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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Registe-se...


... com agrado que o último Le Monde des Livres (31/1/2020) dedica a sua primeira página à tradução francesa do livro de Mia Couto (1955), "Les Sables de l'Empereur" (As Areias do Imperador). Com uma recensão crítica muito favorável, de Gladys Marivat.
A versão francesa do romance foi trabalhada por Elisabeth Monteiro Rodrigues, e saiu com a chancela da editora Métailié.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Mia Couto no TLS


Eu não poderia deixar de registar o facto.
Creio que é a primeira vez que vejo e leio, no TLS (nº 6058), um texto de colaboração de um escritor de língua portuguesa. Traduzida para inglês por Miranda France, a crónica de Mia Couto (1955) aborda as consequências nefastas para a sua terra natal (Beira, Moçambique) do recente ciclone Idai. Mas faz também referências às suas recordações de infância, aquando da passagem (1962)* do ciclone Claude, pela Beira, que lhe deixaram impressões terríveis e imorredouras.
Só lamento que esta inesperada crónica, originalmente escrita em língua portuguesa, tenha surgido pelas piores razões, no jornal literário britânico.
Numa perspectiva muito secundária, dou-me a pensar que, das ex-colónias portuguesas, é Moçambique (bem como Cabo Verde), proporcionalmente à população, que detém o maior número de artistas e escritores de qualidade e a nível internacional. E desde há muito. O maior novo país, Angola, no passado, só pode responder com Luandino Vieira, praticamente. Embora, hoje em dia, Agualusa e Pepetela possam também ser citados. Não refiro Ondjaki, porque não conheço a sua obra, suficientemente.

* Em tempo (24/5/19):
   no último TLS (nº 6059) e em carta ao director, Eugénio Lisboa (1930) corrige Mia Couto, referindo que o ciclone Claude passou por Moçambique em Janeiro de 1966, e não em 1962.                             

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em torno de uma fotografia


Por que se calam os poetas?
Eu diria que por várias razões, como dizia Camus, a propósito do suicídio, que ele apontava ter, normalmente, mais do que um motivo. Mas voltando à questão inicial, creio que os poetas emudecem por já ser ralo e intermitente o fiozinho de água que lhes resta (como disse, poeticamente, Vergílio Ferreira, por outras palavras), por amor ao silêncio (referido por Eugénio de Andrade, num arroubo confessional, em entrevista), mas por desencanto, também. E tão só pela simples desaparição física - método mais frequente e natural.
Pensei, hoje, em Antonio Gamoneda, em Echevarría, em Manoel de Barros, como poetas que me apetecia reler. Como poderia ter pensado em Sá de Miranda ou Ruy Belo. Porque me vão sempre dizendo coisas novas, apesar de os já ter lido muitas vezes. E também me lembrei de um Amigo.
A fotografia serviu apenas para fechar o círculo virtuoso.

para A. de A. M..

