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domingo, 19 de outubro de 2014

Notas de Leitura VIII: "Un été avec Montaigne" - Antoine Compagnon




“As pessoas estariam estendidas na praia ou então saboreando um aperitivo, preparando-se para almoçar e ouviriam falar de Montaigne [1533-1592] na rádio”. Esta a proposta de Phillipe Val que Antoine Compagnon aceitou: quarenta palestras radiofónicas, transmitidas semanalmente na estação France Inter, no Verão de 2012, que estão na origem de Un été avec Montaigne, um livro de 170 páginas, com um grafismo de capa provocatoriamente estival e que, segundo refere o Nouvel Observateur, em Abril de 2014, já vendera 150 000 exemplares.

Questionado sobre o êxito, porventura, inesperado do livro, Antoine Compagnon sublinhou, nestes termos, a hipótese de uma afinidade entre a sensibilidade histórica contemporânea e a da segunda metade do século XVI: “Tal como nós Montaigne está preso a uma contradição, ele já não acredita na infalibilidade das tradições, mas duvida da possibilidade de melhorar a condição humana. Se a modernidade se define pela crença no progresso, Montaigne o pré-moderno e nós os pós-modernos temos em comum o facto de não partilharmos dessa crença”.

A resposta de Compagnon traduz, afinal, o conhecimento de quem tendo dialogado com o pensamento de Montaigne nele reconhece essoutra dimensão do ócio, o momento em que Michel Eyquem se apropriou da sua liberdade e nos tornou testemunhas disso, o momento em que ao “recitar” o seu próprio retrato nos dá a ver os contornos da condição humana, promovendo a remédio para a angústia e para a preguiça a tarefa de conhecer-se.

Grosso de corpo, embora fino de espírito, indolente mas ávido de acção e de liberdade, arguto, embora um tanto permeável à sedução do inverosímil. Todavia, no todo, um carácter bem temperado do sentido da medida e do sol da amizade: um homem que sofreu estoicamente as dores dos seus cálculos renais, que desprezava a mentira e os tiranos, que não suportava a ideia da tortura, mas que soube integrar, com notável talento retórico, a inevitabilidade da morte nas disposições imprescritíveis da natureza.


Este o perfil do Senhor de Montaigne, filósofo acidental, que o livro de Antoine Compagnon vai deduzindo da leitura dos Essais e, sobretudo, resgatando ao oceano das interpretações eruditas que lhe foram descarnando o pensamento: “Uma imagem diz da sua relação com o mundo: a da equitação, do cavalo sobre o qual o cavaleiro mantém o seu equilíbrio, o seu assento precário. Assento esta a palavra dita. O mundo move-se, eu movo-me: sou eu que tenho de encontrar o meu assento no mundo”.

Dir-se-ia, então, que o pensamento de Montaigne se estrutura não em torno da ideia do que somos mas em torno de ideia do que vamos sendo no assento precário da vida, uma espécie de sublime aditamento àquilo em que nos vamos tornando, já que a nossa visão do mundo se vai alterando, se vai aditando, em função do tempo, do lugar e da acuidade do olhar, que é simultaneamente subtileza e detalhe, largura e perspectiva, pois a imagem do homem, a imagem do ser, enquanto “ponto-fixo” é apenas um arquétipo de que sucessivas e esforçadas investidas se aproximam mas não alcançam.


Por isso, os Essais de Montaigne fundamentam um outro olhar sobre a realidade ou, se quisermos, sobre a dependência do homem de carne e osso da sua própria circunstância, que se traduz ora pelo absurdo, ora pelo derrisório, ora pela enorme fragilidade das suas tranquilas e inquestionadas certezas.

Das três respostas que os índios do Brasil, apresentados em Rouen, em 1562, à curiosidade do rei Carlos IX, então com doze anos de idade, deram, perante a Corte, quando questionados sobre o que de mais admirável teriam visto no Velho Mundo do século XVI, diz-nos Montaigne ter retido apenas duas, lamentando ter-se esquecido da terceira.

A primeira das respostas daqueles ilustres “selvagens” sublinhava a estranheza de tantos grandes homens, barbados e armados, que rodeavam o rei menino, se sujeitarem a obedecer a uma criança em vez de escolherem, de entre eles, um para os comandar.

A segunda das observações relatadas por Montaigne relacionava-se com o facto, para eles escandaloso, de uns homens viverem cheios de fartura e rodeados de conforto, enquanto outros, seus semelhantes, mendigarem à sua porta cheios de fome e de pobreza e de, apesar disso, esses injustiçados, não lhes apertarem o pescoço nem lhes incendiarem as casas.

Quanto à terceira das respostas daquelas perspicazes criaturas, a tal que Montaigne lamenta ter esquecido, Antoine Compagnon que, por assim dizer, também ensaia na margem dos Essais, coloca a hipótese dessa suposta resposta se relacionar com um aspecto sobre o qual Montaigne nunca arriscou pronunciar-se: a transubstanciação, ou seja, sobre a mudança da substância do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo, no momento da consagração e a sua presença real na eucaristia; diferendo maior entre católicos e protestantes, pretexto e motivo das guerras de religião, no meio das quais o tempo e a circunstância o fizeram viver.

