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sábado, 5 de abril de 2014

Retrospectiva na Tate Modern


Até 26 de Maio próximo, estará patente na Tate Modern (Londres), uma retrospectiva, com cerca de 200 obras, do artista plástico Richard Hamilton (1922-2011). A sua colagem emblemática intitulada Just what is that makes today's houses so different, so appealing (em imagem), de 1956, considerada a primeira obra Pop, integra a exposição.

Nota pessoal: de algum modo, este poste vem na sequência do anterior "Sobre Arte", com excertos da entrevista de Nathalie Heinich, também de hoje.

Sobre Arte


Os excertos, que traduzi do francês e irei transcrever, pertencem a uma entrevista que Nathalie Heinich (Marselha, 1955) concedeu ao "Obs." (nº 2577), a propósito do lançamento do seu recente livro "Le Paradigme de l'art contemporain" (Gallimard, 2014). A socióloga francesa e estudiosa de Arte, que tem um trabalho anterior, de referência, sobre a pintura de van Gogh, dá-nos a perceber, de forma simples mas evidente, algumas questões essenciais que estão ligadas à Arte, actualmente.
Não é difícil associar, quando ela refere "as várias dezenas de pessoas que realizam as suas obras", repito, associar e pensar, por exemplo, nas instalações da artista portuguesa Joana Vasconcelos; ou, quando fala do "simulacionismo", nos lembrarmos dos trabalhos do norte-americano Andy Wahrol.
Porque me parecem reflexões importantes e pertinentes sobre a Arte actual, julgo útil partilhá-las e fazê-las constar do arquivo do nosso Blogue. Seguem:

"Temos tendência a usar «arte moderna» e «arte contemporânea» como termos equivalentes, cuja única diferença seria cronológica. É um erro: há tantas diferenças entre a arte contemporânea e a arte moderna como aquelas que existem entre a arte moderna e a arte clássica. Cada uma distingue-se pelas regras de jogo implícitas, que formam aquilo que Thomas Kuhn chamava um «paradigma». Assim, a arte moderna baseia-se na transgressão das regras da figuração clássica (impressionismo, cubismo, surrealismo...). A arte contemporânea, essa, transgride a própria noção de obra de arte tal como ela é normalmente reconhecida. Por exemplo, a obra não será mais feita pela mão do artista mas fabricada por terceiros. O acto artístico não reside já na manufactura do objecto mas na sua concepção, no discurso que o acompanha, nas reacções que suscita... A obra pode ser efémera, evolutiva, biodegradável, blasfematória, indecente. Uma corrente surgida nos anos 80, o simulacionismo propunha até fazer desaparecer toda a ideia de originalidade, porque se tratava de reproduzir com maior exactidão obras já existentes. A arte contemporânea é uma invenção permanente dos modos de experimentar os limites ontológicos (a noção de obra) e morais (a maneira de ser artista). Donde as reacções que suscita."
"...Jeff Koons é um velho comerciante e veste-se com fatos completos e clássicos, contrastando com as calças já coçadas do artista boémio. Ele e Hirst não escondem que ganham muito dinheiro e que também gastam imenso. São empreendedores, com ateliês de várias dezenas de pessoas que realizam as suas obras, e tão depressa encontramos esses dois artistas nas páginas cor de rosa, como nas páginas de revistas culturais. As suas obras situam-se no cruzamento do sensacionalismo com a cultura popular: Hirst expõe uma vitela cortada em duas e conservada em formol, Koons fabrica peluches monumentais. Esta tendência corresponde à chegada ao mercado da arte de novos compradores ligados à financiarização da economia mundial (negociantes, burguesia dos países emergentes). Desde há uma quinzena de anos que se formou uma bolha artístico-financeira que fez com que algumas obras atingissem preços exorbitantes, o que repercute o próprio espírito dessas obras - o quitche, o cinismo, o espectacular. ..."
"... Na arte contemporânea, a personagem central é, com o crítico, o comissário da exposição, uma profissão relativamente recente. O comissário opera para um organismo público - museu, bienal, centro de arte - e as suas escolhas vão permitir que a cotação de um artista cresça exponencialmente." (...) "Os intermediários procuram promover artistas sempre mais jovens, e vêem-se artistas que tiveram desde cedo a sua hora de glória, regressar brutal e rapidamente ao anonimato. (...) Para alguns, a arte contemporânea é uma decepção desoladora e uma caricatura pungente dos caprichos mais pueris da época. Para outros, é, pelo contrário, um instrumento de reflexão fascinante e até mesmo uma catarse saudável e desejável. Quanto à minha opinião pessoal, ela é das mais banais: certas propostas da arte contemporânea parecem-me excelentes, outras, sem qualquer interesse. De resto, é uma das grandes características da arte contemporânea, que é a de obrigar a ter uma opinião, de ser provocadora de opinião. E, isto, é também apanágio da nossa época."