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quarta-feira, 2 de julho de 2025

Uma fotografia, de vez em quando... 198

 


Nos últimos anos, os melros têm sido dos pássaros mais abundantes nas nossas redondezas. Nervosos nos seus passos ligeiros saltitantes, raramente se deixam apanhar pelas objectivas. Mas este fotógrafo anónimo, que não consegui identificar, teve o seu momento de sorte...

sábado, 21 de maio de 2022

Passarada



Um melro dominante sobre o casario. Cantando ao meio-dia.

Lembrei-me dele mais tarde, já de noite, quando me pareceu ouvir, ao longe, o que parecia ser um muezim, repetindo por três vezes uma lengalenga que eu não entendi...

Veio-me assim à colação, também, a litania dos ceifeiros de Cuba, que Vitorino não desdenhou reproduzir, recantando:
"...Namorei uma rapariga,/ pares de meias deu-me dez!/ Quais, quais, oliveiras, olivais,/ pintassilgos, rouxinóis./ Caracóis, bichos móis./ Morcegos, pássaros negros./ Tarambolas, galinholas./ Perdizes e codornizes./ Cartaxos e pardais./ Cucos, milharucos, cada vez há mais..."

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Sem mais


Apesar do frio, ao alto e sem resguardo, como se fora, no mastro, uma bandeira viva, o melro desafia o horizonte limpo. Só não canta, protegendo a garganta. Ou guardando-se para horas mais temperadas e melodias mais conformes de temperaturas mais amenas à sua condição desprotegida...

sábado, 16 de junho de 2012

O horário matinal do melro


As rolas começaram a arrulhar muito cedo e, pela primeira vez, que me lembre, achei-lhes o canto monótono e impertinente - porque eu tinha dormido pouco. Depois, quando estava à espera de ouvir os melros, no seu cantar melodioso, para me aquietar, vieram os pardais na sua algaraviada imparável, buliçosos dentre a folhagem frondosa de uma árvore próxima. Dos melros, já passava das oito e meia, e nada. Mas pouco antes, quando eu saíra para comprar o jornal, tinha visto um. Jovem pelo tamanho, nos seus passinhos ritmados por pausas, mas miúdos e nervosos pela estrada sem carros à hora matutina, a bicar no chão o seu sustento, mas calado e atento: primum vivere, deinde philosophari.
Faltava muito pouco para as nove, quando ouvi o primeiro trinado, próximo da varanda a leste. O melro já devia ter o papo cheio... Chegara a vez de cantar.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Para agradecer ao melro desta manhã, e à mélroa

Noctívago e matutino


Pouco depois de eu chegar, ontem, e de abrir a janela, já ele lá estava, e acabou bem tarde. Quando o negro dele se confundia com o escuro da noite, e eu já não conseguia distingui-los. Hoje, de manhã, lá está de novo, na antena mais alta, madrugador compulsivo, no seu destino de cantar.
Aqui defronte, o melro desafia, negro e fresco, o dia macambúzio e pardo. Pausa os trinos e aproveita para afiar o bico no metal da antena, mas não pára de cantar. Parece dono do horizonte. Foi pena que Josquin Des Prés não tivesse, na canção, substituído o grilo por: o melro "é bom cantor"...
Imagino, porém, que deve haver uma mélroa dedicada que lhe vai fazendo o trabalho de casa. Ou arrumando o ninho, para que ele possa cantar assim livre de cuidados e tão despreocupado.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

6 motivos para 1 cenário


O melro negro que, do mármore branco,  vai para a chaminé.
Uma leitosa neblina sobre o rio.
A gaivota sobrevoando, alta.
Um fiozinho de música que vai pela manhã, como uma voz sem sílabas.
Alguém que se debruça na janela, para ver o rio.
O melro que levanta, em direcção ao dia.

para c. a., que gosta de melros. A cantar.

sábado, 17 de setembro de 2011

Carta de alforria para os melros


Pequenas coisas ou aptidões podem salvar uma vida. Nos campos de concentração nazis, por exemplo, houve judeus a quem pouparam a vida, por serem bons músicos e para continuarem a tocar.
No anterior Governo- soube por intermédio de c. a.- foi alargado aos melros o regime de caça. Até aí era proibido caçar estes Turdídeos. É certo que a população dos melros tinha crescido muito, em Portugal, até mesmo nas cidades. Mas, quando foi publicada a autorização legislativa, houve um côro de protestos civis e de associações - mesmo assim, o governo de Sócrates não emendou a mão, nem arredou pé.
Recentemente, o novo Governo revogou a lei, e bem. Seja isto levado em conta positiva, para as muitas medidas negativas que tem tomado em relação aos humanos animais...
Terá pesado (quem sabe?) na decisão o cantar melodioso dos melros que, tanta vez alegra os jardins e praças das cidades, provavelmente também. Mesmo assim, com a crise e fome escondida que aí anda, será conveniente que estas aves de bico amarelo e andar furtivo se mantenham longe dos humanos, não vá o diabo tecê-las. E que não façam como os atrevidos pardais que quase debicam os nossos sapatos, ou as ousadas pombas. Seja como for, pintassilgos, melros e canários!, continuai a cantar no vosso tom melodioso e agradável, pois assim, talvez eviteis as balas mortíferas dos caçadores e a impiedade de algum ministro. Quanto aos tordos, rolas e perdizes, creio que não há nada a fazer...a menos que aprendam música nalgum Conservatório.