Deste modo, através de uma estratégia que as Lettres Persanes, de Montesquieu, tornarão familiar, mais de um século depois, Michel de Montaigne sublinha o valor da liberdade, perante o absurdo da servidão voluntária, ancorada na irracionalidade do direito divino, o escândalo da pobreza e da desigualdade entre os homens e, considerando a hipótese de Antoine Compagnon sobre a resposta que Montaigne diz ter esquecido – embora subtil e perspicazmente tenha considerado que “somos cristãos do mesmo modo que somos do Périgord ou alemães” e que “apenas a fé incendeia vivamente as certezas dos grandes mistérios da nossa religião” – a crítica ao carácter fratricida dos fundamentalismos da fé.

Eis-nos, portanto, perante as linhas-mestras do pensamento de Montaigne, perante as raízes do seu cepticismo, que a razão acrescenta e o talento desdobra em múltiplas perspectivas, pois o pensamento de Michel Eyquem não aspira a constituir-se como uma visão unitária do mundo e dos homens mas, pelo contrário, a sublinhar na diversidade dos detalhes o seu carácter indeterminável, contraditório e fragmentário, que só através da viagem e do olhar (desde o assento instável da sua sela, num exercício continuado do prazer de cavalgar), da leitura e da meditação, se compreendem e de facto se humanizam.


Avulta, pois, neste retrato renovado e, porventura, renovador de Montaigne, que Antoine Compagnon nos oferece, a sua admirável fábrica de pensar, o seu processo sui generis que, partindo da glosa crítica do pensamento alheio o incorpora, se robustece no detalhe e vai construindo, como quem viaja, em torno de si, de dentro para fora, uma análise metódica mas assistemática da sua própria natureza; um pensamento quase nómada que se toma a si próprio como matriz e como roteiro daquilo que de indeciso e de contraditório existe na natureza humana. Um pensamento livre, um rasgo de serenidade, como se, despido o aparato da teologia, a verdade sorrisse e alcançasse a simplicidade de um saber profundo: “É uma absoluta perfeição, e como que divina, o saber fruir lealmente do seu ser […]. As mais belas vidas são em meu entender, aquelas que se conformam com ordem ao modelo comum e humano; mas sem milagre, mas sem extravagância”.

 Assim, o fio de cepticismo que atravessa os Essais é, na perspectiva de Antoine Compagnon, a chave que faz de Michel Eyquem um quase contemporâneo: tal como nós também Montaigne viveu um tempo de interregno das certezas e de remissão da verdade e a sua lição estará, porventura, no modo como soube transformar em argumento o ornamento da dúvida, como soube trocar as voltas ao domicílio da angústia e reencontrar os limites do humano, arredando o talvez grande medo da morte com uma singular afirmação dos fundamentos da vida: “Quero […] que a morte me encontre a plantar as minhas couves”. Um epicurista quase tranquilo – diríamos – que pedagogicamente nos mostra como o ócio de bem fruir a dádiva da vida se pode transformar no verdadeiro negócio de viver.               

Post de HN.

 O Arpose congratula-se e acolhe, com cordial júbilo, mais uma reflexão de leitura de H.N. Que muito agradece.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Notas de Leitura VII: "Malentendu à Moscou" - Simone de Beauvoir



“Ele não lhe dissera tudo aquilo que lhe tinha passado pela cabeça naqueles dias. E ela talvez tivesse guardado para si própria algumas pequenas coisas. Não tinha importância. Tinham-se reencontrado. Ele faria perguntas, ela responderia. Porque é que te sentiste velha?,  perguntou-lhe ele”.
Mais do que a história de uma crise conjugal e identitária, ultrapassada in fine, como refere Éliane Lecarme – Tabone, no prefácio, aquilo que neste final de Malentendu à Moscou se evidencia é a consciência da efemeridade da vida e do estreitamento do tempo, que transformam o nó da intolerância e do desprendimento, quiçá o proprium do envelhecimento, num outro degrau do afecto: a imprescindibilidade do outro, quando o horizonte da vida se rarefaz e o futuro se desenha em jardim do esquecimento.
Ler Malentendu à Moscou é, pois, como desatar os sucessivos nós das primícias do envelhecimento: a íntima degradação do corpo, o medo de ficar só, a proximidade do vórtice da vida.
A viagem à União Soviética, em 1966, de Nicole e de André, dois professores franceses, sexagenários e recém-reformados em visita a Macha, filha de André, casada com um arqueólogo russo, e residente em Moscovo constitui, para ambos, sem que inequivocamente o assumam, uma forma de prolongamento do início dessa nova etapa das suas vidas: a da velhice, agora atestada socialmente pela condição de reformados.
Dando a ver, ao longo das suas vinte quatro sequências narrativas, a perspectiva de cada um dos protagonistas, que são como que as camadas dos múltiplos afectos e das múltiplas decepções que envolvem o núcleo duro do existir em comum, a novela de Simone de Beauvoir introduz-nos, à maneira de uma sequência de fotogramas da vida a acontecer, numa espécie de ensaio de filosofia da inquietude.
Escrita em 1966, aos 58 anos – portanto, quase sexagenária como a personagem de Nicole – com o propósito de ser incluída na colectânea La Femme Rompue, a novela acabou por ser substituída por outro texto (L’Âge de discrétion), que utiliza várias sequências de Malentendu à Moscou, embora expurgadas do seu enquadramento geográfico e político. No entanto, esta novela, que surgiu em 2013 numa edição autónoma, foi publicada pela primeira vez, já depois de morte de Simone de Beauvoir, na revista Roman 20-50, em 1992.


