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segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Osmose 141

 

A recente panteonização lisboeta de Eça de Queiroz, que deixou a sua Emília de Castro Pamplona (Resende) em Santa Cruz do Douro, sozinha lá no norte, fez-me ir de memória até à Póvoa de Varzim e, mais concretamente, até à Praça do Almada, onde o escritor está perpetuado em estátua.



Como em quase tudo (livros, terras, pessoas...) a memória retém apenas alguns fragmentos, frases, por vezes, cenas ou episódios mais impressivos, rasurando o resto, talvez por insignificante. Ora, para quem vinha da rua da Junqueira e passava ao lado do extinto Hotel Universal, que um tio meu tinha explorado nos anos 30 do século XX, ia desembocar, obrigatoriamente, na bonita Praça do Almada, onde se situava a Câmara Municipal.



Mas o Largo poveiro tinha outros encantos para mim. Logo à esquerda havia um ferro-velho que eu frequentava e onde, pelos anos 60, afortunadamente comprei um pequeno Cristo (séc. XVIII?) de madeira, já sem pernas, por Esc. 7$50 e que, depois, foi emoldurado e exposto na parede, em fundo de tecido fino.
Quase por trás da estátua de Eça de Queiroz, existia uma camisaria que, heterodoxa, também vendia selos de colecção e onde adquiri a série nova, completa, comemorativa de Luís de Camões (1924) a bom preço.



Mas talvez a cereja em cima do bolo tenha sido a compra do livro de contos Bichos, de Miguel Torga (1907-1995), na terceira edição de 1943, por Esc. 15$00, numa tipografia modesta da Praça do Almada que, para além de impressos, se dedicava a fazer encadernações e a vender livros usados.
Ora este meu regresso ao passado permitiu-me, também, fazer uma correcção aos meus conhecimentos. Sempre pensara que este Almada patronímico se referia a um dos conjurados da restauração de 1640. Mas não, celebra, sim, o corregedor Francisco de Almada e Mendonça (1757-1804), figura administrava que teve grande importância no progresso da Póvoa de Varzim.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Osmose 138

 

As perspectivas de quem vê ou aprecia estão pré-definidas, não no objecto, mas no sujeito.
Seja uma colina, um livro, um quadro, o observador traz já consigo as condicionantes próprias.
Calhou acidentalmente eu ler, com pouco intervalo de tempo, apreciações de duas pessoas sobre o Diário de Miguel Torga (1907-1995). Luiz Pacheco e o embaixador Marcello Mathias, se não têm opiniões opostas, apenas coincidem num certo respeito literário pelo memorialista. Enquanto o diplomata é francamente elogioso ("Porque Torga procura, a cada momento, desvendar a autenticidade que o define, incluindo a sua própria identidade cultural como português no contexto que lhe foi dado viver."), Pacheco prefere desmontar a pose e artifícios de Torga, ainda que usando de alguma complacência simpática de colega das letras.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Osmose 136

 

Costumo arrumar os livros nas prateleiras da biblioteca por afinidades subjectivas, ou em sequência cronológica. Os do António estão junto aos meus. Torga é vizinho de Régio. Mas vi-me aflito para descobrir o único livro de Casimiro de Brito (1938-2024), Corpo Sitiado (Iniciativas Editorias, 1976), que tinha, para além da plaquete canto adolescente inserta no conjunto poesia 61, que abordei no Arpose, em Bibliofilia 36 (2/9/2010). Casimiro de Brito (recentemente falecido) estava arrumado, mal, junto a Pedro Tamen. Rectifiquei: pu-lo ao lado de Gastão Cruz (1941-2022), outro dos 5 poetas que, com Luiza Neto Jorge (1939-1989), eu privilegio desse grupo geracional.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Marcadores 31

 


