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sábado, 16 de março de 2024

Pinacoteca Pessoal 201

 

É um quadro a óleo pintado em madeira de carvalho, por Pieter Bruegel (1525?-1569), o Velho, que se encontra bem integrado no acervo do harmonioso e exemplar Museu Mayer van den Bergh, em Antuérpia. Numa visão desatenta, a figura central (Margot la folle) pode quase passar despercebida. E a obra é dificil de datar (1563?), embora seja do século XVI, pela sua autoria comprovada.



A personagem, figura popular ou folclórica do imaginário da cidade flamenga, à frente de um grupo de mulheres, prepara-se para saquear o Inferno, segundo a história local e lendária. O que não deixa de ser uma interpretação deveras curiosa...

sábado, 18 de maio de 2013

Os pequenos museus


A apreensão ou capacidade atenta para admirar obras-primas é, humanamente, limitada. Em tempo e na fruição do prazer estético. E a memória desses encontros de fascínio, se numerosos em sincronia, transforma-se - para usar palavras de E. M. Cioran - num "assassinato por entusiasmo". Daí que eu tenha uma preferência acentuada pelos museus de pequena dimensão espacial.
Visitar, como eu visitei, em 1963, o Museu do Louvre, em passo de corrida, em pouco mais de 4 horas, é um exercício que não recomendo a ninguém. Embora tenha passado quase 20 minutos à volta da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Mesmo o Prado, cuja qualidade estética geral é inferior, terá que ser visitado faseadamente, no tempo, para se apreciar devidamente.
Por isso, neste Dia Mundial dos Museus, eu gostaria de relembrar, uma vez mais, o discreto e maneirinho Museu Mayer van der Bergh, em Antuérpia. Com um acervo equilibrado e homogéneo, fruto do gosto pessoal de Fritz Mayer van der Bergh (1858-1901), cuja mãe, após a morte prematura do filho, fez instalar em casa própria construida para o efeito, e de raiz.
E faço esse exercício de admiração e recordação, através da imagem do quadro de Juan de Flandres (1465?-1519?) intitulado "A vingança de Herodíades", pintado por volta de 1496. E que integra o Museu.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Adagiário CXXI : bruegheliana (12, e última)


Último dos pratos de madeira, e talvez o mais brejeiro, dos pintados por Pieter Brueghel, a legenda, em neerlandês (ou flamengo), regista: Tegen de maan pissen. E, nas correspondentes várias, traz as seguintes equivalências:
- Pisser contre la lune (francês).
- Den Mond löschen (alemão).
- To «shoot» the moon (inglês).
As versões alemã e inglesa, traduzidas para português, dariam qualquer coisa como: atingir ou apagar a lua. A francesa é bem mais crua e reproduz a legenda original: urinar contra a lua.
Em qualquer dos casos, para mim, a interpretação mais provável seria: levar a cabo uma tarefa inglória, ou condenada ao insucesso. E, a mais, não chego. Mas seria essa a intenção da metáfora pintada por Brueghel? É o que, em bom rigor, nunca saberemos, ao certo...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Adagiário CXIX : bruegheliana (11)


Penúltimo dos doze pratos de madeira pintados por Brueghel, esta ilustração também não será  de fácil interpretação. O homem de avental deita, ao que parece, de um cesto vindimeiro, um líquido com detritos para um enorme buraco quase cheio - por aqui, não se irá muito longe...
O ditado, legenda ou expressão popular flamenga regista: De put dempen als het kalf verdronken is. Qualquer coisa como, literalmente: Fechar o estábulo quando os bois (cavalos?) já estão fora.
Eu arriscaria como correspondente, em português: Depois de casa assaltada, sete trancas à porta. O busílis é saber, concretamente, o que é que o homem estaria a fazer, na ideia de Brueghel.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Adagiário CXVIII : bruegheliano (10)


O prato de madeira, pintado por Pieter Brueghel, tem a seguinte legenda flamenga: Zich onder een blauwe huik verbergen. Correspondente, em português, mais ou menos a: esconder-se sob uma capa azul - quase literalmente. A minha interpretação leva-me a pensar que quereria dizer: disfarçar-se um lobo em forma de cordeiro, para alcançar melhor os seus objectivos. Será? Não consigo melhor...