Com evidentes ressonâncias autobiográficas e um fio de subtil ironia, que remetem para as viagens da própria Simone de Beauvoir e de Jean-Paul Sartre a Moscovo e em que, como também refere Éliane Lecarme-Tabone, a personagem de Macha acolhe traços de Léna Zonina, a amiga russa de Sartre, Malentendu à Moscou evoca um tempo de intenso debate político e ideológico, em que os ecos do conflito sino-soviético se misturam com a desilusão de um comunismo que definitivamente se burocratiza em anacronismos e filas de espera e em que o calor da vodka gelada e o cinzento aveludado do caviar – que a generosidade das divisas estrangeiras podia pagar – não chegam para tapar a brecha da dúvida por onde se insinua o vazio da desilusão: “Sim o seu mal-estar tinha um nome, um nome de que ele não gostava mas que era obrigado a empregar: decepção. Ele detestava, de um modo geral, os viajantes que ao regressarem da China, de Cuba, da URSS ou mesmo dos EUA, diziam: ”Fiquei decepcionado”. Eles tinham errado ao construírem a priori ideias que depois os factos desmentiam: o erro era deles e não da realidade. Mas afinal era qualquer coisa de análogo que ele próprio experimentava. Talvez tivesse sido diferente se tivesse visitado as terras virgens da Sibéria, as cidades onde trabalhavam os sábios. Mas em Moscovo e em Leninegrado não tinha encontrado aquilo de que estava à espera. Mas ele esperava exactamente o quê? Era vago. Em todo o caso não o tinha encontrado. [Quando se é]  jovem e se tem, pela frente, uma ilusória eternidade salta-se facilmente de um lado para o outro da estrada; mais tarde já não temos forças para ultrapassar o que se diz serem os falsos custos da história e achamo-los terrivelmente elevados. Ele tinha contado com a história para justificar a sua vida; agora já não contava com ela.


É talvez o momento em que o saber da convicção cai no poço da realidade, o momento em que sub-repticiamente o vértice da vida se vai transformando em turbilhão e a ideia de futuro regride até à insignificância do próprio corpo e à sua irremediável condição biológica, o momento em que se rompe com o conforto da inocência e se percebe como é mais necessário o afecto que nos segura do que a convicção que dolorosamente nos escapa.
Em rigor, dir-se-ia que André e Nicole não foram enganados pela vida mas sim surpreendidos pela errada percepção da sua ilusória solidez, pela inconsistência e plasticidade dos seres e das coisas; ao contrário de Macha, a filha que André se esquecera de ver crescer (e que, agora, aos olhos de Nicole, era o verdadeiro motivo do conflito, porque lhe disputava o amor e as atenções de André), tanto ele como Nicole chegaram, paradoxalmente, imaturos ao termo da maturidade, exactamente por não terem percebido que a maturidade é tão só o lastro de inocência e de negação que se vai transformando em generosa ambiguidade no decurso dos inevitáveis conflitos de viver, porque, na verdade, aquilo que, de facto, queremos da vida é, afinal, sempre outra coisa: ”antes já existiam sinais. No espelho, nas fotografias, a sua imagem perdera frescura mas ela ainda se reconhecia nela. Quando falava com os seus amigos, eles eram os homens e ela sentia-se uma mulher. Mas depois, aquele rapaz desconhecido – tão belo – chegou com André; apertou-lhe a mão com uma amabilidade distraída e qualquer coisa ruiu. Para ela, ele era um macho jovem e atraente; para ele ela era tão assexuada quanto uma velha de oitenta anos. Nicole nunca mais se esqueceu desse olhar; ela tinha deixado de coincidir com o seu corpo; era um despojo estranho, uma máscara dolorosa. Talvez essa metamorfose tivesse durado mais tempo, mas na sua memória resumia-se nesta imagem: dois olhos de veludo que se desviavam com indiferença.
Reflexão sobre uma crise de identidade de dois protagonistas no limiar do envelhecimento que, por assim dizer, transpõe o perímetro da filosofia para um espaço mais amplo e mais ambíguo onde o testemunho e o pensamento, bem mais do que a imaginação, se ajustam à ideia de ficção, Malentendu à Moscou traz para a escrita a narrativa da decadência do corpo, da voragem das certezas, da fragilidade da relação com o outro, do cansaço da realidade e da angústia dos afectos; daquilo que fica da espuma dos dias e que constitui, afinal, para o concreto dos seres, a raiz do sofrimento.
Daí que os aspectos mais interessantes desta novela, porventura menor, de Simone de Beauvoir, agora retirada da usura do tempo, sejam, por um lado, a forma como as marcas de uma época histórica e ideologicamente determinada ainda hoje se revelam não como meros fragmentos desgarrados de uma paisagem devoluta mas como esteios críticos da autenticidade de um tempo de compromisso e de desilusão e, por outro, a serenidade e o distanciamento irónico de um texto que, alicerçado na verdade possível de uma autoficção, é capaz de mostrar como no vulgar desdobramento dos dias se faz e se desfaz essa interminável adolescência do ser, permanentemente repartido entre o medo da verdade e a vontade irreprimível de lhe dizer não.