Nem de propósito e na véspera dos 50 anos sobre a passagem do grande dia da Democracia portuguesa, chegou-nos de uma boa Amiga um conjunto temático de marcadores com motivos alusivos ao 25 de Abril.
Com alguma dificuldade, fiz uma escolha de apenas alguns que mais me diziam para pôr em imagem.
Um bem haja à gentil Amiga, que se lembrou de nós e da efeméride a celebrar amanhã.





sexta-feira, 22 de abril de 2022

Osmose 124



Creio que aquela ideia peregrina de que o poeta era, muitas vezes, um ser amaldiçoado, fez a sua carreira, mas hoje deixou de ser um dogma, até mesmo para os leigos na matéria. Exemplos como Villon e Verlaine eram usados e citados, a má estrela de Camões e Nobre, entre outros, era utilizada como abono da desgraça. Mas o atenuar do romantismo ajudou a uma certa sanidade e normalidade para abordar os poetas como homens comuns, sujeitos às mesmas vicissitudes de outros seres humanos.
Ainda há pouco tempo (1981), no entanto,  Miguel Torga (1907-1995), na sua introdução à Antologia Poética, escrevia: "É um duro ofício, o do poeta. Começa por ser uma vocação irreprimível e acaba por ser uma penitência assumida. A fatalidade e a voluntariedade inexoravelmente conjugadas no meu destino carismático e aziago que só encontra sentido na fidelidade com que se cumpre."



Assim, não me custa a aceitar que os poetas da "Presença" possam ser ainda incluídos no Romantismo.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Osmose 114


Haja empatia, mesmo que irracional, delicadeza por um ocasional primeiro contacto ou afinidade, e todos acabámos por nos darmos a conhecer, mais ou menos, quando em convívio. Às vezes, errámos, por benevolência, excesso de democracia, caridade ou ligeireza: vem ao grupo alguém que não tem nada a ver connosco, e que, por gentileza urbana, inicialmente, não temos a coragem de sacudir... Tentamos dar a entender a inconveniência dos seus propósitos, por pequenos sinais, mas a limitação mental do freguês (ou freguesa), que é bronco, impertinente ou burgesso, não lhe permite perceber e, por isso, não nos desampara a loja, de imediato. Ou porque gosta de se fazer ouvir noutros universos, que não são os seus, nem serão nunca.
Como diria Torga à filha, a propósito de VGM: quem compra o campo, também compra as pedras.

domingo, 30 de junho de 2019

Voltar atrás... e reler


Por razões alheias, repeguei, folheei e reli algumas palavras de Miguel Torga (1907-1995).



Quando, por causas muito diversas, perdemos tempo a ler tanta burundanga e literatura de terceira ordem, não deixa de fazer bem à saude ir reler alguns clássicos da nossa terra - é outra louça!


Aqui deixo o prefácio de Miguel Torga à quarta edição de Bichos (Coimbra, 1946), com a esperança de que sirva de aperitivo e tentação aos Amigos e Seguidores do Arpose.
Mas também que sirva aos zoilos, que aqui chegarem por acaso, para emendar a pontaria...


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Pinacoteca Pessoal 142


Se por vezes basta um único poema (assim Diotima, de Alberto Lacerda, por exemplo, ou Bucólica, de Torga) para nos fazer lembrar um poeta,  para sempre, e respeitá-lo, assim pode também acontecer com um único quadro, que nos desperta e motiva a conhecer a obra de um pintor, que desconhecíamos, até aí. Assim me aconteceu com a tela Lago Keitele, pintada pelo finlandês Akseli Gallen-Kallele (1865-1931), em 1905.


De uma família da média burguesia, Gallen-Kallele, cedo abandonou a Finlândia, fixando-se em Paris, no ano de 1884. Mais tarde, em 1894, vai para Berlim. Apesar de se integrar a escola do Simbolismo, inicialmente, liga-se ao grupo expressionista alemão Die Brücke, que acaba por influenciar a sua obra posterior. São também notáveis os seus trabalhos de ilustrador, nomeadamente, os que foram feitos para o livro Kalevale, do poema épico finlandês. Numa perspectiva nacionalista acentuada, dominante, na época.