Actualização de 25/1/13: por amável sugestão de AVP, aqui vai a interpretação dele (que me parece credível e bem sólida) - "Quem tem capa, sempre escapa". O ditado português tem ainda outra versão com aditamento: "...e quem tem gabão, escapará ou não". Aqui fica, com agradecimentos a AVP.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Adagiário CXVII : bruegheliano (9)


Por sugestão, que me parece avisada, de HMJ, a legenda flamenga (Niet kunnen ligden dat de zon in 't water schijnt) deste prato de madeira, decorado por Pieter Brueghel, o Velho, poderia ter equivalência, em português, à expressão : "Tapar o sol com uma peneira". Parece-me apropriada à ilustração, pelo menos.
Embora o Museu Mayer van den Bergh (Antuérpia) dê pistas, através da língua inglesa (To be like the dog in the manger) e do francês (Être comme le chien du jardinier) que, não sendo o mesmo, se aproximam do significado de fazer uma coisa de forma pouco apropriada. Creio que não andaremos longe da antiga expressão flamenga, nem da intenção pictórica de Brueghel.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Adagiário CXV : bruegheliano (8)


Começou o busilis porque, a descriptagem deste e dos próximos anexins, só por especulação a posso fazer. Não há correspondência muito directa com ditados portugueses, neste prato de madeira ilustrado por Brueghel. A legenda flamenga regista: Achter het net vissen. Qualquer coisa como: Chegar demasiado tarde. A imagem reproduz um pescador com uma pequena rede sobre uma superfície aquática que parece ir desaparecendo, enquanto há uma outra rede (de arrasto?), maior, que, provavelmente pescou tudo o que havia de peixe, para pescar... Faz-me lembrar os pescadores espanhóis, na costa algarvia, que limpam tudo na sua pesca de arrasto (deficientemente fiscalizados pelas autoridades portuguesas), deixando pouquíssimo peixe para a anacrónica e fraca frota pesqueira nacional.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Adagiário CXIV : bruegheliano (7)


Consta da inscrição flamenga: De huik naar de wind hangen. Qualquer coisa  como: Pôr a capa contra o vento. Que, no meu modesto entender, poderá significar: fazer uma coisa de forma errada. A mais não chego. De qualquer forma, estas pinturas de Brueghel, sobre pratos de madeira, têm algum humor, sempre.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Pinacoteca Pessoal 42 : Guilliam Gabron


Raras vezes uma Natureza Morta, em pintura, colhe a minha admiração, de forma especial. Há, no entanto, algumas excepções, como esta obra de Guilliam Gabron (1619-1678), que pertence ao Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia. Os dados sobre este pintor flamengo (?) são escassíssimos, para lá das datas de nascimento e morte. O quadro terá sido executado nos últimos anos de vida do artista e denuncia uma técnica depurada e sóbria, nos escuros predominantes e nos brilhos de metais, contrastando com a claridade que habita, normalmente, as telas do seu contemporâneo Cornelis Mahu (1613-1689) que tem temas e um estilo semelhantes. As obras de Guilliam Gabron são, habitualmente, muito disputadas e atingem preços altos em leilões internacionais.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

3 escolhas pessoais de 2012



Já aqui no Arpose falei do agrado que tive, em 2012, em visitar três mostras de Arte, de indiscutível beleza estética. Uma, é permanente, e as outras duas são temporárias. A primeira na cidade belga de Antuérpia, a segunda, em Colónia, e a última, em Lisboa. Vou lembrá-las, para quem, porventura, as queira ver:
- A exposição, no Museu Gulbenkian, "The Ages of the Sea", que encerra a 27/1/2013.
- A mostra de David Hockney, na cidade alemã de Colónia. Fecha a 3/2/13, mas deverá itenerar para o Guggenheim, de Bilbau.
- Em Antuérpia, o maravilhoso Museu Mayer van der Bergh que alberga uma média colecção particular, que vai da Arte Sacra à pintura flamenga, iluminura, estatuária e livros. A casa, onde se encontra este precioso acervo, foi construída de raiz, no início do séc. XX, e, por isso, a inclusão das obras é adequada e perfeita. A monografia sobre o Museu, cuja capa representa uma imagem, em nogueira, de Cristo e S. João, do séc. XIII, foi executado pelo Mestre Heinrich de Constância.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Adagiário CXI : bruegheliano (5)