Post de HN

Nota pessoal: o Arpose acolhe, com grato reconhecimento,  mais uma Nota de Leitura (como sempre, atenta) de H. N..
APS



           

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Notas de Leitura V: "Propos", de Alain



“Jeannot era um artilheiro sem medo, que conhecia até ao mais pequeno detalhe tudo o que se pode aprender das formas, das cores e dos ruídos. Quase iletrado; lia penosamente e só aprendeu a escrever nos finais do ano catorze. Cabouqueiro de profissão e orgulhoso como são quase sempre os cavalheiros da pá, que não vivem propriamente para bajular; e ainda para mais respondão, não se esquecendo nunca de reclamar os seus direitos. Todavia, nos momentos difíceis, silencioso, calmo e pronto, adivinhando a ordem e enxotando o medo apenas pela sua presença. De resto sabendo fazer de tudo na perfeição; tirava do buraco de um canhão cheio de água lenços brancos como neve que dir-se-iam passados a ferro. Como impedido venceu a escravatura militar em tempo de paz por força desse género de talento. Mas, em tempo de guerra, Jeannot jogava um jogo mais nobre. Tive muitas vezes a oportunidade de observar aquela fronte (…) arquitectural (…); o género de fronte que não suporta o desprezo (…).
Perito experiente do terreno, das baterias inimigas e do tiro, conhecendo as boas e as más horas como os bons e os maus caminhos, Jeannot era o mais seguro companheiro para as surtidas de infantaria que são a prova do artilheiro. Nessas missões o homem de engenho está necessariamente submetido ao homem de decisão e de expediente, sejam quais forem as respectivas patentes. O nosso Jeannot tinha essa decisão e essa economia de movimentos que pareciam afastar o perigo e que na realidade afastavam os perigos imaginários. Daí a amizade de um dia para o outro e uma real igualdade entre o artilheiro de rústico falar e o chefe timorato. Em consequência Jeannot recebia uma cruz, regava-se com água-de-colónia, engraxava as botas e olhava o chefe com um orgulho desafiador (…).Mas (…), passado o perigo, a glória não durava muito e Jeannot voltava aos trabalhos de rotina e sentia novamente o peso da administração militar que esmaga os talentos, sobrepõe obrigações a obrigações e acolhe duramente aqueles que reclamam. Nem todos os dias há a oportunidade de ir buscar uma sopa atravessando mil perigos, de resgatar um ferido de um qualquer abrigo bombardeado ou de apagar um fogo junto ao paiol das munições. Após semanas de perseguições, de meditação e de resmungo consigo mesmo, o artilheiro Jeannot (…) pedia a passagem para a infantaria.
Era colocar a vida em jogo, mas era também a oportunidade de ficar por cima, de ser escutado; aquela cabeça orgulhosa não exigia menos.
Por muito desprezado que seja o homem de tropa nesse regime de despotismo oriental, esse homem pode sempre afrontar os seus superiores desde que seja capaz de ultrapassar o medo; e é por essa via que aqueles de quem se diz serem fracas cabeças acabam muitas vezes como heróis. Diz-se frequentemente que um chefe deve o seu poder ao facto de nunca se mostrar inferior àquele em quem manda; eu, por mim, anotei um outro efeito do poder despótico, que nunca tinha previsto, o facto de o subordinado orgulhoso querer ser pelo menos superior nalguma coisa e de quase sempre o conseguir (…).
Entretanto ia observando Jeannot que continuava a travar as suas batalhas e alcançava a vitória unicamente pela sua coragem. Mas onde estava o inimigo que era preciso vencer? Muito próximo, era o seu comandante. Jeannot combatia pela liberdade como diziam os jornais, mas não como eles a entendiam”.


Não é de Jeannot o olhar que desde o retrato nos olha com a certeza do mal- estar do corpo, atolado na água e na lama de uma trincheira da frente da guerra de catorze, e de que de tudo o resto sobra a dúvida. Do homem, do olhar, do porquê do gesto e do quase desafio do sorriso ficam hoje, como porventura ficaram ontem, as razões por saber, mesmo que o próprio as dissesse de viva voz, pois é sempre grande o abismo que separa aquilo que, de facto, um homem é e sente e aquilo que a sua circunstância permite traduzir, e de que talvez só o corpo guarde concreta memória.
Mas é a partir de pedaços da realidade como este que os propos de Alain alcançam a nitidez de um positivismo quase solar, de quem persegue o lado incómodo e difícil de pensar, não o pensamento “subalterno” e “politécnico” mas o pensamento encharcado nos fios esconsos da vida, em conflito aberto com as suficiências do lugar-comum e que vai iluminando o proprium do Homem: a dignidade, o sofrimento e o saber de ofício, distinguindo sempre a sujeição de quem obedece do acto livre de quem respeita.
Iniciada em 1906 no jornal La Dépêche de Rouen et  Normandie, a escrita dos  propos nasce e constitui-se, como refere o próprio Alain, (pseudónimo de Émile Chartier, 1858-1951), no espaço livre de duas páginas que são a sua medida, uma medida em que o texto se desdobra e se afeiçoa como o dos poetas perante a medida de estrofe. Por um lado, a obrigação diária de escrever, numa espécie de corrida a galope que terminava dia a dia por mais um texto fechado (ritmo que perdurou até à guerra de 1914, em que Alain participou como artilheiro), por outro a regra jornalística que impunha ao escrito os constrangimentos próprios do verso acabaram por ditar a forma fragmentária a que chamou propos, na qual, por assim dizer, é o sentido do texto e não o seu pretexto, isto é, a pedagogia do acto de pensar sobre as coisas e não a coisa pensada aquilo que verdadeiramente se oferece ao leitor, no espaço contido de uma espécie de poema sumário em que, sob o chapéu de uma metáfora ampla – algures a meio caminho entre a dispersão egocêntrica de Montaigne e a síntese provocatória de Valéry – filosofia e literatura se confundem.
Alinhadas como que “seguindo o curso do tempo e os movimentos do pensamento”, as cerca de seis centenas de textos que constituem esta edição dos Propos (La Pléiade, 1956), da responsabilidade de Maurice Savin, com prefácio de André Maurois (e que cobre o período compreendido entre 1906 e 1936) assemelham-se hoje a uma escolha de posts de persistente blog onde se recortam a acção e o perfil do cidadão e professor Émile Chartier e do filósofo Alain. E embora tratando-se de pouco mais de 10% da totalidade dos propos (que serão ao todo cerca de 5000), mesmo assim a escolha de M. Savin permite-nos desfrutar do essencial de um pensamento em acto, de uma espécie de estaleiro da razão, de conversa continuada, sempre transbordando da certeza para a dúvida, em estado de deliberada imperfeição.
E é no decurso dessa conversa com o leitor que os propos se transformam no lugar onde se interrogam as aparências, se duvida das evidências, se massacram os lugares-comuns e se reconduz a filosofia ao valor primeiro de uma ética, em que Descartes e Pascal são, de algum modo, as traves-mestras de um olhar perscrutador sobre os múltiplos recantos do corpo e da vida, e em que os ecos de Montaigne e de Balzac se reconhecem, quer pela forma como o pretexto se expande num exercício aditivo e continuado de pensar, quer pelo modo como, à maneira de Balzac, o detalhe se vai revelando como reflexo do todo e a palavra reencontra no “bom juízo (que) é a alma da moral”, para lá dos fatalismos razoáveis, o homem livre, senhor do sentido e da ordem das coisas e sempre capaz de dizer não, como mais tarde sublinhará Camus.