Não queria deixar de fixar em registo, finalmente, uma tela que aprecio do período simbolista de Gallen-Kallele, intitulada O Rapaz e o Corvo, executada no ano de 1884.


Creio que por estes exemplos, nas imagens, se pode perceber o meu gosto por este pintor finlandês, talvez pouco conhecido...

sábado, 16 de setembro de 2017

Divagações 125


Eu creio que os escritores, ditos regionalistas, estão em queda livre, nas preferências dos leitores.
E também sempre achei que Aquilino Ribeiro (1885-1963) estava para a Beira Interior, assim como Tomaz de Figueiredo (1902-1970) se posicionava para o Minho. Sem comparar qualidades.
O que eu não esperava, é que pudesse vir a comprar, em S. Martinho de Anta, e sob o alto patrocínio de Miguel Torga (1907-1995), um voluminho simpático e bonito sobre a vida e obra do autor de Nó Cego (1950). Mas assim foi, e bem, que o livro é merecedor e o romancista bracarense, também.



Conheci-o, de vista, já lisboeta adaptado, em meados dos anos 60, no Café Ceuta (Av. da República), perorando a uma mesa do canto, entre o poeta Mendes de Carvalho (1927-1988) e a, depois, actriz, Maria do Céu Guerra (1943). Falaria do Minho, com certeza, e das suas andanças passadas, dos seus cães e caçadas, mas também da sua meninice, naquele seu muito próprio vocabulário antigo e riquíssimo de que os seus livros estão engrinaldados. Eu não trocaria os seus Tiros de Espingarda (1966) por quantos tordos já se publicaram; nem o Dicionário Falado (1970), interessantíssimo, eu trocaria pela prosa deslavada do mãezinha caxineiro. Que a prosa de Figueiredo é como prata de lei... Desconto-lhe a poesia, que é fracotinha.



Pois, do Centro Miguel Torga, lá trouxe esta monografia sobre as andanças de Tomaz de Figueiredo, para matar saudades do seu linguajar minhoto, genuíno. E fiz muito bem. Regalei-me...

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Sacro e profano (1)


Em três manchas rochosas acachapadas à terra, bem perto da Sabrosa vinhateira e do pequeno centro xistoso evocativo de Miguel Torga, marca terreno, em toda a sua rudeza, o chamado Santuário de Panóias. Pelas inscrições romanas e gregas se fica a saber ter sido mandado fazer, entre os séculos II e III D. C., pelo senador Gaius Calpurnius Rufinus. Para celebrar os Deuses Severos, que tinham em Serápis, o nome maior. As aberturas geométricas, nas rochas, destinavam-se à imolação dos animais, para aplacar a ira dos deuses. E por ali correu sangue de pacíficas vítimas, sacrificadas pelos humanos primitivos.
Eramos apenas 4 os visitantes, a calcorrear o terreno agreste. Que a horda dos turistas, na sua algazarra babélica e lumpen, se tinha ficado, felizmente, pela invasão desordenada de Aveiro e dos seus moliceiros, com passeios fluviais de 45 minutos, a 10 euros. E o silêncio sagrado abençoava Panóias. Também nas redondezas se tinham acabado de colher as uvas brancas: a Formosa, a Viosinho, a Fernão Pires, a Códega do Larinho... Mas as tintas, esperavam e espreitavam ainda, por entre as parras verdes, através do que pareciam os seus olhos de cachos negros: Tinta Roriz e Touriga Nacional, principalmente.
Também nós viríamos a sacrificar, à mesa, mais tarde, e em Vila Real, alguns nacos de vitela, civilizadamente. Acompanhados por um divino e aromático branco duriense da região, bem fresco. Em ágape solene, fraternalmente amiga, mas laica...

domingo, 6 de março de 2016

Filatelia CXI (e algumas memórias avulsas...)


