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quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Do que fui lendo por aí... 46



De uma saborosa introdução: 

Mas acautelai-vos: o poeta é um distraído terrivelmente atento. A sua distracção é pura economia. Apostado em caçar o essencial, o poeta resvala de olhos vagos pelo que já viu e reviu. Ele sabe que até morrer nunca mais terá tempo. (...)

Alexandre O'Neill (1924-1986), in prefácio às Obras de Nicolau Tolentino (Estúdios Cor, 1968).

sábado, 30 de março de 2019

Profissão assistida


Já Nicolau Tolentino se queixava de ter que aturar meninos, na sua profissão de mestre-escola, para sobreviver economicamente e poder ter algum tempo, ainda livre, para dedicar ao seu prazer maior que era escrever poesia. Esquecia ou, melhor, omitia que o vício do jogo lhe consumia uma boa parte dos rendimentos auferidos... Melhor sorte teve José Daniel Rodrigues da Costa, seu contemporâneo, que conseguiu viver do que escrevia e publicava, mas teve que trabalhar muito e deixar obra larga.
Que isto da poesia não é boa enxada, nem lucrativa, pelo menos, em Portugal.
De prosas viveu Camilo, mas teve que se esgadanhar a escrevê-las. E se não fossem os bens e rendimentos da Dª. Ana Plácido, provavelmente, ainda teria vivido pior. Eça também se queixava muito, apesar de escritor de sucesso e diplomata em exercício, que não seria mau ofício quanto a salário, decerto. No século XX, só me lembro de Ferreira de Castro e Agustina terem vivido da pena. Cesariny, só quando se desdobrou em pintor, é que teve um crescente desafogo na bolsa. E foi pela pintura que enriqueceu.
Li em Le Monde, recente, que são raríssimos, em França, os escritores que não têm uma segunda profissão, para poderem sobreviver. Lá como cá, seguramente.
E dos novos lusos publicistas? De tão fraca laia e escrita de água chilra? Viverão de biscates e croquetes de vernissages? É que muitos deles nem sequer chegam à mediocridade rentável de Houellebecq, que lá vai vivendo, em França, do que escreve. Tem, por ele, a sorte dos seus leitores não serem muito exigentes. E o sentido crítico, em grande parte deste mundo, andar pelas ruas da amargura.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Descartáveis


Sabe-se que o amor não é eterno, sobretudo na vida real. E os impulsos ou paixões fulgurantes, ainda menos. O que amamos na infância ou na juventude raramente nos desperta o mesmo sentimento, na idade adulta. É natural e humano, que assim seja. Mas há algumas coisas, neste capítulo, que tenho dificuldade em aceitar e, muito menos, compreender.
É sabido, embora sibilino pelo menos para o PAN que é um partido particular e ruralmente correcto, que, pelo início das férias, algumas boas almas simples, por entre lágrimas insofridas, costumam libertar para a rua um ou outro animal de estimação, para poderem usufruir, mais tranquilamente, os seus tempos livres... É assim que, aqui, na zona outrabandista, vagueiam em liberdade e matilha 4 canídeos, um dos quais ainda ostenta  uma afectiva coleira de amor passado. Quanto a gatos, esses donos caritativos já abandonaram dois às delícias da liberdade. Quando os vejo, lembro-me sempre de Nicolau Tolentino e do seu exemplar soneto Deitando um cavalo à margem

No que a livros diz respeito, nunca pensei, porém, que na sua imobilidade discreta pudesse estorvar ou incomodar o espaço dos seus proprietários. Hoje, fiquei na dúvida. Talvez estorvem o espaço de alguma gentinha pragmática com ligeiras intenções do sempre em festa - e devem incomodar. Porque encontrei, matinalmente, junto aos contentores do lixo outrabandista, uma pequena e desorganizada biblioteca juvenil. Composta por 5 ou seis livros escolares, ainda impecáveis, e cerca de uma dezena  de álbuns de BD, abandonados.
Deixo, em imagem, dois testemunhos. E devo confessar que fiquei siderado. Foi o meu momento zen, do dia, talvez da semana de início da sempre beatífica e libertadora silly season!...

domingo, 21 de maio de 2017

Bibliofilia 153


Os manuscritos têm quase sempre o seu lado interessante e curioso, quando não de mistério insolúvel. Não sendo eu especialista na matéria, os poucos que tenho, na minha biblioteca, proporcionaram-me, no entanto, horas aprazíveis de concentração e entretenimento, depois de os adquirir. Na decifração dos textos e diferenças em relação aos eventuais originais (impressos em livro), na tentativa (por vezes, inglória) de identificação dos autores, na interpretação de pequenas notas também escritas à mão, quando existem, nas margens de páginas envelhecidas e devotadas à perpetuação no tempo, feitas por escribas dedicados e anónimos.