Pode, portanto, dizer-se que é pelo radical sentido da liberdade e do exercício da razão que na obra de Alain, nomeadamente nos seus propos, se desenha e se revela o fio da sua modernidade. Considerados no seu alinhamento cronológico, que são afinal os propos senão fragmentos de uma indagação incessante sobre as múltiplas facetas da realidade humana, sempre refractária, na sua aparência caótica, a toda a ideia de sistema e em que ao luzir da certeza se segue a sombra da dúvida, que não é outra coisa senão a responsabilidade de ser livre e de perguntar, como essa dúvida fosse a forma irónica de libertar a realidade dos atavios do mistério e do conforto das ideias feitas.
“Quando uma criança grita e não quer ser consolada, a ama faz muitas vezes engenhosas suposições acerca daquele jovem carácter e daquilo que lhe agrada e lhe desagrada; chegando mesmo a convocar a hereditariedade em seu socorro, reconhecendo até o pai naquele filho; esses ensaios de psicologia prolongam-se até que a ama descobre no alfinete a causa real de tudo (…).
Os males do ano de catorze vieram, conforme creio, do facto de os homens importantes terem sido surpreendidos; e daí terem tido medo. Quando um homem tem medo, a cólera não anda longe; a irritação segue-se à excitação. Não é uma coisa agradável um homem ser bruscamente privado do seu ócio e do seu repouso; muitas vezes modifica-se e modifica-se muito. Como um homem acordado de repente; acorda demais. Mas não digais nunca que os homens são maus; não digais nunca que eles têm um tal carácter. Procurai o alfinete.”
Embora contendo, como todos os escritos, as marcas de um tempo extinto, que são os nódulos, quiçá salutares, do próprio envelhecimento, reconhece-se nos propos o apelo de uma irreverência bem medida, sobretudo na maneira como, colocando-se do lado oposto do panfleto, prossegue uma indagação sempre próxima das coisas e longe da abstracção fácil dos sistemas, revelando no seu lastro de realismo, sempre rente ao corpo e por vezes surpreendendo-se com o formato da própria humanidade, a necessidade de obedecer, para que “a regra (que) é a verdade do homem” subsista, mas que ao mesmo tempo celebra com apurada ironia, o direito à resistência surda e ao irrespeito militante pela vã glória de mandar.
Filosofia para não filósofos, ou talvez não; para ler com o vagar e a tenacidade de um pescador de águas profundas.         

Post de H. N.  

Nota: O Arpose acolhe honrosamente, e com satisfação amiga, mais uma leitura atenta de H. N. - que muito lhe agradecemos. 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Notas de Leitura IV: Jacob Rodrigues Pereira




A estela e o medalhão existentes na Praça Jacob Rodrigues Pereira, em Peniche, pressupõem-no nascido nas Berlengas, mas o primeiro reeducador de crianças surdas e mudas em França, que sempre se afirmou português, nasceu de facto em Espanha, na aldeia de Berlanga, em 1715 e morreu em Paris em 1780, sem que conste ter estado alguma vez em Portugal.
Jacob Rodrigues Pereira – Homem de bem, judeu português do séc. XVIII, primeiro reeducador de crianças surdas e mudas em França, estudo biográfico de Emílio Eduardo Guerra Salgueiro, editado em 2010, pela Fundação Calouste Gulbenkian, proporciona ao leitor, através da profusa documentação que o integra, não apenas o conhecimento das várias facetas da vida e da actividade daquele judeu português, mas também uma visão aprofundada acerca da condição dos judeus em Portugal, e em Espanha, no século XVIII, sobre o “modus operandi” dos inquisidores e sobre o comportamento das vítimas: as suas fraquezas, os seus actos de delação, o sofrimento, a iniquidade das acusações, a perversidade das penas.
Para tal, a obra de Emílio Salgueiro remonta, de facto, a 13 de Abril de 1699, quando “um grupo de quarenta e oito portugueses, na maioria de Trás-os-Montes, embarca em Lisboa no barco genovês N. Srª de la Coronada (...) com destino ao porto de Livorno, em Itália”, naquilo a que poderíamos chamar uma fuga para a dignidade.


