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terça-feira, 13 de dezembro de 2022

A inocência das criancinhas



Há dias, um daqueles vários desmiolados e fala-baratos animadores (malatos & companhia) dos programas pimbas dos 3 canais generalistas, que acompanham as manhãs e tardes dos solitários domésticos, dizia:
Todas as criancinhas são boas!
Sempre tive uma enorme dificuldade em aceitar esta generalização da virtude, ainda que pueril, sobretudo quando é proclamada por adultos tolos.
Amigo meu de infância lembrava-me, numa sua crónica recente publicada num semanário regional, as alcunhas, muitas vezes desapiedadas, que inventávamos para crismar os nossos colegas de escola e liceu. Era o José Emílio que ficou o Rata, pelo seu nariz que mais parecia um focinho de fuínha, o Cicatrícula pela ruga vincada da bochecha direita, o Barrumas, o Xiramaneco...
Mais cruel porém eram as partidas que pregávamos ao nosso colega Adélio, boníssimo e inocente jovem, filho da Saleira, senhora de meia idade, educada, que se dedicava à venda de sal, na rua Escura. em Guimarães.
O Adélio via muito mal, daí usar uns óculos de lentes garrafais, por detrás dos quais, os olhos dele pareciam choramingar constantemente, e lhe ser distribuída, logo no princípio do ano lectivo, uma carteira na primeira fila da sala de aula, ao canto, apesar da sua altura gigantesca, para ele poder ler as letras no quadro preto.
O Torcato, que era o mau da fita, muitas vezes lhe soprava: Adélio! e o filho da Saleira, lá se voltava, na sua ingenuidade, para trás, para o ouvir sempre pronunciar, invariavelmente, o verbo: Chora!
Por isso, não me voltem a dizer que todas as criancinhas são aureoladas de virtude.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Símbolos, dissimulações, necessidades...


Aí pelos anos 70 do século passado, e na empresa multinacional onde eu trabalhava, havia um pequeno jornal interno, mensal, onde, entre outras coisas publicadas, era costume fazer breves entrevistas aos colaboradores. As pequenas conversas davam, também, direito a fotografia. Desses retratos, que recordo, bem à vontade a grande maioria dos entrevistados aparecia a falar ao telefone (fixo). Creio que pretendiam (ou pretendia-se) dar a ideia que eram funcionários muito activos, sempre ocupados, diligentes no seu trabalho diário. Hoje, o telefone terá dado lugar, seguramente, ao emblemático computador pessoal, nas fotografias...
A acolher, como rigorosa, uma informação, que li recentemente, um sexto da humanidade é míope; e, entre os que lêem e/ou utilizam computador, o número sobe para cerca de 24% dos seres humanos - considerável, a miopia!
Os óculos, que atenuam esta debilidade humana, são uma invenção recente, se compararmos os anos com a idade do Mundo. Terão surgido, apenas, no século XIII, em Itália, pela primeira vez - o seu inventor é desconhecido, embora se aventem várias hipóteses. A primeira pintura em que aparecem óculos, usados pelo cardeal Hugo de Saint Cher, surge no ano de 1352, num quadro do pintor Tommaso da Modena (1326-1397).
Por curiosidade, posso informar, com alguma garantia de rigor, que o primeiro artista, neste caso poeta, a aparecer retratado com óculos, terá sido Quevedo, num quadro de Juan van der Hamen (1596-1631), que dizem ser cópia de um outro de Velásquez, anterior. Não sei se esse adereço útil acrescentava, ao grande poeta castelhano, um halo simbólico de sabedoria, ou se provocava, na altura, estranheza ou exotismo, nos observadores. Seria talvez, pelo menos, um sinal de distinção e singularidade. Não teria, com certeza, a mesma carga simbólica, do omnipresente cachimbo nas fotografias de grande parte dos intelectuais do passado século XX. Nem sequer o volume e importância objectiva do telefone e do computador, em anos recentes, para sublinhar a hiper-actividade simulada dos colaboradores, numa empresa de sucesso, destas, portuguesas.