Este manuscrito de 36 páginas inumeradas, que ora se apresenta, tê-lo-ei comprado em finais do século XX, num alfarrabista de Lisboa, mas já não me recordo de quanto paguei por ele. Por várias circunstâncias e indícios, sou levado a crer que deve ter sido escrito na segunda metade do século XVIII, sem grande margem de erro. Desencadernado, provavelmente terá integrado uma miscelânea mais volumosa. Em mediocres condições de conservação, apesar do papel ter marca de água e ser encorpado, ao seu corpo íntegro deverão faltar, pelo menos, as duas folhas iniciais.



O conjunto manuscrito contém obras poéticas (vários sonetos, por exemplo) do vimaranense António Lobo de Carvalho (1730?-1787), poeta boémio e fescenino já referido aqui no Arpose (postes de 14/7/2010 e de 26/10/2011), conhecido pela alcunha de Lobo da Madragoa, bem como quintilhas e outros poemas de Nicolau Tolentino de Almeida (1740-1811). O teor das composições é, maioritariamente, satírico. De algumas outras poesias não consegui identificar os seus autores, e é possível que se trate de escritores menores e/ou ignorados, que não chegaram a ter as suas poesias publicadas. Dá-se, finalmente, a transcrição de um soneto (talvez inédito) dirigido a Alexo Botelho, cujo autor desconheço (A. Lobo de Carvalho?), actualizando a sua ortografia:

Ginja peralta falador Botelho
Potro infeliz que segues as belezas
Não te embasbaquem ainda as gentilezas
Porque amor não faz ninho em tronco velho.

Não de escritos dá-lhe um bom conselho
Não têm preço com rugas as finezas
E se este que te dou néscio dispensas
Tira a peruca, vê-te a um espelho.

Verás polvilhada uma caveira
Em que os ossos nos mostram claramente
Entre caruncho uma alma galhofeira.

Casquilho de um vestido unicamente
Ai se o Manique sabe desta asneira
Prega-te no castelo certamente.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

De "O Bilhar", de Nicolau Tolentino de Almeida (1740-1811)


...
Mora defronte roto guriteiro
com jogo de bilhar e carambola,
onde ao domingo o lépido caixeiro
co'a loja do patrão vai dando à sola.
Gira no liso, verde tabuleiro,
de indiano marfim lascada bola,
erguendo aos ares perigosos saltos:
chamam-lhe os mestres d'arte «truques altos».

Ali se ajunta bando de casquilhos,
a que o vulgo mordaz chama «rafados»:
alto topete, prenhe de polvilhos,
que descalço galego deu fiados;
de quebrados tafuis vadios filhos,
pelas vastas tablilhas encostados,
altercam mil questões; prontos contendem,
prontos decidem no que nada entendem.
...

terça-feira, 7 de maio de 2013

Divagações 46


Há um perfume barato pelo elevador e um cão ladra, algures, na manhã. Crianças vão sendo passeadas por mamãs, na rua ainda fresca, e ganapos mais crescidos, no recinto, já começaram a fazer desporto, com os pés, purgativo no seu clamor suburbano de impropérios e gritos.
A ironia e o humor de O'Neill são anunciados e marcados habilmente, quase sempre, pelo uso de vocábulos antigos e desusados, ou então, por expressões populares castiças e pitorescas. Como se um piscar de olho, com a ajuda do politicamente incorrecto, para nos pôr em guarda. E são essas palavras, também, que dão ( darão sempre? - ver Tolentino ou Jazente...) frescura e viço aos seus poemas.
Sibilino, maquiavélico, cristão, algo mafioso, morreu Giulio Andreotti (1919-2013): um grande actor político italiano, mesmo que a sua figura sinistra, embora de direita, não nos seja simpática. Como em Arte, o feio e o grotesco, deve ser apreciado, sempre, com isenção. Ou seja, prescinde dos bons sentimentos e intenções, e da moral vigente. O politicamente correcto, passe o paradoxo, não vem ao caso.