Conquanto o biografado, já nascido em Espanha, não tenha vivido o período mais negro da vida dos seus pais, e que se seguiu à prisão destes, pela Inquisição, em Cádis, as informações e os documentos, patentes nesta obra, e que nos dão conta quer das ‘memórias’ apresentadas à Academia Real das Ciências de Paris, quer dos registos notariais com que procurou comprovar e atestar o método de reeducação que desenvolveu, quer a forma como preparou a apresentação do seu aluno Azy d’Étavigny na corte de Luís XV, bem como os seus projectos de construção de uma máquina aritmética, de um engenho que suprisse a acção do vento nas grandes embarcações, em situações de calmaria, de um dicionário das 13 principais línguas da Europa e, também, da sua intensa actividade diplomática, na qualidade de “agente das nações portuguesas”, isto é , de representante das comunidades de judeus portugueses em França, e que culminou com a aquisição de um terreno destinado a cemitério dos judeus portugueses em Paris, traduzem, para além de óbvia tenacidade de Jacob Rodrigues Pereira, a sua condição de homem do Iluminismo: o seu pragmatismo, o seu racionalismo, a forma como construía as soluções a partir da análise objectiva e rigorosa dos problemas e como procurava, em todas as situações, controlar os factores de incerteza, prevenir a desconfiança e a herança do preconceito.
Assim, as linhas que vão emergindo da obra de Emílio Salgueiro correspondem, dir-se-ia, ao retrato comovido de um português em que se materializou o espírito das Luzes e a marca do bem comum, bem como uma ideia de biografia em que História e circunstância mutuamente se elucidam.
Nesta perspectiva, são particularmente significativas, para além das comunicações do próprio Jacob à Academia Real das Ciências, o relatório elaborado pela comissão de sábios encarregada pela Academia de examinar e de avaliar os resultados obtidos com o método que desenvolveu, os textos publicados, entre outros, no Mercure de France, no Journal de Savants e no Journal de Verdun, a carta enviada pelo irmão de Jacob, à mãe, então a residir em Bordéus, descrevendo, em pormenor, a audiência concedida por Luís XV e o sucesso de Jacob ao apresentar perante o rei de França e a corte os resultados do seu método, na pessoa do seu aluno Azy d’Étavigny, a referência de Buffon, na sua História Natural, ao método de ensino de surdos-mudos desenvolvido pelo português e o reconhecimento régio, consumado em 1750, com a atribuição de uma pensão de 800 libras.