Aqui fica a quinta escolha que fiz, dos 12 pratos de madeira com expressões populares, pintados por Brueghel. O adágio não será muito claro, hoje em dia: "Sentar-se (ou, cair) entre duas cadeiras" (Tussen twee stoelen in de as zitten). Na minha leitura, ou interpretação (discutível), adaptar-se-ia a pessoas que não se decidem; que, entre o sim e o não, preferem dizer: nim... Ou que são excessivamente diplomáticas e, por isso, evitam tomar partido, entre 2 opções.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Adagiário CX : com Brueghel


Mais de 4 séculos passados, sobre estes ditados ou expressões populares, com que Brueghel ilustrou os 12 pratos de madeira, alguns deles perderam talvez pertinência e actualidade. Outros, ainda, são já de difícil interpretação. Não será o caso deste, que seleccionamos para hoje e nos diz: "Levar numa mão o fogo,  noutra mão a água" (In de ene hand vuur, in de andere water dragen). Que, no meu entender, significa que devemos usar de prudência nas nossas acções ou caminhos que tomarmos.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Pinacoteca Pessoal 41 : Joachim Beuckelaer


A pintura colheu-me de surpresa, imediatamente, integrada que estava numa sala com obras renascentistas, porque me parecia relativamente moderna, e destoava, bastante, do conjunto. Pelo seu realismo, um amador como eu, poderia situá-la quase no séc. XX.
Mas a pintura de Joachim Beuckelaer (1530?-1574?), sobre madeira de carvalho, terá sido executada em 1565, pelo pintor flamengo. Intitula-se "A vendedora das quatro estações" e integra-se num conjunto de obras com temas de mercados e cozinha, com uma nova perspectiva sobre a Natureza Morta, que não terá tido muitos cultores na Renascença. Mas Beuckelaer, nascido provavelmente em Antuérpia, é um executante exemplar.
O quadro poderá ser visto e apreciado no Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia, na sua singularidade própria, que me cativou de forma inesquecível.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Adagiário CIX : Brueghel, de novo


Da mesma proveniência, mais um prato de madeira pintado por Brueghel. Poderia talvez ilustrar a forma e vontade com que nos levantámos, à segunda-feira, para ir trabalhar. Não será o caso, no entanto, porque a legenda é apenas, em português, qualquer coisa como: "Dar com a cabeça nas paredes". Ou reproduzindo, em flamengo e no original: Met het hoofd tegen de muur lopen.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Marcadores (5)


Estes dois marcadores de livros vieram de Antuérpia, mais precisamente, do Museu Mayer van den Bergh. E têm por motivo a obra de Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), um dos meus pintores de eleição. Representam, da esquerda para a direita, respectivamente, Sta. Catarina de Alexandria e Sta. Bárbara.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Adagiário CVIII : para JAD e MR


Mais um provérbio flamengo, sugestivamente, ilustrado num prato de madeira, por Brueghel, o Velho, e que se conserva no Museu van der Bergh, de Antuérpia. O anexim diz, mais ou menos: A bebida e o jogo dão cabo do bom nome e levam à miséria. Ou, em flamengo: Drank en spel leiden tot armoede en slechte naam.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Adagiário CVII : Brueghel, o Velho


Brueghel (1525?-1569) dedicou particular atenção aos provérbios flamengos, que o inspiraram para a execução de algumas obras notáveis. Decorou, por exemplo, 12 pratos de madeira, de uso corrente, com ditados populares, que se encontram, hoje, no acervo do Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia. Mostra-se um deles, que personifica o adágio flamengo: Rozen voor de zwijnen werpen. O equivalente, em português, a : "Dar pérolas a porcos".