domingo, 10 de março de 2013

Umas décimas gastronómicas de Tolentino


Assistindo o autor a um jantar em que havia cabidela mas não apareceu peru

Vi tenra assada vitela,
Vi ornada, farta mesa,
Mas comoveu-me a tristeza,
Ver a orfã cabidela:
Quero saber do pai dela,
Não fico nisto em jejum,
De calotes basta um,
E fiquemos no primeiro,
Dou-vos espera ao dinheiro
Mas pagai-me hoje o peru.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Poupar nas palavras, ou o rei mago que se perdeu no caminho


O adjectivo salazarento tem, para mim, várias sugestões de associação subjectiva. Lembro-me de gafos (lazareto), dum senhor poupado (Salazar), de Nicolau Tolentino (cavalo lazarento) e recordo-me ainda da Bíblia (Lázaro).
Quando ontem, no Parlamento, um deputado (João Galamba) teve a ousadia legítima de dizer, ao nosso "contabilista melancólico" ou mago Gaspar, que o país já não tem "disponibilidade para discursos salazarentos", eu pensei que ele estava a dizer a verdade e a acertar na "mouche".
Ainda para mais, um senhor que, nas previsões e programa, errou quase todos os objectivos... Vamos que fosse um operário de uma fábrica a fazer tanta asneira, e já teria sido posto na rua. Com a facilidade que há, hoje, nos despedimentos.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Garrett, sobre alguns poetas portugueses

Passa hoje mais um aniversário sobre a morte de Almeida Garrett, a 9 de Dezembro de 1854. No seu "Bosquejo da História da Poesia" (1826) traça uma panorâmica e emite opiniões sobre a maior parte dos poetas portugueses, até aí. Muitos deles que, eventualmente, tiveram importância no seu tempo, estão hoje esquecidos. Vamos transcrever a apreciação de Garrett sobre três dos mais conhecidos.
"...Sá de Miranda, verdadeiro pae da nossa poesia, um dos maiores homens do seu século, foi o poeta da razão e da virtude, philosophou com as musas e poetisou com a philosophia. ..."
"...A metrificação de Bocage julgam-na a sua melhor qualidade: eu a peior; ao menos que peiores efeitos causou. Não fez elle um verso duro, mal soante, frouxo; porém não são esses os unicos defeitos dos versos. ..."
"Nicolau Tolentino é o poeta eminentemente nacional no seu genero: Boileau teve mais força, mas não tanta graça como o nosso bom mestre de rhetorica. ..."

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os cornos da Lua

Tenho para mim que, de algum modo, a poesia satírica, no séc. XVIII português, é bem mais conseguida do que a poesia lírica, em qualidade. Estou a pensar, sobretudo, em Jazente, Cruz e Silva, Tolentino, Bocage, António Lobo de Carvalho...
Vem isto a propósito dum soneto, manuscrito (Ms. 8582, pg. 156, da BNP), ridicularizando o poeta Alvarenga Peixoto (1744?-1793), por este ter usado, num soneto, o verso: "Por mais que os alvos cornos curve a Lua". O soneto satírico, de autor desconhecido, é o seguinte:

Certo aldeão de Sintra se apeava
Do jumento, e a beber o conduzia;
Bebeu o burro, e à volta pretendia
Montar no dono, e nisto porfiava.

- Burro atrevido, - o aldeão gritava -
Donde te veio a ti tanta ousadia?
- Tenho alma como tu, e não sabia
Que espírito tão nobre me animava!

- Tu tens alma, ó burro? Mais preclaro
És entre os burros. - Não é como a tua,
Imortal, mas meu juízo é claro.

