou, de que se destaca a História da Literatura Portuguesa, mas sobretudo pelo seu magistério crítico que, ao longo dos anos, foi exercendo, às terças-feiras, no suplemento literário Cultura e Arte, de "O Comércio do Porto".
Pelas suas recensões semanais fui apurando o meu sentido crítico, aprendendo a separar o trigo do joio literário, a melhor compreender a prosa e a poesia portuguesa, que, então, se ia publicando. A agudeza das suas sínteses, a fina intuição que não excluía o afecto (o texto à morte de Mário Sacramento, é um magnífico exemplo de amizade), deixaram marcas na minha memória.
Conheci-o pessoalmente já tarde, por intermédio do nosso comum amigo António, num dia atribulado de lançamento de um livro, em Lisboa. Era a simplicidade em pessoa, apesar da sua imensa sabedoria.
Aqui o quero lembrar, 4 dias depois da passagem do centenário do seu nascimento. Com gratidão.


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Retro (95)


Um jornal diário tem, hoje, uma existência efémera - deita-se fora amanhã.
Mas, em tempos recuados e mais poupados, guardava-se e, com outros, vendia-se ao quilo, aos homens do papel e trapo velho, que os levavam, primeiro, em carroças, depois, em camionetas de caixa aberta. Também cheguei a ver peixes do rio serem vendidos embrulhados em papel de jornal.
Actualmente, só os hebdomadários, às vezes, se conservam em casa, para ir lendo ao longo da semana, quando são extensos. Não deixam, no entanto, de ser efémeros. 



Passada, porém, a actualidade do seu conteúdo informativo, um jornal pode vir a ganhar, com os anos, um valor histórico e arqueológico, ressurgindo como uma curiosidade interessante e sociológica, se a época em que foi produzido e composto vier a ter alguma importância no futuro ou se tiver sido recheada de acontecimentos importantes.
Há tempos, comprei usados uns livros que, muito bem dobrados, continham dentro dois jornais O Comércio do Porto (1854-2005), do imediato post-II Grande Guerra (27/10 e 27/11/1945). Do suicídio do presidente Getúlio Vargas (Brasil) ao julgamento de Nuremberga, havia notícias muito interessantes, colhidas a quente, na altura.



Havia até uma pequena local a informar que, na véspera, o sr. Presidente do Conselho (Salazar) tinha trabalhado com o sr. Ministro das Finanças. Aliás, era costume dar as notícias do estadista português sempre depois de terem acontecido. Nunca se dizia, por exemplo, que ele ia a tal sítio, mas que tinha ido, ou esteve. Justificando o seu trabalho aturado e, provavelmente, prevenindo a sua segurança. E foi assim que ele ganhou a alcunha de: Esteves...

quarta-feira, 27 de março de 2013

Nunca será demais insistir


Reproduz-se, do DN, um isento e justo testemunho pessoal de Vasco Graça Moura sobre o magistério, influência e labor cultural de Óscar Lopes (1917-2013). A importância que ele teve na minha formação literária foi semelhante, embora não tão intensa nem tão quotidiana quanto foi em Vasco Graça Moura. A primeira vez que o vi e ouvi, terá sido em Coimbra, no início dos anos 60, num colóquio organizado pela Associação Académica. Depois disso, encontrei-o mais 2 ou 3 vezes e, aí, já falei com ele. Mas, no entretanto, também lia religiosamente os seus artigos primorosos, no suplemento literário de "O Comércio do Porto". E, depois, todos os seus livros.