São sempre muito raras as folhas completas dos selos clássicos portugueses, bem como as das ex-colónias. Esta, que ora se apresenta em imagem, do selo de 50 réis (azul), pertence à segunda emissão (1881-85) dos selos de tipo Corôa, das ilhas de S. Tomé e Príncipe. Com os seus 28 selos e em muito bom estado, foi comprada em 1978, num afável e sabedor comerciante filatélico, que tinha escritório na Baixa de Lisboa. Creio que nascera em Óbidos, morava no Algueirão, e já faleceu. Dava pelo nome de Adelino Cardoso, era muito culto, coleccionava primeiras edições de Eça de Queiroz e tinha quase toda a obra de Miguel Torga, autografada.
Voltemos ao início. Uma folha inteira de um exemplar filatélico (neste caso, o nº 14 de S. Tomé e Príncipe, pelo catálogo Ateneu/Afinsa) permite um estudo mais detalhado e, sobretudo, verificar as variedades e a sua localização em folha. Consegui detectar 6 variantes do cunho I, a que a folha pertence, e no denteado 12 1/2. Por informação de Adelino Cardoso, esta folha de selos de S. Tomé e Príncipe, teria pertencido à valiosa colecção do 5º Duque de Palmela, Domingos de Sousa e Holstein Beck (1897-1969), que tinha sido embaixador na Grã-Bretanha. Parte dos selos teriam sido comprados em Londres, na conhecida firma filatélica Stanley Gibbons.
A colecção (ou parte dela) foi, depois, por alturas de 1975, vendida pela família Holstein, em Espanha. Parte dela, posteriormente, terá sido recomprada por um comerciante luso-espanhol, que a revendeu, já residualmente, a Adelino Cardoso. E, foi deste modo, que esta folha íntegra de selos de 50 réis, de S. Tomé e Príncipe, me chegou às mãos...

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Da leitura (5)


Há muito que a leitura de um conjunto de avaliações críticas, sobre literatura e autores portugueses, não me dava tamanho prazer. O que hoje se faz, tirando um reduzido número de críticos que se poderá contar pelos dedos de uma mão, é uma espécie de reprodução das badanas, sem critério algum e muito menos conhecimento de história literária. Para não falar da proliferação de blogues pretensamente literários, encapotadamente pagos por editoras, ou que se vendem na miserável e mediocre esperança, pequenina e paroquial, de receberem uns quantos livritos, como recompensa do seu frete pindérico e mercenário. Daí eu não me admirar de tanto sucesso literário conseguido por esse trabalho de sapa e pela eterna ausência maioritária de sentido crítico de grande parte dos ledores portugueses. Análise ou crítica literária, hoje e em Portugal, quase não existe: é como procurar agulha num palheiro...
Por isso este Régio, Casais, a «presença» e outros afins, de Jorge de Sena, publicado em 1977, me está a dar tanto prazer de leitura. Com o sabor de reencontro de uma voz amiga, sólida, que nos chega do passado, nos enriquece, nos faz pensar e nos traz a visão lúcida de quem sabia ler e distinguir a qualidade. Aqui vai um bocadinho de um dos textos de Sena:
"...Para muita gente, Régio atingiu sempre uma altitude espiritual que Torga não pode disputar-lhe; como, para outra, Torga possui uma humanidade imediata, feita de espontaneidade vital, de rudeza «telúrica», de vivência das serranias, que Régio não abarcava. O religiosismo de Régio, num país onde a poesia de índole religiosa descera ao nível das cantigas de sacristia, repugnou sempre à onda do livre-pensamento, e suscitou sempre desconfiada antipatia dos católicos - e daí que a sua consagração tenha, em grande parte, advindo dos meios universitários de tradição positivista ou agnóstica, que são hipóstases de uma análoga atitude da burguesia prudente que, por outro lado, encontrou, em Régio, e sem compromissos, as alegorias e símbolos da sua educação católica. E a pretensa espontaneidade de Torga oferecia ao anticulturalismo dos anos 30 e 40, um sabor da terra, de primitivismo, de força viril e exterior, que fazia esquecer quão obsessivamente individualista ele é também, fechado, tanto como Régio, na contemplação menos da personalidade profunda que da exemplaridade genial do indivíduo eminente. Que ambos poderiam ter existido sem Pessoa ou Sá-Carneiro até tecnicamente - apesar da maestria indiscutível de ambos - é quase inteiramente a verdade: e tão verdade que, tanto um como outro, foram sempre, até hoje, muito reticentes em proclamar em público a grandeza de Fernando Pessoa. ..."