- Quem te deu pois ou te emprestou a sua?
- Quem foi? : aquele espírito tão raro
O grão Doutor que cornos deu à Lua. 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Tolentino, no 2º centenário da sua morte


Há muito que se deixaram de ler, nos liceus, as suas obras. Daí que talvez passe despercebido o 2º centenário da sua morte, em 23 de Junho de 1811. Pertence à família dos grandes poetas satíricos portugueses que vem das cantigas de maldizer e chega até O'Neill e Assis Pacheco. Dizia dele próprio: "...sou homem duro / E rebelde às leis primeiras..." Mas era também mestre-escola e um pouco pedinchão, em muitos dos seus versos, porque não conseguia resistir à tentação do jogo. E também gostava muito de música. Nicolau Tolentino de Almeida nascera em Lisboa, a 10 de Setembro de 1841. Costa e Silva descreve-o assim: "Era de estatura alta, cheio de corpo, rosto redondo, pelle clara e rosada, olhos pardos, nariz regular, bocca larga e engraçadíssima, dentes bellos, andar nobre e pausado."

para MR, pelo truque-dica que me ensinou para acrescentar as imagens...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Nicolau Tolentino



Há precisamente 270 anos, nascia em Lisboa, na Calçada de Santo André, Nicolau Tolentino de Almeida que veio a estudar, na juventude, na Universidade de Coimbra, e foi professor de Retórica. Mas foi sobretudo conhecido como poeta. Viria a falecer, solteiro, em 22 de Junho de 1811. Se escreveu "Não peço por ambição,/ Peço por necessidade...", provavelmente, as privações resultaram mais do vício do jogo - que tinha - do que da falta de emprego que sempre lhe proporcionou, em teoria, algum desafogo económico. A vida lisboeta do dia a dia entra na poesia pela sua mão. Os cafés, o bilhar, o jogo, as modas e os costumes sociais. Nesse aspecto, pese embora o registo quase sempre satírico e alguma pedinchice exagerada, Tolentino é bem mais inovador que Correia Garção e restantes árcades da época. Reproduzem-se dois sonetos e o frontespício da 1ª edição das suas obras (1801). Muito embora José Torres, em 1861, tenha feito editar, na Typographia de Castro & Irmão, um conjunto mais completo da obra de Nicolau Tolentino, com ilustrações muito interessantes de Nogueira da Silva.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Explicação dos passos - Bocherini

"...Se Márcia se bamboleia
neste inocente exercício,
se os quadris saracoteia,
quem sabe se traz cilício,
e porventura os meneia?..."
Nicolau Tolentino

sábado, 10 de julho de 2010

Deitando um cavalo à margem



É, de toda a obra de Nicolau Tolentino de Almeida (1722-1804), provavelmente, o poema (soneto XLVII) de que mais gosto. Mas, como muitas das coisas de que gostamos, não serei capaz de explicar porquê. Todavia isso também não é o mais importante mas, sim, aqui deixar o soneto.

Vai, mísero Cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento;

Esta sela, teu único ornamento,
Para sinal de minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento:

Morre em paz; que em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:

Aqui, piedoso entulho, os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno a não morrer de fome.


sexta-feira, 28 de maio de 2010

O'Neill, no seu melhor




Tive ocasião de, muito recentemente, ter tido acesso a um proémio de Alexandre O'Neill (1924-1986) às "Obras de Nicolau Tolentino de Almeida" (Estúdios Cor, Lisboa, 1968), em que ele, muito judiciosamente, diz o seguinte:
"...Pode acontecer que o poeta se desacerte ao abotoar-se, diga «perdão!» quando é pisado por vocês, faça uma declaração de amor a um marco do correio, não saiba ganhar a (vossa) vida... Pode acontecer. Mas acautelai-vos: o poeta é um distraído, terrivelmente atento. A sua distracção é pura economia. Apostado em caçar o essencial, o poeta resvala de olhos vagos pelo que já viu e reviu. Ele sabe que até morrer nunca mais terá tempo. Como quereis que perca o tempo que não tem - convosco? Ou melhor: com aquilo que, em vós, é mero ornato repetido até à náusea?..."