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Divagações 122


Eu creio que já por aqui falei do meu fastio pela ficção, ultimamente. Da desaparição súbita da minha necessária suspention of disbelief, de que falava Coleridge, e que me acompanhava desde tenra idade (à partida, inocente, e depois consciente), para entrar, sem condições prévias, na leitura das coisas imaginadas e das mentiras fascinantes de enredos que entretêm e empolgam. Ou mesmo, nessas histórias rústicas com que a Maria, afectuosamente, me povoava os minutos, pouco antes de eu adormecer, na infância, com aventuras de lobisomens do Marão, que iam a par das imagens dos monstros pacíficos dos barros geniais de Rosa Ramalho. Porque o Minho, aqui há 60/70 anos, era assim, muito naturalmente - honra lhe seja!
A História, o Ensaio, a Poesia iam sendo, exclusivamente, as minhas leituras. Dos vivos, sobravam Mário de Carvalho e Mia Couto, em prosa portuguesa, e pouco mais. Dizia, para mim: estás cada vez mais esquisito e elitista! Mas nem por isso concordava com o meu grilo falante. E tentava, heroicamente, lutar contra esse fastio, esse tédio que me provocava a ficção. Se calhar, ocasionado por esta nossa época repugnante de post-verdades, em que até os políticos ficcionam abusiva e excessivamente, a realidade dos dias e das coisas mais banais. Até porque eu já tinha a minha conta, em altura própria, do pioneiro Pessoa, em matéria de poesia.
Um destes dias, li (Expresso? Público?) uma crítica efusiva e épica ao livro mais recente da Elena Ferrante portuguesa (parecida, talvez, pelo pseudónimo e discrição, que não pela qualidade literária, por certo). Crédulo, anotei, fiquei atento e pus-me em campo, como em jeito de esperança salvífica. Proporcionou-se, anteontem, passarmos por A Escriba, nossa livraria de referência (passe a publicidade, mais que merecida), pequeno espaço, mas onde encontrámos sempre aquilo que de mais importante se vai publicando em Portugal. Displicentemente, perguntei à Dona se tinha algum livro de Teresa Veiga. Que sim: havia três obras da ficcionista. Céptico embora, folheei os livros e, por uma questão de segurança, escolhi o mais barato que, por acaso era o segundo da escritora. Paguei, por ele, 12 euros.
Depois, foram dois dias de penosa e desgostante leitura. Um sacrifício de obrigação, embora o livro esteja razoavelmente escrito: a tal escrita bem sucedida, mas que não é, em definitivo, literatura. Além de que o enredo das duas novelas é de uma pobreza confrangedora, embora a puxar ao fino, assim entre a Junqueira, Belém e Cascais, de outras eras, fora a serra de Monchique, das termas, e Albufeira, metendo uma Florbela Espanca muito pouco convincente, pelo meio, que até começa a gostar da poesia de Emily Dickinson - imagine-se. Acabei o livro hoje, com grande mortificação das meninges. E achei que bem merecia uma necessária compensação pelo sacrifício. Por isso, retirei da estante um Simenon, para reler. Porque, o gosto e o prazer - sei - serão garantidos. Apesar da ficção...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Opinião, memórias e recensões


Vem, hoje, no Diário de Notícias, um registo de memórias de Mário Cláudio, sobre Eugénio de Andrade, que eu recomendo vivamente. É despido de preciosismos saudosistas, mas documenta uma verdadeira amizade, que não se abstinha de reflectir sobre o Outro, mesmo quando negativamente.
O penúltimo TLS (nº 5889) traz dois artigos sobre Portugal. Num deles, faz-se referência ao livro Global City, a propósito de Lisboa no século XVI; no outro, vem uma recensão sobre um livro de Mia Couto, recentemente traduzido para o inglês. Em ambos se fala do passado colonial português.
Mas Landeg White (1940), na recensão sobre a obra de Couto, permite-se algumas considerações que me parecem sem sentido, para não dizer, disparatadas. Passo a traduzir o início e o final da recensão:
"Wole Soynka e o falecido Chinua Achebe foram classificados com escritores Nigerianos, assim como escritores Africanos, sendo ambos escritores post-coloniais (depois de uma breve caracterização classificativa de escritores da Comunidade) (...) Mia Couto, que nasceu na colónia de Moçambique, filho de imigrantes portugueses, tem sido desde o início da sua carreira um premiado «escritor Lusófono». Portugal nunca tendo descolonizado mentalmente (a expulsão das colónias é uma experiência bem diferente), o espaço que o artista ocupa é ambíguo. (...) Quando Couto acrescenta que os escritores Europeus nunca foram desafiados para tais assuntos, há que perguntar em que mundo é que ele vive."
Francamente, não percebo a ideia deste crítico literário do TLS (que parece que também é poeta)...

sábado, 1 de junho de 2013

Três andamentos, com glosa final


1. Era uma vez um menino que nasceu cego para as coisas da terra. Só via o mar e o que nele havia. Sabia caminhos nas águas, carreirinhos. Dizia: a luz nasce do mar e não dos astros. A claridade lhe chegava do azul, ainda molhada e, depois, flutuarejava nos céus. (...)
2. De tanto esperar o amor, ele acabou por amar a espera. Era Horácio, de olhos inodoros, vida acanhada e sonhos aguados. Tímido e desencorpado, ele era um subexistente. Os outros arrumavam-se com as namoradas. Horácio não, solteirava em estado de deserto sensual. (...)
3. Eu estava cheio de um desses cansaços que nos pesam mais que o corpo. Cansado de ter raça, cansado de ter nome. Estava cansado de ser. Que repouso concedermo-nos nestas alturas senão darmos feriado à existência? E era o que eu estava a dar seguimento naquele dia, fugindo-me do mundo, dando pausa ao pensamento. (...)