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Politicamente incorrecto


Que fiquemos bem claros: é de saúdar a entrada de mais um poeta no Panteão Nacional. No caso vertente, Sophia Andresen.
Mas não deixo de me perguntar como se pode medir a importância simbólica de uma figura para um país e um povo, ou a cotação comparável da obra entre artistas diferentes. Ou, circunscrevendo, de poetas. Será menor o valor da poesia de Eugénio de Andrade ou a obra conjunta de Jorge de Sena? O Nobel, e algum reconhecimento internacional, garantirão, no futuro, homenagem semelhante a José Saramago? Tenho dúvidas. Há sempre anti-corpos de contemporaneidade que excluem, no presente, a isenta triagem das escolhas. E, por isso, defendo e prefiro que as opções se façam com distância e frieza, para escolher melhor.
Ao comum da terra português, tirando talvez Saramago, os nomes dos três poetas referidos acima, pouco ou nada dirão - creio. Tive, há pouco tempo, ocasião de verificar que Torga é tutelar na memória até de lavradores transmontanos. Mas parece-me uma excepção regionalista, que não chega para regra...
Os herdeiros de Eugénio malbarataram a herança e deram cabo da sua Fundação. Embora a viúva (Mécia de Sena) tenha protegido a obra do marido, os muitos filhos de Sena não se devem preocupar muito com a glorificação do Pai. Penso que não é assim com os descendentes de Sophia. De algum modo, ainda bem.
Ou, como diz o povo: "Mais vale cair em graça, do que ser engraçado."

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Diário sucinto de umas férias, sem rede, no Alto-Douro (4)



Dos animais domésticos, sempre prezei mais os canários, pelo seu cantar, sobretudo, mas também pela elegância corporal e pelas suas cores.
28/5
Em geral, não gosto de cães, pelas muitas mordidelas que sofri na infância e minha juventude. Mas tenho uma especial simpatia pelo jovem (com quase ano e meio) Póxi, da raça Labrador (Retriever) do sr. Pedro. Quando o dono vem trazer a botija de gás a nossa casa, pela picada sinuosa que desce de Donelo, o Póxi trota alegremente à frente da carrinha, sempre uns dois ou três metros adiante. Da corrida, chega já cansado, mas parece feliz, e deita-se nas lajes de xisto, que rodeiam a habitação, ficando a resfolgar, de língua de fora e pendente. E, se lhe trazemos um balde de água do poço, bebe sofregamente até ao fim. Quando termina, olha-nos atento e parece agradecido. A sua alegria contagiante chega a mim.
11h40 - Galafura (S. Leonardo de), de Galafre, emir mouro que, segundo a tradição, por aqui construiu um fortim, em tempos imemoriais, no pequeno planalto, donde o Douro se pode ver em quatro perspectivas, bem como o Marão, ao longe. Na igrejinha do topo, em azulejos simples, um poema de Torga que, na sua discursividade prosaica, cai bem, ao ler-se, embora do Poeta transmontano eu lhe prefira a "Bucólica" ("A vida é feita de nadas...") - para mim, um dos grandes poemas em língua portuguesa.
No pequeno restaurante "S. Leonardo", com magnífica vista sobre o Douro, almoçámos um cabritinho assado, delicioso, com arroz de carqueja a condizer, acompanhado por um "Quinta dos Mattos", tinto reserva de 2008, onde entrava Tinta amarela, casta não muito frequente, por estas bandas. Serviço atento e gentil, preços justos. E, se não fora à entrada, a fotografia na parede, da múmia de Belém, que aqui refeiçoou, em 1993, na sua versão de PM, seriam tudo boas recordações... Mas que fazer?, se, daqui, não estamos longe do Cavaquistão.