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mais um Poeta : João de Deus



Algarvio, João de Deus (1830-1896) foi um pouco, e à boa maneira portuguesa, antes de Guerra Junqueiro, uma espécie de Victor Hugo nacional, na devoção que o povo lhe consagrava. Teve honras de ser sepultado, até, no Panteão Nacional, tal era a popularidade e respeito que despertava. Era um homem bom. Por outro lado, quando jovem, teve nos estudos um percurso coimbrão errático de boémia, tendo levado 10 anos para se formar. O "Jornal de Notícias", pouco antes do Poeta falecer, definiu-o assim:"...João de Deus é uma das personificações mais belas do nosso carácter peninsular; vivo e indolente, devaneador e apaixonado, crente e sentimental..." E não só. Quem conhecer as "Cryptinas", sabe do que estou a falar...

Mas as suas obras mais emblemáticas e conhecidas foram, e são, a "Cartilha Maternal" ( um método criativo e inovador, na época, para aprender a ler) e "Campo de Flores", livro de versos muito simples e límpidos que, pela frescura e naturalidade, ainda hoje se podem ler com muito agrado. Como se tivessem sido escritos por alguém, entre um Tolentino e um Nobre, actualizados. Aqui vai um pequeno exemplo:

Arrecebo

Indo-se a casar um gebo,
Que era gago e não podia
Pronunciar bem: Recebo,
Gaguejava e só dizia:
Arre...Arre...cebo...cebo...

Alguém supõe que o dizia
Com intenção. Não percebo.

terça-feira, 2 de março de 2010

Animais de estimação literários 1



Todos os temos ou tivemos. Terrestres, aéreos ou aquáticos. Rastejantes, trotadores, cantantes, se não os temos, já os tivemos, pelo menos, na infância. E, se não foi ao vivo, pelo menos de peluche, andaram ao nosso colo, dormiram connosco, viveram parte das nossas aventuras imaginadas... O meu é o canário e o último que tive dava, pelo menos, um conto ou uma fábula.

O primeiro ofereceu-mo o meu tio Joaquim que tinha uma enorme criação de pássaros. E cantava lindamente, logo pela manhã, ao nascer do sol.

Dos literários, Eliot escolheu o(s) gato(s) ("Old Possum's Book of Practical Cats"), Cristovam Pavia fez uma belíssima e sentida elegia à morte do seu cão e Torga, que era caçador, devia ter, em particular estima, os cães, também. Nicolau Tolentino tem aquele soneto admirável intitulado "Deitando um cavalo à margem". Mas Juan Ramón Jimenez fez mais : universalizou o seu animal preferido em "Platero y yo". Aqui vai o início, para quem não saiba ou não se lembre da história desse burrito simpático.

"Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro. Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas... Chamo-o docemente: «Platero», e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal... Come o que lhe dou. Gosta de tangerinas, das uvas moscatéis, todas de âmbar, dos figos roxos, com a sua cristalina gotita de mel... É terno e mimoso como um menino, como uma menina...; mas forte e seco como de pedra."

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Salão de Recusados V: Gula/Fome





1.

A D.António, senhor de Cascais que tendo-lhe prometido seis galinhas...


Cinco galinhas e meia
Deve o senhor de Cascais;
E a meia vinha cheia
De apetite para mais.


Luis de Camões (1524?-1580)


.........................


2.

...Em tocando as duas horas,
Sabei que esta cara minha
Tem longos, ávidos olhos,
Fitos na vossa cozinha:...


Nicolau Tolentino (1740-1811)


.........................


3.

...Há colos, ombros, bocas, um semblante
Nas posições de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante
como de alguém que tudo aquilo jante
Surge um melão, que me lembrou um ventre...


Cesário Verde (1855-1886)


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Memória 5 : Alexandre O'Neill



No proximo dia 19 de Dezembro, Alexandre O'Neill (1924-1986) faria 85 anos. O seu espírito era demasiado jovem para vir a ter esta idade, embora, por vezes, "topeçasse de ternura"...

O'Neill pertence à linhagem dos trovadores das "Cantigas de Escarnho e Mal Dizer", era parente próximo de Tolentino e Jazente, e ascendente próximo de F. Assis Pacheco. Dele recordemos:


E tinh' razão


Anda, meu Silva, estuda-m'aleção
Vêsse-te instruz, rapaj, qu'ainstrução
É dosprito upão!
Ou querch ficar pra sempre inguenorantão?


Poin os olhos no Silva teu irmão.
Pensas talvês que não le custou, não?
Mas com'e qu'êl foi pdir aumentação
Au patrão?

E tinh'rrazão...