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sábado, 9 de maio de 2020

Memória 134


Do passado, o puzzle completa-se, quando as memórias se cruzam, havendo sobreviventes. O problema agudiza-se, no entanto, se nenhuma das testemunhas vivas recorda o acontecimento.
Aí, a única forma de comprovar a existência de um facto é encontrar um documento verídico e concreto, uma fotografia, por exemplo, que certifique o acontecido. A foto que se apresenta acima existe em França.
O acontecimento retratado ocorreu no Minho, a 6 (ou 8) de Abril de 1961. Nele estão representadas as forças vivas de um distrito (um governador civil, um presidente de câmara, um arcebispo, um arcipestre de Colegiada).
Um grupo de estudantes (14?), de capa e batina, fez a guarda de honra aos despojos ou relíquias de D. Nuno Álvares Pereira (1360-1431) e ao seu montante, que peregrinaram por todo o Portugal (confirmei Penafiel, Guimarães, Bragança), nessa altura. Nenhum de 4 estudantes contactados se lembra deste acontecimento.
Ocorre-me notar que ele decorreu pouco tempo antes da invasão da ex-Índia Portuguesa e pouco depois do deflagrar do terrorismo em Angola. Especulo se a organização desta peregrinação não se deveu a uma parceria Estado Novo e Igreja, no sentido de despertar o patriotismo das gentes de Portugal, para a longa guerra colonial que aí vinha?...

domingo, 23 de setembro de 2018

Divagações 134


Esta linha semi-circular de luzes ribeirinhas, por cima dos telhados defronte, traz-me sempre uma paz muito singular e pessoal, à noite. Depois, há esse triângulo agudo, cavado, por entre os prédios altos  que permite ao meu olhar ver o Tejo e, mais ao longe, a silhueta semi-iluminada do castelo de Palmela. Fernão Lopes acaba por ser convocado à memória. E as almenaras que D. Nuno, em finais do séc. XIV, fez acender da Outra-banda, para dar ânimo ao Mestre, cercado em Lisboa, pelos castelhanos.
Mas, hoje, há Lua Cheia, o rio é um espelho reflectido de luar. E o Verão, preguiçoso em despedir-se, parece augurar, em temperaturas, um S. Martinho à maneira... Ora, tudo isto recusa, liminarmente, essa melancolia dourada de que o Outono gosta, quase sempre, de se acompanhar. E que também nos inunda, quer queiramos ou não, tantas vezes. Ganha-se assim, benevolamente, um compasso de espera, bem-vindo e inesperado. Assim seja!

domingo, 2 de junho de 2013

Os eleitos


Tenho cada vez menos paciência e capacidade para suportar o purismo impoluto de algumas criaturas que, sendo transversais a vários ofícios, têm o epicentro etário e maioritário entre os quarenta e poucos e os ciquenta e muitos anos. É um modo de vida, uma forma de estar e dizer-se independente, um certo elitismo provinciano ou snobeira que os leva a rechaçar tudo, a tudo excluir, mas a nada, nunca, apresentar como alternativas ou opções que apoiem, declaradamente. No fundo, reservam-se sempre e não gostam de sujar as mãos na lama dos dias. E quase nunca nomeiam referências.
Quando eu era novo, tinha como heróis Nuno Álvares Pereira e Thomas Moore, sabendo que não eram homens perfeitos. Um pela soberba ética de algumas atitudes, outro, pelo gosto ou ganância de acumular riqueza, e pelas birras. Eram humanos, apenas, e como diz o povo: "o bom é inimigo do óptimo". É difícil dizer, hoje, que ainda tenho heróis e exemplos, ou nomeá-los. Mas admiro Steiner porque me faz pensar, e aprecio a irreverência paradoxal de Cioran que me obriga a situar a minha própria posição. Gostei, por exemplo, do exercício político discreto de Jospin que foi, nos tempos que correm, o último socialista autêntico, na Europa. Ou Delors. E acompanhei, com curiosa atenção, o percurso presidencial de Mittérrand. Não se pode dizer que não tenho referências.
Não me consigo é dar ao luxo desses devaneios de independência de alguns tecnocratas balofos, alguns deles lusos, de cérebro minguado, sem deus nem pátrias, e de espírito e pensamento, dito, independente. Chamávamos-lhes, nos meus tempos de juventude: os fanãs...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Quotidianos lisboetas (2)

