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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Desconversando


A produtividade do trabalho intelectual raramente compensa, nem a boa vontade, de cujas intenções está o inferno cheio. Deus, no entanto, transformou o nada em tudo, durante apenas uma semana (depois de ter criado o tempo finito?), num recorde de produção divina, impaciente.  Ou, talvez, num desespero de solidão metafísica. Compreensível, aliás, para um sem-familia.
Depois, descansou eternamente, ao que parece.
E vai-se vendo, sobretudo, após o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim - tudo tem aquecido imenso. E a chuva, caprichosa, faz negaças, continuamente. É o diabo! - como dizia o outro.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Escultura e Pintura, segundo Alain



São reflexões porventura polémicas, estas que vou citar e traduzir de Alain, incluídas no seu livro "Système des beaux-arts" (1926), mas, pelo menos, dão que pensar, até para situarmos, melhor, a nossa opinião. Seguem:
"A escultura imita a parte mais real dos objectos, que é a forma, desprovida do movimento e da cor; assim uma estátua, em si, é uma fonte de aparências, mas purificadas; (...) Naquilo em que a pintura se opõe à escultura, uma vez que ela imita, pelo contrário, toda a aparência do momento, traduzindo a forma unicamente pelo contorno sobre um plano, a cor, o claro e o escuro. (...) Assim exprimindo o objecto por um só dos seus aspectos, acaba aí esta procura de aparências (...) Tal é a primeira abordagem da pintura, e não é pouco. A escultura deixa-nos mais livres, e aconselha-nos apenas; o pensamento regula aqui a atenção, escolhe a hora e o ponto, domina enfim as aparências. Em vez disso, diante da pintura é a aparência que nos cerca e nos faz parar. Este cerco (estético) que vem de fora é já uma emoção; assim as variações do sentimento contido são de alguma forma convocadas; (...) é como uma cerimónia vivida em solidão. A estátua é mais familiar. ..."

sábado, 30 de abril de 2011

Em volta do Vinho, Gastronomia, falsários e convencidos



1. Os jornais noticiaram a morte, ontem (29/4), de David Lopes Ramos (1948-2011), conceituado gastrónomo e probo crítico de vinhos que, no suplemento "Fugas" do jornal "Público", durante anos, educou o nosso gosto e paladar para melhor apreciarmos o que de bom temos na nossa cozinha e enologia. Com José Quitério, João Paulo Martins, José Salvador e Luís Ramos Lopes, pertenceu a uma geração notável que nos chamou a atenção, de forma isenta e desinteressada, para a rica gastronomia e vinhos nacionais. E, assim, também para que os nossos produtos melhor se aperfeiçoassem.

2. No melhor pano cai a nódoa - diz o povo, e com razão. A conhecida Christie's parece que meteu o pé na poça... Em 5 de Dezembro de 1985, a casa leiloeira inglesa vendeu uma garrafa de Château Lafite 1787, gravada com as iniciais "Th. J.", pelo astronómico valor de 156 mil dólares, a Malcom Forbes, da revista "Forbes". Segundo indicações da casa leiloeira, o vinho teria pertencido a um lote adquirido pelo 3º presidente americano, Thomas Jefferson, grande apreciador de vinhos franceses. Ora, recentemente, veio a verificar-se ter sido uma fraude, falsificada por Hardy Rodenstock. E não é que os reputados críticos Robert Parker, americano, e a inglesa Jancis Robinson, naquela época (1985) também apoiaram, involuntariamente, o falsário?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Pinacoteca Pessoal 2 : Laocoonte


O grupo escultórico Laocoonte teve vida atribulada, mas nos, quase, 2 últimos séculos descansa, finalmente, e pode ser visto no Museu do Vaticano. A estátua, que é já referida por Plínio, o Velho, esteve perdida mais de 13 séculos. Em 14 de Janeiro de 1506, foi (re)descoberta por um lavrador que tratava da sua vinha, numa zona, onde teria sido o Palácio do Imperador romano Tito. Embora com falta do braço esquerdo de Laocoonte, o papa Júlio II logo a adquiriu, pela sua beleza. Plínio atribuía a sua autoria, em conjunto, a Agesandro, Atenodoro e Polidoro.
Em 1799, Napoleão levou o grupo escultórico para o Louvre, em conjunto com outros despojos de guerra. Mas, em 1816, após a derrota definitiva de Napoleão, a magnífica estátua foi devolvida ao Vaticano. Em 1957, o braço esquerdo de Laocoonte, que faltava no grupo escultórico, foi encontrado à venda num antiquário, e comprado. Estava na posição exacta que Miguel Angelo lhe atribuira, previsivelmente, em Janeiro de 1506. Laocoonte e os seus filhos, cujo tema se inspira na Guerra de Tróia, é uma das estátuas que mais aprecio, do período da Antiguidade Clássica. Por isso o quis evocar, hoje, nesta Pinacoteca Pessoal.