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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Pinacoteca Pessoal 149


Eu creio que o trabalho de ilustrador de livros terá que ser, maioritariamente, de pendor figurativo. Mais ainda se os desenhos se destinarem a um público infantil. Fatalmente, esses artistas não ocuparão uma primeira linha, na arte da Pintura e, muitas vezes, serão desvalorizados pelos estudiosos de Arte.
O conhecido e respeitado especialista de arte Kenneth Clark, por exemplo, subvalorizava a obra de gravador e ilustrador de  William Blake pelas pequenas dimensões das suas gravuras, para as obras de poesia que editou...
A menos que essa actividade de ilustração tenha sido secundária e uma pequena parte, acessória, da obra do artista - estou a lembrar-me de Botticelli e do seu trabalho para A Divina Comédia, de Dante.



O pintor e ilustrador norte-americano N. C. Wyeth (1882-1945) tinha isso em conta, quando disse: Painting and illustration cannot be mixed - one cannot merge from one into the other.
Isso, no entanto, não obstou, excepcionalmente, a que a sua obra não tenha vindo a integrar, com o tempo, alguns museus americanos e seja considerada, hoje, de grande qualidade, a par dos trabalhos do seu confrade e contemporâneo Norman Rockwell (1894-1978), que também ilustrou muitas obras literárias.


Wyeth colaborou na ilustração de mais de uma centena de livros, muitos deles sobre o Oeste americano como, por exemplo, O último dos moicanos, de James Fenimore Cooper. E eu gosto particularmente do poster Ore Wagon (1907), com um pormenor do condutor da diligência. Ou desta serena paisagem que, em 1934, N. C. Wyeth pintou sobre a zona marítima da Costa do Maine.
Ainda que conservador na execução dos seus trabalhos e pouco inovador, os seus quadros não deixam de ter um estilo e uma qualidade muito própria.

sábado, 3 de julho de 2010

Bibliofilia 21 : um Decameron americano



Nem sempre o valor por que pagamos um livro corresponde à importância ou estima que lhe temos. É o caso desta tradução de Boccaccio, feita nos Estados Unidos, por Richard Aldington e, belamente, ilustrada (32 gravuras) por Rockwell Kent. É a segunda edição, de 1949; a primeira data de 1930. Foi publicada, em Nova Iorque, pela Garden City Books/ Doubleday & Company
O livro custou-me, em finais dos anos 70, Esc. 400$00, ou seja, cerca de euros 2,00. Adquiri-o no Algueirão (Linha de Sintra), a um alfarrabista já avançado em anos, que tinha um pequena livraria próximo da estação da CP. O homem era muito bissexto: abria quando abria (aos sábados) e fechava quando lhe apetecia. Muitas vezes fiz caminhadas em vão, porque batia com o nariz na porta, frequentemente. Notava-se que o dono da livraria era doente, tinha voz de falsete e a coluna retorcida. Andava também com dificuldade, num passo zig-zagueante, apoiando-se a uma pequena bengala. Mas o recheio da loja era muito heterógeneo e comprei lá coisas bem interessantes, como as "Lettres de Madame de Sévigné", em 6 volumes, de 1843, editadas em Paris, em edição numerada; ou esta tradução de Boccaccio, com gravuras maravilhosas. Na Abebooks encontrei 3 livros iguais ao meu: dois, na Sam Weller's Zion Library (£8,13/ 12,54), e outro, também de 1949, na E. Lubbe Books, à venda por £11,52. Pela beleza do meu exemplar, diria que estes preços não me parecem excessivos.