Este último Prémio Camões que, merecidamente, galardoou a obra  do moçambicano Mia Couto (1955), como que me sabe a celebração póstuma de Guimarães Rosa (1908-1967). Porque, queiramos ou não, é esse arquétipo que é convocado, embora num registo pessoal e africano. Mia Couto não deixa de ser um filho directo e dilecto do grande escritor brasileiro de Cordisburgo.

Nota: as transcrições são retiradas da obra "Cronicando" (Ndjira, 2008), de Mia Couto.

sábado, 9 de março de 2013

Anti-adagiário : modo de usar


Frequentemente, num rifoneiro, encontramos um provérbio afirmativo sobre determinado assunto, e o seu contraditório, mais à frente, na mesma obra. Ou seja, outro ditado que contradita o primeiro, afirmando o contrário. Como se fora uma tentativa de, ocupando todo o espaço das hipóteses, a sabedoria (popular) fizesse o seu pleno, de forma a que a verdade não se escapasse, nunca.
Talvez apercebendo-se deste aspecto singular, Mia Couto (1955), num pequeno conto do seu "Cronicando", glosa, na esteira e estilo de um Guimarães Rosa, com ironia, o facto. Manipulando vários provérbios, em metamorfose subtil de palavras, cria como que um anti-adagiário credível, que propõe ao leitor. Mas dêmos-lhe a palavra, através do parágrafo inicial da crónica "Sangue da avó, manchando a alcatifa":
"Segue-se o improvérbio: dá-se o braço e logo querem a mão. Afinal, quem tudo perde, tudo quer. Contarei o episódio, evitando juntar o inútil ao desagradável. Veremos, no final sem contas, que o último a melhorar é aquele que ri. ..."

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Os dentes e a alegria


Embora o magistério de Guimarães Rosa seja notório por entre estas palavras de Mia Couto (1955), do pequeno conto "A sombra sentada", aqui ficam algumas linhas que não desmerecem o Mestre. Seguem-se:

"...E riu-se, mostrando a boca desguarnecida. Corrigiu o riso com as costas da mão.
- Os dentes me faltam só para rir. Se mesmo tivesse os todos, já nem tinha serviço para dar-lhes. Agora engulo o quê? Saliva só, mais nada.
E explicou-se: a vergonha do riso. Alegria deve ser mordida, enrolada. A alegria pede a letra erre. Rir sem dentes é como beber cerveja sem espuma. Desta vez fui eu que sorri.
- Estou a falar - disse ele. - Qual é a competência do riso desdentado?..."

Mia Couto, in Cronicando (pg. 12).


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Graciliano, e famílias


Já o disse, aqui: quando um livro me agrada muito, saboreio-o devagar, tentando prolongar, por mais tempo, esse prazer da leitura. Tem sido o caso de "Infância", de Graciliano Ramos, que tenho vindo a devorar lentamente. E que considero uma obra-prima da língua portuguesa.
Há dias, ouvi Mia Couto confirmar, numa entrevista, o que eu já sabia ou pensava. Que João Guimarães Rosa era um dos seus escritores preferidos, e um dos seus Mestres. Bem como referiu que Luandino Vieira lhe tinha confidenciado, também, a enorme admiração que tinha pelo escritor brasileiro de Cordisburgo. Também já eu tinha suspeitado - os vestígios são evidentes. Mas Rosa não existiria, assim como o conhecemos, se não houvesse, atrás, um Graciliano Ramos. Como Aquilino não seria o mesmo, sem Camilo ter acontecido e escrito, antes. Há sequências de ADN e sangue, até mesmo em literatura. Numa continuidade progressiva.
Esta pequena história de "Minha irmã natural", apenas um pequeno capítulo do livro "Infância", de Graciliano Ramos, é uma pérola. Deixo o início, em imagem, como isco, ou para aguçar o apetite.

P. S.: faço votos para que algum dos visitantes do País-irmão, que representa quase 40% das consultas ao Blogue, ao ler este poste - e não conhecendo Graciliano Ramos -, se tente. Ganhará, certamente, muito mais, do que a ler Paulo Coelho, ou a perder tempo com outras burundangas que são o mainstream literário dos tempos que vão correndo... Felizmente, "há mais mundos", como dizia José Régio.  

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sobre este nosso tempo e o medo, por Mia Couto


com vivo agradecimento a N. C., por me ter chamado a atenção para este lúcido depoimento de Mia Couto.