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quarta-feira, 23 de julho de 2025

Antologia 26

 

Se porventura eu tivesse de escolher apenas um filme dos que se seguiram à fase do neo-realismo cinematográfico italiano, não hesitaria em optar por Una Vita Difficile (1961), realizado exemplarmente por Dino Risi (1916-2008). Muito bem acompanhado pelos desempenhos de Alberto Sordi (1920-2003) e Lea Massari (1931-2025), artista discreta que trabalhou com os maiores realizadores italianos e franceses. E que eu acabo de saber que faleceu recentemente (23/6), em Roma.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Já não há prosas silvestres


As novas gerações, maioritariamente, abandonaram os campos, as vilas e aldeias. Dificilmente os jovens reconhecerão, hoje, o cheiro do estrume de cavalo ou saberão identificar, à vista ou pelo cantar, um rouxinol. Longe vai o tempo dos romances bucólicos de Júlio Dinis ou da tensa ironia rural da prosa camiliana, feita a transição adequada de Aquilino e depois do paroxismo ideológico dos neo-realistas, que também se mudaram para ficções citadinas, um pouco mais tarde. Ainda que alguns jovens artistas alternativos, agora, talvez por razões de sossego, poupança e marca distintiva de diferença, possam habitar Santiago do Cacém ou Ourique, Vila do Conde ou Bobadela, é de Nova Iorque, Veneza, Trieste ou Reiquiavique que eles gostam de falar, para se darem a ares de cosmopolitas e viajados. Mas também com os potenciais leitores se deve passar o mesmo. Embora seja sempre gratificante batermo-nos, rija e saudosamente, com as poesias e prosas límpidas e autênticas de um J. Riço Direitinho, agrónomo, ou de um Pires Cabral, transmontano, ainda vivos, que são talvez os últimos abencerragens desses cenários de ruralidade literária portuguesa de antanho, ainda que presente.
Mas aos novos, falta muitas vezes o nervo, as causas, a ossatura do real e até verdadeiros motivos para prosas maiores. Perdeu-se, entretanto, o cheiro das urbes, dos cafés fumarentos e linguarudos, da exiguidade das caves suburbanas que ainda povoam alguns dos romances de Cardoso Pires e Nuno de Bragança, por exemplo. E parece que nada se ganhou em troca. Até a poesia é etérea e voltou a ser domínio e obra de finos nefelibatas ou de obesas associadas das casas de Sta. Zita.
Desse abandono dos campos, em parte, se herdou também essa fogueira cíclica dos incêndios desmesurados no Interior português. E eu pergunto-me se algum destes novos prosadores seria capaz de ensaiar alguma novela de jeito com cenário sobre esse flagelo maior e real que, todos os anos, nos atinge nessas zonas rurais de quase total ermamento. Mas será isso deveras importante?
No plano intelectual é bem provável que não...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Os neo-realismos


Um artigo do TLS (nº 6044) sobre a edição, em meados dos anos 40/50 do século XX, de livros destinados à classe trabalhadora inglesa (que se aglomerava sobretudo em zonas de maior incidência industrial: Sheffield, Leeds, Liverpool...), fez-me duvidar da ideia pessoal, que tinha, de que o neo-realismo (literário e cinematográfico, pelo menos) se tinha limitado e proliferado, sobretudo, nos países latinos europeus, da América latina e dos Estados Unidos depois da Depressão de 1929. Uma coisa é certa porém: este tipo de literatura, hoje, dificilmente teria leitores, mesmo que os motivos fossem actualizados. A consciência de classe, do chamado proletariado, é presentemente muito branda e, com excepção minoritária, despolitizada e ideologimente neutra ou ignorante, do ponto de vista teórico. Isto faz com que possa ser capturada, facilmente, por qualquer tipo de populismos: em França, isto tem vindo a ser notório. Mas não só.
Na Inglaterra, e segundo o artigo do TLS, o interesse por esses livros começou a diminuir a partir do momento em que as classes trabalhadoras, tradicionalmente de homens brancos, começaram a ser invadidas por minorias: mulheres, negros, emigrantes. Para o articulista do TLS, esta teria sido uma das razões principais. Tenho grandes dúvidas sobre o facto.
Pessoalmente, considero datas mais marcantes, em Inglaterra, o ano de 1984, com a greve dos mineiros e o ano de 1989, do ponto de vista europeu, com a queda do muro de Berlim. Foi a partir daí que o neo-liberalismo e o capitalismo tomaram freio nos dentes, na minha perspectiva. E o proletariado se começou a descaracterizar como classe, talvez achando possível aceder a outros patamares, em que o consumismo, as revistas róseas e as raspadinhas eram alguns dos novos ópios do povo. Mais recentemente, a vacuidade das redes sociais com os seus temas rasteiros de lana caprina e a banalização paroquial uniformizada da comunicação social, fizeram outro tanto. O menino que cai ao poço, lá longe, ou a menina que desaparece, misteriosamente, são o entretém e as novas telenovelas.
Quem os vai trocar por Steinbeck ou pela leitura de Redol?
E não será decerto Jeremy Corbyn (1949) que conseguirá encarnar num novo angry young man, ainda que actualizado. Muito menos, a senhora May poderá assumir a assombração e o fantasma descarnado de Margaret Thatcher (1925-2013).
Como diria Manuel Bandeira (1886-1968): ..."Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino." Ou então, convocar Paulo Coelho, com a ajuda das artes mágicas de Harry Potter.

sábado, 16 de março de 2013

Neo-realismos, ontem e hoje


Há dias, na zona térrea das estantes (de livros mais baratos) do meu alfarrabista de referência, dei pelo livro "A Caminhada - Livro de Vivências" (Prelo, 1975), de Sidónio Muralha (1920-1982). O autor, nómada impenitente de 3 continentes, teve nome, nos anos 50/60 portugueses e já aqui falei dele ("Usura do tempo", em 14/11/2010), como poeta e escritor de sucesso de livros infantis bem interessantes. Mas a sua poesia (o livro acima citado é uma espécie de diário, com poesia intercalada) é, em excesso, datada, ortodoxamente neo-realista, ideologicamente estandardizada. Hoje, terá apenas interesse por motivos cronológicos de estudo de uma época. Os tiques neo-realistas são muito evidentes e perderam todo o interesse, com o tempo.
E dei-me a pensar que grande parte da poesia, que hoje se publica, enferma dos mesmos tiques, embora mais urbanos e cosmopolitas. É um novo neo-realismo post-moderno que pontifica e predomina. Muito agarrado ao tempo, ao real quotidiano citadino de ninharias, sem grande profundidade. Já Drummond dizia: "não faças poemas sobre acontecimentos...", e bem. Muita desta poesia actual sofre dos mesmos sintomas endémicos que sepultaram, no tempo, a poesia de Sidónio Muralha.