domingo, 2 de maio de 2010

Tricentésimo : melros e hortulanas




Acontece que, por razões de local de trabalho, frequentei com certa regularidade, durante muito tempo, ao almoço, um restaurante que, com alguma fama nos anos 60 e 70 do século passado, se desactualizou um pouco. Manteve, no entanto, ao nível de cozinha e serviço, alta qualidade e saber gastronómico. Eram os marmelos em calda, de Outubro, as galinholas, as perdizes, a lebre com feijoca, na época da caça, os sonhos pouco antes do Natal. E um arroz de grelos malandrinho, feito na altura, quase verde, que acompanhava, lindamente, o bife de espadarte. Afora as gentilezas de que era alvo, por parte do Fernando que conheci, tinha ele cerca de vinte anos, e de quem me despedi com estima, há pouco, já quarentão, os empregados foram sendo substituidos ou reformados. O Ricardo ainda aparecia, septuagenário, com o cabelo pintado, mas sorridente, quando havia mais gente ao almoço - uma festa de empresa, um aniversário. Para ajudar. Ora, um dia (talvez há cerca de 4 ou 5 anos), quando cheguei, o Fernando disse-me logo:
"- Não perca o arroz de melros! Está óptimo..."
Eu fiquei perplexo e titubeei: "...Deixe-me pensar..." O Fernando trouxe-me o cinzeiro, os salgados em miniatura, ainda mornos. E eu, cheio de problemas metafísicos e ambientais, lembrava-me do arroz de borrachos, que tanta vez comera, em pequeno. Que era tão bom e nunca mais provara. E a tentação e a dúvida mortificavam-me, gastronomicamente: nunca eu tinha comido, na minha vida, um arroz de melros. Até que disse, de mim para mim: "Se não os comeres, tu, alguém os irá comer! Já não tornam a cantar..." E disse para o Fernando:"- Arroz de melros, com Quinta de Cabriz, tinto!"
Estavam magníficos e souberam-me muito bem. Ainda hoje, no entanto, me lembro e tenho remorsos. Porque eu gosto muito de melros, vivos, e a cantar logo pela manhã... Consola-me o facto de ter exemplos superiores, em relação ao meu remorso gastronómico.
Passemos à hortulana, também chamada escrivão ou escrevedeira (Emberiza hortulana). Este pequeno pássaro, migratório, de canto ou pio relativamente simples, da família do verdilhão, com cerca de 15cm. e um peso entre 20 a 25 gramas, tem o pescoço normalmente amarelo e o ventre alaranjado. É muito apetecido desde os tempos de Roma imperial. Mas é proibida a sua caça e venda, em França, dada a raridade. Porém, nas Landes, a proibição nem sempre é acatada. Os Gascões caçam hortulanas, preparam-nas e deliciam-se com elas. A avezinha é objecto de uma engorda forçada (gavage), antes de ser cozinhada. Metem as hortulanas em pequenas gaiolas que, por sua vez, são postas em locais escuros. Para alimentá-las colocam, no interior das gaiolas, alpista, pequenos figos e grande profusão de bagas silvestres e bagos de uva, além de pequenos insectos. Em cerca de duas semanas, as pequenas hortulanas quadriplicam de tamanho dado o excesso de alimentação, o pouco espaço de que dispõem e a falta de exercício. Nessa altura, as pequenas aves engordadas são, por fim, afogadas num copo de "Armagnac" e, depois de depenadas, as hortulanas são assadas ou estufadas na sua própria gordura, entretanto adquirida.
Pouco antes de morrer, o Presidente François Mittérrand - creio que para o jantar de Ano Novo - encomendou uma das suas últimas refeições, em conjunto, para cerca de 30 familiares e amigos. A refeição era composta de ostras de Marennes, foie gras, capões. E hortulanas embora, como já referi, fossem proibidas. Dois tipos de "Sauternes" acompanharam o foie gras e as ostras. Para os capões e hortulanas foram servidos "Château Lestage Simon", de 1990, e "Château Poujeaux" de 1994. O Presidente deliciou-se, dizem. Cerca de 10 dias depois, morreu. Este sinal de apego e amor à Vida, este despedir-se da Terra antes de morrer, colhendo-lhe ainda alguns dos melhores frutos (proibidos), mesmo que comporte um pecado, um infringir de regra, encontra em mim, pecador também, um coração fraco e compassivo. E sei entender.
Embora nunca tivesse comido hortulanas.
P. S.: Para o Luís, que lembrou, há dias, a arrozada de melros do abade de G. Junqueiro.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Em louvor do melro



Convivial e citadino, ou quase rústico e campestre, o melro acompanha-me desde cedo. Já não é o de Guerra Junqueiro, nem o da Gulbenkian que foi parar a um poema de João Miguel Fernandes Jorge mas, com certeza ,um parente afastado dos dois. Quer o melro urbano que vem do antigo jardim do Conde de Farrobo e que começa a cantar, do alto de uma velha chaminé no coração de Lisboa, antes de nascer o sol; quer este, "outrabandista", que, hoje, iniciou o seu trinado antes das cinco da manhã. Quem começa assim o dia, tão de negro e laranja, deve ser feliz. Saudêmo-lo, pois, na sua jovialidade e companhia matinal!