Obsv: Infelizmente, não fotografámos o Póxi. A imagem é do cão mais parecido que achei na net...

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Torga


Seria quase um sacrilégio, estando no Alto-Douro, não falar de Torga. Porque ele é aqui uma espécie de herói regional, um santo laico, uma referência constante. E o seu nome tanto o podemos ouvir de um bancário, de uma jovem empregada de restaurante, como de um singelo lavrador.
No seu diário, em 1977, Miguel Torga gravou, para sempre: "A velhice é isto: ou chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez."

quarta-feira, 27 de março de 2013

O araújo sulista volta ao local do crime


Eu dispensava bem esta visita torpe, mas ele lá vai insistindo, por inanidade mental, por falta de inspiração a ver se encontra alguma coisa para sugar. A penúltima vez, foi aquando da morte de Óscar Lopes. Mas, hoje, achei piada às, preguiçosas de intento, search words que dirigiu ao Google. Assim mesmo:
"torga escreveu no diário IV um pequeno poema que chamou fado do limoeiro" (sic).
O pachorrento do araújo é como o Jesus Cristo do Alberto Caeiro ("não consta que tivesse biblioteca") mas, pior do que isso, é não se querer incomodar a ir a uma biblioteca pública ou à BNP. O homenzinho não quer ter trabalho e prefere, refestelado e gordinho no seu sofá, que lhe sirvam as informações numa bandeja, para depois fazer um brilharete no seu blogue (agora muito mais cheio de imagens do que de palavras - sempre dá menos trabalho, com um vídeo à mistura...), junto dos pacóvios dos seus amigos. Mas o motor de busca, que não percebe nada de citrinos, encaminhou o araújo sulista para um poste sobre Antonio Machado (21/9/12), aqui no Arpose. Lá se foi a inspiração.
Se o copista nato trabalhasse um pouco, e não fosse um plagiador por vocação, abrindo o livro de Torga, na página 157, havia de encontrar o poema. Muito fraquinho, de qualidade, diga-se de passagem. E, com esta preciosa informação que dou ao araújo chupista, espero que ele - ao menos, por vergonha - me desampare a loja (Blogue) de vez, e para sempre.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Bibliofilia 73 : Miguel Torga


Sabe-se como Miguel Torga (1907-1995) era arredio a oferecer obras suas, mesmo aos amigos. E, mais avarento ainda, em escrever dedicatórias, daí que os livros autografados de Torga sejam raros e muito apreciados pelos bibliófilos. Também é verdade que as suas obras foram, creio que na totalidade, sempre de edição de autor, embora impressas na Coimbra Editora. Assim, também os dois livros, em imagem, não constituem excepção. Não são raros, embora da 1ª edição, e só nos anos mais recentes, usados, subiram de preço.
A obra ou novela "O Senhor Ventura", de 1943, não foi grande sucesso e demorou imenso tempo a esgotar-se. Nos últimos anos de vida, Torga reescreveu a novela, porque a achava imperfeita. O meu exemplar, novo, comprei-o, em Guimarães, vinte anos depois de ter saído, por Esc. 12$50. Quanto à primeira edição de "Vindima" (1945), também não teve um sucesso imediato, mas vendeu-se melhor e esgotou-se mais rapidamente. O romance, usado, comprei-o no Porto, nos finais dos anos 60, na Livraria Académica, por Esc. 100$00.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

"Polas ribeiras dum rio..."