A par de uma minuciosa investigação historiográfica e seguindo, entre outros, os trabalhos de E. Séguin e de E. La Rochelle, sobre a vida e a actividade de Jacob Rodrigues Pereira, a obra de Emílio Salgueiro dá-nos a ver, por entre rivalidades, controvérsia e contestação, apogeu e declínio, o retrato intelectual de alguém que se afirmou pelo mérito, de alguém para quem o conhecimento procede da razão, da observação e da experiência e está na raiz da autonomia do ser humano, de alguém que se pode filiar numa vertente de pensamento livre e de racionalismo, que a tradição judaica também comporta, e que terá em Espinosa, porventura, o seu mais relevante exemplo.
“Séguin afirma que o Jacob conseguia ensinar a falar aos surdos e mudos por ter descoberto a lei da identidade das percepções sensoriais, o que designaríamos hoje, talvez, como a descoberta das sinestesias na construção dos mapas tanto do mundo exterior, como do mundo interior. E prossegue Séguin, dizendo que Jacob não acreditava que a palavra estivesse inteiramente contida na articulação, procurando, por isso, cultivar nos seus alunos a voz humana e natural, ao ponto de lhes transmitir o seu próprio sotaque estrangeiro (...). Ensinava a articulação pela vista, pelo tacto, pela memória dos movimentos dactilológicos, a voz humana pela percepção táctil das vibrações sonoras, a entoação pelo gesto e o sotaque pela medida”.
Como se vê aquilo que Jacob Rodrigues Pereira pretendia era que os seus alunos descobrissem por si próprios, através da observação e pela experiência da interacção com os outros (pela expressão, pelo movimento dos lábios, pelo gesto) uma certa  inteligibilidade do mundo, um sentido das palavras que está para além do seu referente. E é, por assim dizer, essa dimensão ‘oculta’, inexplicável e, porventura, inata, da aptidão humana para a palavra, que o método de Jacob Rodrigues Pereira torna evidente e que o depoimento de Saboureux de Fontenay, aluno de Jacob, numa carta datada de 1764, sublinha: “Do mesmo modo como uma criança aprende o francês, M. Pereire dedicara-se em primeiro lugar a dar-me a inteligência das palavras de uso diário e as frases mais vulgares (...). Achando que eu já estava suficientemente a par dos diálogos de uso diário, evitou gesticular à minha frente, ao mesmo tempo que me falava pelos dedos com o alfabeto à espanhola, que tinha aumentado e aperfeiçoado: a finalidade era acostumar-me melhor à linguagem e fazer-me perder o hábito de falar através de sinais à minha maneira; exercitar-me melhor a perceber as frases familiares, aprontar-me a executar todo o tipo de coisas, de acordo com o sentido que tomasse no meu espírito a linguagem que tivessem usado para exprimir o que pretendiam de mim; responder sozinho às perguntas fáceis e às difíceis, pensar por mim próprio”.
Partindo de uma detalhada observação da realidade, que o leva a distinguir diferentes graus de surdez nos seus alunos, Jacob Rodrigues Pereira aperfeiçoa o seu método adaptando-o às características de cada aluno ou, melhor dizendo, às possibilidades de aprendizagem de cada um. E, nessa medida, poderemos, talvez, dizer que o sucesso do seu método depende mais da capacidade do mestre do que, porventura, das potencialidades do aluno, pois como sugerem as palavras de Emílio Salgueiro, referindo Renée Neher-Berheim, o ‘segredo’ do método de ensino de Jacob parece residir “(n)o modo e (n)a intensidade com que se ligava aos seus alunos a quem tratava como pessoas completas, a excelente relação afectiva que com eles conseguia criar, propiciadora de um aprendizado entusiasmado das técnicas de desmutização e de um crescimento moral e cívico”.
Consciente de que algo mais do que o meramente mecânico e o meramente instrumental intervêm no acesso à palavra, algo que só a convocação da inteligência, da memória e dos restantes sentidos seria capaz de completar, o método de Jacob Rodrigues Pereira procura, apoiando-se numa certa pragmática da comunicação, incitar os alunos a tirarem partido de todas as vertentes expressivas da natureza humana, de forma a suprirem a carência do ouvido; dir-se-ia querer estimular em cada aluno a capacidade de mobilizar, pela vontade, a plasticidade da própria inteligência e fazê-lo descobrir desse modo ignoradas capacidades, susceptíveis de o resgatar de uma suposta fatalidade divina.
Falamos de uma perspectiva de aperfeiçoamento humano à maneira do Iluminismo, de uma atitude que não pretendia salvar a alma dos surdos-mudos (até então, diga-se, escondidos como fruto de um pecado, como expiação de uma culpa sem motivo) mas tão só devolver-lhes, como nos casos de Aaron de Beaumarin, de Saboureux de Fontenay, de Azy d’ Étavigny e de Marie Maurois, um outro sentido da vida, para além dos sinais à maneira de cada um, permitir-lhes conquistar, pelo acesso à palavra falada, a autonomia, a dignidade social e uma outra inserção no mundo, que só pela fala e pelo entendimento da palavra própria e alheia, porventura, se alcança.


E talvez por tudo isto se explique a circunstância de Jacob Rodrigues Pereira se ter também empenhado, a par da sua acção como representante dos judeus portugueses em França e da actividade de reeducação de crianças surdas-mudas, no desenvolvimento de outros projectos científicos, pois essas actividades, por assim dizer, de contraponto, traduzem claramente, por um lado, o pendor científico da sua personalidade intelectual e, por outro, a ideia de pertença ao ambiente moral e intelectual de um tempo em que o saber deixa de ser apenas invocado, para passar a ser também escrutinado e demonstrado na sua dimensão de eficácia social: um contexto histórico em que os ideais de progresso e de liberdade humana começam a despertar e a fazer o seu caminho.
O facto de ter conseguido demonstrar que, apesar das limitações próprias e óbvias era possível transformar um surdo-mudo num surdo falante, e que é, por certo, a sua mais importante e fecunda herança, a vida e a acção de Jacob Rodrigues Pereira, revelam-se-nos, nesta obra de Emílio Salgueiro, através de um nítido paralelismo entre a condição dos judeus e a condição dos surdos-mudos na Europa na segunda metade do século XVIII, e o propósito de um homem de bem de os querer resgatar, a judeus e surdos-mudos, dos atavismos da injustiça, da tutela do preconceito, do sofrimento sem motivo e da tenaz da indignidade.

Post de H. N.
Nota: O ARPOSE agradece, cordialmente, a H. N. mais esta atenta leitura. 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Notas de Leitura II : Almeida Mattos - "A Ilusão do Breve"


Mais do que o artifício de um diálogo inexistente, é a memória, o labor da sintaxe e a geometria de um lúcido sabor barroco aquilo que concretamente designa esta recolha de poemas de António de Almeida Mattos: uma espécie de ofício do depois, quando passado o latejar do sangue a ternura se promove a êxtase do entretanto:
"Há uma urgência de ti que me procura
ao mais pequeno ensejo inusitada.
E em todo o lugar é sempre altura
de acender a luz à madrugada."
Falamos de uma escrita de ressonâncias antigas, presa à exactidão do desejo e ao apetite dos sentidos, mas sempre sabiamente expurgada do feio e do banal; uma poesia atenta à densidade das sílabas, quase táctil e rente à voz, como se a mão escrevesse o próprio sentir dizendo.
Micropaisagem de afectos, A Ilusão do Breve encerra os recursos próprios da ternura, o húmido da pele e o irregular frémito da vida, como se do rigor das palavras, contidas na linearidade interrompida dos versos, surgisse, em vez de música, uma citação de silêncio a tornar mais límpido o vibrato de uma requintada poesia de amor tardio:
"De tudo quanto nada acontecido
fica na luz difusa quase luar
-seria nos teus olhos que nascia-
do que não sendo fosse bom ter sido
breve que seja o tempo a conjugar.
Como se ao velho sonho de menino
alguém trouxera a lua pra brincar."

