Mostrar mensagens com a etiqueta Museu Soares dos Reis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Museu Soares dos Reis. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Pinacoteca Pessoal 195

 

Por vezes uma obra ou duas bastam para se reconhecer um artista, ou fazer a sua glória. A Clepsydra (1920), de Camilo Pessanha (1867-1926), sagrou a sua eternidade como poeta. Ou o(1892), de António Nobre (1867-1900). Mas também alguns pintores são de imediato identificados por um ou outro quadro, caso de Leonardo da Vinci pela Mona Lisa ou pela Última Ceia.



Para mim, as Casas de Malakoff (Paris,1923), que integram o acervo do Museu Soares dos Reis, no Porto, são o ex-libris identificador de Dordio Gomes (1890-1976) ou, pelo menos, o quadro de que eu mais gosto. Embora não saiba muito bem porquê. Para além da sábia orquestração dos volumes que o pintor soube representar na tela.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Relógios biológicos?


Sabermos, exacta e previamente, a data da nossa morte seria decerto uma tragédia prática, embora talvez pudesse ser útil para arrumarmos a nossa vida de forma conveniente. E para nos despedirmos e acertarmos contas definitivas com todos aqueles que merecessem a nossa estima e afecto. Por outro lado, essa previsão do fim iria perturbar, profundamente, a nossa forma natural de viver esses últimos dias. E introduzir um desespero e ansiedade acrescida na nossa rotina de vida.
Surpreendo-me, muitas vezes, extraordinariamente por ver a enorme herança que alguns artistas deixaram apesar da sua curta vida. Mozart, Schubert, Rimbaud, Van Gogh, são bons exemplos dessa afirmação. Portugueses, Nobre e Cesário, Soares dos Reis e Henrique Pousão, certificam de qualidade maior esse exercício notável de viver.
Como se todos eles possuíssem, íntimo, interior, um relógio biológico inconsciente que os obrigasse e apressasse a dizer ou fazer, nesses exíguos anos de vida, tudo aquilo que, de melhor, tinham para escrever, fazer ou pintar se, porventura, viessem a ter uma longa vida ou, pelo menos, de duração média e normal.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A queda do anjo


Um desastrado turista brasileiro, em busca de um melhor ângulo fotográfico, no MNAA, ontem, ao recuar fez cair uma preciosa escultura do séc. XVIII, representando S. Miguel. Sendo de madeira, policromada, embora bastante danificada pode vir a ser recuperada, mediante um restauro competente.
Assisti a uma situação parecida, era criança, no Museu Soares dos Reis (Porto), pelos anos cinquenta do século passado. Um rapaz turbulento e buliçoso, em correria desenfreada, deitou abaixo, partindo, o braço direito de Ismael, da bela escultura de  Augusto Santo (1868-1907). Felizmente, era a cópia de gesso...
Na altura, ficaram com o nome dos pais da criança, que não sei se vieram a pagar o restauro. Seria moralizador e um bom exemplo, que o adulto brasuca viesse a pagar o estrago que causou, para aprender a saber andar pelos museus, com mais atenção...


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Umas tabuinhas pintadas



Chove sobre os álamos, sobre os salgueiros e chorões do Porto. Chove sobre os limoeiros dos quintais pequenos, e os relvados rebrilham de verdes perlados nas gotas de chuva miudinha. Derrama-se a melancolia pelo granito das casas, como o olhar do "Desterrado" desce pelo mármore branco e despido do seu corpo, que voltei, ontem, a ver, fascinado. Com o "D. Sebastião", em Lagos, de Cutileiro, esta escultura, tão física, de Soares dos Reis (1847-1889), no museu homónimo do Porto, são, para mim, as duas grandes esculturas portuguesas: o sonho perdido e a melancolia.
Mas também trocava quase tudo por duas ou três tabuinhas pintadas por Henrique Pousão (1857-1884), que estavam em duas vitrines horizontais do Museu Soares dos Reis. O vermelho, o azul mediterrânico da luz e o branco esfacelado e sujo das paredes de Capri, que Pousão, amorosamente, retratou na sua última estadia (1882-83) na ilha. As tabuinhas são pouco maiores do que um postal, mas não são turísticas. Foram tocadas de graça e beleza. Mas também de uma suave melancolia, como são quase todas as despedidas.
Chove na manhã do Porto. Sobre os álamos, sobre o granito e os limoeiros. Sobre os pássaros furtivos que teimam em cantar, obstinados, numa obrigação que é o seu destino...