No cofre-forte, que era biblioteca, não se encontrava Bernardim nem Sá de Miranda, mas havia Camões, Torga e Botto, os dois últimos em primeiríssimas edições. E, como jóia da coroa, um pequeno fragmento iluminado do índice do "Leal Conselheiro", manuscrito, muito embora D. Duarte nunca por ali tivesse andado, que ele era mais de Leiria e do Lis, de Belas e da melancolia.
Da ampla sala, por cima dos livros, víamos do Guincho, quase até ao Cabo da Roca, que se adivinhava: todo o horizonte largo era de mar. Bernardim dissera: "Hiasse polas ribeiras...". E, realmente, antes, tinhamos passado pela ribeira de Barcarena, com nevoeiro, a da Laje, por entre chuviscos, a de Caparide, e já se viam embrulhados em neblina os píncaros de Sintra. No regresso, passaríamos ainda pela ribeira das Vinhas, que mal se via da estrada.
Vegetação acachapada e rasteira que ia crescendo, gradualmente, até se ver Lisboa, onde as ribeiras engrossavam o Tejo, para ele se entregar ao mar, no fim de tudo.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A heterodoxia de Eduardo Lourenço



O livro começa assim: "O mundo da cultura portuguesa arrasta há quatro séculos uma existência crepuscular." A obra Heterodoxia I foi publicada por Eduardo Lourenço (1923), com apenas 26 anos, em Coimbra, no ano de 1949, numa pequena tiragem de 500 exemplares (o meu tem o número do meio: 250), numerados e assinados. Este primeiro volume foi dedicado a Miguel Torga. O volume II saíria, também em Coimbra, em 1962.
O livro foi uma pedrada no charco e ainda hoje mantém actualidade e importância. Num país maniqueísta onde, ou se pensava excessivamente à direita ou irredutivelmente à esquerda, a obra abria um trincheira em terra de ninguém, pugnando para que se lutasse e pensasse por si mesmo. Nos tempos actuais, em que tudo se pretende estandardizar, este propósito simples é cada vez mais importante. Para garantir liberdade de espírito.
Eduardo Lourenço completa hoje 89 anos.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Livros defesos



Para as gerações de hoje poderá parecer pouco crível que, no passado e em Portugal, se proibissem e apreendessem livros e, até, se instaurassem processos (políticos) a muitos escritores nacionais. Mas isso era comum, no período do Estado Novo, e até Abril de 1974. Para não falar  de livros estrangeiros que, só clandestinamente, cá entravam e eram vendidos, à socapa e por baixo da mesa, a pessoas de confiança. Era o caso, por exemplo, das edições Maspero, francesas. Ou das traduções de alguns autores estrangeiros, como Sartre, Roger Vailland e do seu proibidíssimo "Um homem do povo na revolução".
Aquilino Ribeiro, por causa do seu "Quando os lobos uivam", foi a Tribunal, sendo a 1ª edição da obra completamente apreendida. A segunda edição, só veio a sair no Brasil. O mesmo aconteceu a Torga: os "Contos da Montanha" foram proibidos, e a segunda edição só viu a luz no País-irmão, através da editora Pongetti. Também os "Cadernos", da Dom Quixote, de teor político, foram objecto de razias persecutórias. E José Vilhena, escritor humorístico, muito em voga nos anos 60 portugueses, também foi posto no Index, mais pelas brejeirices do seu humor, do que por razões políticas.
Mão amiga fez-me chegar, há dias, um artigo do jornal Expresso de 21/4/12, sobre este assunto, e muito bem documentado, na referência que faz a um estudo de José Brandão, sobre a censura literária do Antigo Regime. Lá aparece o top-10 dos sacrificados: autores e editoras. Vilhena vem à frente. Em terceiro lugar aparece Tomás da Fonseca, autor de quem nunca li nenhum livro. Outra surpresa, para mim, foi Orlando Costa (pai de António e Ricardo Costa), autor de "Podem chamar-me Eurídice", que também foi vítima desta sanha censória.
Registe-se que o regime intensificou, gradualmente, a repressão sempre crescente. Dos 12 títulos apreendidos, em 1933, nos anos 70 o número de livros proíbidos ultrapassou a centena.

com agradecimentos a H. N..