Dir-se-ia que a poesia escuta - ou é como se escutasse - a intimidade que se acolhe sob a nitidez das sílabas e daí nascesse uma linguagem, ciciada, onomatopaica quase, murmúrio em forma de carícia, que cresce por dentro do dizer, como se do respirar dos versos se fruísse "pêlo a pêlo" a cartografia precária do instante e que, depois de consumado o acto, o silêncio se transformasse, não em tristeza mas em memória de saberes complexos da periferia do corpo e em ritmos com sabor a frutos de outono.
Espelho em que o amador a si mesmo se revê, A Ilusão do Breve torna o leitor cúmplice do seu próprio dizer e faz do instante uma porção de eternidade, que exorciza a certeza da finitude e rasga, a toda a largura da escrita, uma janela de luz de onde se pode sorrir para o nada, cavalgando de carícia em carícia "o liso sobressalto do desejo".
post de H. N.

P. S. : grato reconhecimento a H. N., por mais esta "leitura" atenta.


sábado, 2 de abril de 2011

Notas de Leitura I: Camus - "O Primeiro Homem"

O silêncio sobre a guerra da Argélia atravessa o texto em surdina: um eco de explosões e de brutalidade corta o bafo do sol mediterrânico e o peso da noite africana fechando-se rápida; na escrita de O Primeiro Homem desenha-se uma linha de melancolia e de ressonâncias bíblicas de que só a verdade é capaz.

O retrato difuso de um pai desconhecido, reinventado na figura do professor primário, por um protagonista simultaneamente criança, adolescente e adulto; a mãe que a pretexto de não ouvir traduzia o amor num olhar de silêncio com cristais de alheamento; o tio, surdo, que transformava o afecto em gestos; a avó que fazia do instinto de sobrevivência uma forma de sabedoria: recordações quase secas de passado, tenacidade e pobreza.

Por isso, mais do que a imagem improvável de Henry Cormery, morto em 1914 na batalha do Marne, Jacques Cormery quis, afinal, construir a sua própria memória, expurgando-a dos confortos da ilusão.

Os fios da realidade, que o tecido frágil da ficção não oculta, revelam-nos também, por força da incompletude e da intrínseca imperfeição desta derradeira narrativa de Camus, não apenas a oficina do escritor, a simplicidade dos seus materiais, a sua recorrência, mas, sobretudo, o modo como o fluxo da escrita confere a esses materiais simples a profundidade e o excesso próprios da vida, que se abre e se desenrola entre a chaga flor.

Quase não há análise psicológica em O Primeiro Homem, apenas registos de comportamento, e a diferença de Camus, o seu desajustamento relativamente ao ar do tempo, a frescura desta narrativa - que, recorde-se, foi encontrada na sua pasta, aquando do acidente que o vitimou em 4 de Janeiro de 1960 - está, porventura, nesse silêncio e nessa reserva, no reconhecimento da impenetrável obscuridade da natureza humana, oscilando entre o afecto e a indiferença, entre a crueldade e a compaixão, entre a contenção e a revolta. E é exactamente no sublinhar dessa estranheza, dessa dimensão algo bipolar no homem e na natureza, dessa alternância de luz e de sombra, que se encontra o melhor deste texto de Camus: uma forma de religiosidade sem crença, de generosidade laica, de amor sem objecto, que nasce da ânsia de viver e se alarga a uma espécie de fraternidade cósmica.


A pobreza é a circunstância, a condição “que não se escolhe mas que pode guardar-se”. E é no modo de encarar a pobreza, enquanto “fábrica de heroísmos mudos para a história” e onde nasce “a vergonha de ter vergonha” que O Primeiro Homem nos dá a ver, mais em forma de discurso do que em forma de romance – pois de que serviria contar a história da pobreza que não se escolhe e não dizer, de viva voz, com a veemência das palavras, o modo como a pobreza se guarda - , a maneira como, apesar do filtro burguês da educação, o pudor da coragem e o orgulho de ser capaz bastam para que o homem regresse sempre, sem trair, aos fundamentos da sua circunstância e aí reencontre, entre o rigor e a poesia, como sístole e diástole, o pulsar certo do coração da vida.

Tudo como se a virtude da pobreza tocasse a raiz de uma outra forma de aristocracia e alcançasse o luxo do despojamento sem a ganância da posse, num estado de acomodação da revolta transformada em destreza física, inteligência e emoção. Eis o retrato de Jacques Cormery e, porque não, do próprio Albert Camus.

Pela forma como excede o tecido da ficção e testemunha uma visão do mundo, por vezes incómoda nos seus silêncios, mas que cinge a condição humana na sua realidade mais profunda, em que o escrever e o pensar se conjugam e se confundem no vigor de um mesmo acto e na intimidade de um mesmo gesto, O Primeiro Homem escapa, por assim dizer, às demasias do tempo. Dir-se-ia que uma certa nudez ilumina, sem a querer explicar, a obscuridade que nos torna íntimos de nós e confere a este texto de Camus o eco de um registo clássico, uma espécie de triunfo da imperfeição, ao surpreender, nas marcas da sua incompletude, o momento em que, como diria René Char, “a lucidez é a ferida mais próxima do sol”.
Post de H.N.

PS: um agradecimento efusivo, embora discreto, a H.N. pela sua colaboração privilegiada, no Arpose.