Poderia ser de Teresa Salgueiro, a voz que vem dos jardins Farrobo  - mas não é -  agora, já noite perfeita. Falta-lhe o "golpe de asa", a ousadia juvenil para lá chegar e ultrapassar a mediania. Mas é agradável de ouvir, apesar de tudo. Antes, pela antiga Rua Velha do Tesouro, subiam do lajedo o bater das ferraduras (novas tecnologias) e o nostálgico piano sincopando jazz num happening inesperado, neste final de Setembro de 2011. (Era então isso, o que estavam a preparar, de tarde!...) Não andasse eu a ler "História do Infante D. Duarte..." (1889), de Ramos-Coelho, e não me vinha à memória a sereníssima Casa de Bragança. Porque estes terrenos foram comprados por D. Nuno, à Ordem de S. Francisco, em tempos medievos. Mas nesta noite de Verão serôdio, temos Fado, jazz, novas tecnologias ( o bater das ferraduras), se abrirmos as janelas altas. Dissonante e periodicamente, a fazer-se ouvir, apenas o som metálico e frenético do eléctrico pelas calhas, nesta noite mansa.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Condestáveis


Sempre pensei que o primeiro Condestável de Portugal fora D. Nuno Álvares Pereira, hoje santo. Na realidade, o cargo foi criado, em 1382, pelo rei D. Fernando, e o Condestável inicial foi D. Álvaro Pires de Castro, irmão de Inês de Castro, conde de Arraiolos. Nuno Álvares Pereira foi o segundo, e a partir daí o cargo passou a ser ocupado pelos chefes da casa de Bragança. O último Condestável de Portugal foi o irmão do rei D. Carlos, o infante D. Afonso. Que era conhecida pela alcunha de "Arreda". Tendo sido uma das primeiras pessoas a ter automóvel, em Portugal, quando conduzia, costumava gritar: "Arreda!", para os peões se afastarem do seu automóvel.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Leituras Antigas XXVII : O Condestável e Mousinho



Os dois livros, em imagem, foram prémios escolares que recebi. "Mousinho de Albuquerque" de Eduardo de Noronha, pelo "bom aproveitamento" no 1º ano do Liceu, e devo tê-lo lido em 1956. A "Vida do Santo Condestável..." é da autoria de Henrique Barrilaro Ruas e tem capa, bem interessante, de Américo de Amorim. Foi prémio escolar do 2º ano do Liceu. Li-o em 1957.
É evidente que eram livros para incentivar o patriotismo e despertar o gosto pelo heroísmo, nos adolescentes. Mas não me fizeram mal, tanto quanto me apercebo...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Recomendado : dez - Crónica do Condestável

É, no mínimo, curioso, este livro impresso em Madrid, pelo ano de 1640. Foi escrito por Rodrigo Mendes da Silva (Lusitano), português ao serviço da corte espanhola de Filipe IV (terceiro de Portugal). Se é um facto que o volume terá sido editado meses antes da Restauração de Dezembro de 1640, são também notórios os enormes elogios que o autor faz a Nuno Álvares Pereira. Que, como se sabe, venceu tantas vezes os espanhóis, nas batalhas que com eles travou. A crónica pouco adianta, em factos novos, ao já existente e conhecido, mas acrescenta, em detalhe, elementos sobre a descendência europeia do Santo Condestável.
Esta reedição (Outubro de 2010) foi coordenada pelo Prof. Dr. Fernando Cristovão e foi impressa pela Esfera do Caos, editora. Além da reprodução fac-similada, o livro apresenta uma tradução da Crónica "Vida e Feitos Heróicos do Grande Condestável" para português.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Jacarandás, estorninhos e a O. C. D. E.


Timidamente, os jacarandás refloriram e os estorninhos regressaram à boa visibilidade lisboeta. Na Av. 24 de Julho, com atenção, já se podem descobrir no seu renascimento de memória biológica (vide Arpose, 15/6/2010, Dário Castro Alves) e genética brasileira, os cachos azúis e lilazes floridos, esparsos ainda, por entre a folhagem.
Vi também 4 ou 5 estorninhos, discretos, vindos de uma frondosa "ficus ficus", quase no Chiado, atravessar para o jardim da casa, que foi de nascimento, do Conde de Farrobo. Não eram ainda aquelas nuvens densas que se cruzam e recruzam, sobre o Tejo, ao fim do dia, entre Outubro e Novembro. Mas deu para perceber, além da temperatura, que Lisboa entrara no Outono.
Depois, no Telejornal, veio um senhor mexicano (de "paupérrimas feições"[ Guimarães Rosa]) da O. C. D. E., mas sem "sombrero", falar aos portugueses do "Inverno" que se aproxima rigoroso e inevitável, e como contrariá-lo: mais IVA, mais IMI, mais IMT... Raio de globalização, onde até os mexicanos nos vem dar receitas para viver!...
Olho para o semi-círculo de luzes que, no escuro e ao longe, demarcam o Tejo e a terra firme ribeirinha. O luar e o céu limpo deixam ver Palmela das almenaras do Condestável , para dar coragem a D. João I, cercado em Lisboa pelos espanhóis, e digo para mim mesmo: ao menos, deem-nos uma estação de cada vez! Senão, morremos todos embuchados.