A manhã estava fosca, embora fresca, as ruas quase vazias, e pouco passava das 10, quando entrei no Museu do Chiado - devo ter sido o primeiro visitante. Patibular a entrada, com uma amostra esquisita de pequenos quadros por uma parede alta, tão alta que os de cima mal se podiam ver e apreciar. É certo que consegui distinguir um minúsculo Souza-Cardozo, Tagarro, um Botelho lisboeta, um Eduardo Viana, nas alturas, e não mais...Alguma coisa mexia, ao fundo, na Loja do Museu, mas guardei-me para o final, e lá fui subindo as escadas. Algumas cabeças e bustos de Hein Semke, Macedo e Barata-Feyo, interessantes.
Mas foi um início decepcionante pelas salas cinzentas. Muita obra de terceira ordem (anos 50/ 2000) e de discutível qualidade artística. Até um quadro de Paula Rego, pouco significativo, um António Sena, banal. Dois ou três vídeos muito pobres, algumas fotografias corriqueiras, se excluir um Tabarra, marcante. Nikias, Pomar, Chorão, José de Guimarães, Vieira da Silva: não vi nenhum. Gostei, no entanto, de um Ângelo de Sousa, da primeira fase, a preto e branco. Nenhum Resende. Ficaram-me na memória dois auto-retratos (como sempre, tema obsessivo e megalómano) de Molder e uma instalação de Ana Pérez-Quiroga, em travessas de porcelana, com o dístico reiterado: "Odeio ser gorda".
Quando já não sabia para onde seguir, perguntei a uma Vigilante: "- Onde é que posso ver Columbano?" Respondeu-me, melancólica: "Agora, já encerrou; só fazemos exposições temporárias..." Quer dizer, eu já tinha visto tudo o que havia para ver, que era muito pouco e a roçar a indigência. O resto do acervo estava guardado. Ou fechado. Isto, no mês das festas de Lisboa e no princípio da época turística. E a Loja do Museu não tinha atendimento - estava, simplesmente, encerrada. Dirigi-me para a saída, descorçoado e pessimista.
Na porta, cruzei-me com um casal francês e apeteceu-me dizer-lhes: "- Não entrem no MNAC, vão antes ao MNAA, nas Janelas Verdes!" Mas, por vergonha patriótica, calei-me e fui tomar um café à Bénard, para desanuviar.
Será que o nosso comissário da Cultura assiste a isto, gordo e sereno? Ou não terá conhecimento, porventura, desta indigência artística a meio gás?