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sábado, 12 de novembro de 2011

Uma caracterização fradesca, de V. P. V.


Não sou, nem de longe nem de perto, um fã entusiasta de Vasco Pulido Valente. Mas aprecio a forma exemplar e escorreita da sua escrita, a fina ironia, desculpando-lhe o azedume, por vezes, excessivo. Com Medina Carreira, é talvez o maior produtor de "frases assassinas" e de raciocínios agressivos, mas correctos, em Portugal. Ontem, no "Público", caracterizava, argutamente, na sua crónica, três dos mais conhecidos e angélicos (ou fradescos) políticos portugueses. Segue a transcrição parcial:
"...Só falta a Seguro o chapéu e a sotaina preta para concorrer com o famigerado jesuíta (bom ou mau, como preferirem) do socialismo romântico. Com aquela voz doce e aquele ar pesaroso vai longe com certeza.
O dr. Cavaco, que anda mais pelo frade ascético, também nos disse duas vezes que os sacrifícios deviam ser «distribuídos» com «equidade» e com justiça e que era muito feio abusar dos mais pobres. Gostava ele que todos nós, mesmo no meio da crise, conseguíssemos viver em grande entendimento, doçura e caridade. ..."

terça-feira, 31 de maio de 2011

O refrão e a máscara


Repetimos, porque gostamos. Ou quando gostamos - é uma verdade de La Palice, obviamente. E começa logo na infância. A um dos meus filhos li, vezes sem conta, à noite, a história "Berliques-Berloques", da colecção Joaninha (Contos de Encantar), muito embora ele já a soubesse, quase, de cor. Estava sempre a pedir que eu lha relesse. Mas ria-se, repetidamente, e com vontade natural. Desde os refrãos das cantigas trovadorescas, aos slogans publicitários e às repetitivas palavras-chave das piadas chungas ou das canções mais pimbas, o ouvinte está sempre à espera de "Ó pr'a ele!" ou do "pisca! Pisca!" banal, para bater palmas.
Mas há uma altura da vida em que o passivo auditor se cansa...
Ainda me lembro de Medina Carreira dizer (era ministro das Finanças), nos anos 80, que por aquele andar e gastar, qualquer dia, em vez de andar de automóvel, teríamos de andar de burro. Não chegamos a tanto, felizmente. E lembro-me, de há muito, dos apocalípticos vaticínios de pitonisa de Pulido Valente (aliás, pseudónimo, que o nome é muito mais ruano), "vago" leitor universitário na Inglaterra, espumar fel e vinagre e augurar o Inferno para o futuro português. Ainda hoje, estes profetas vomitam o que foram e disseram. Porque ficaram escravos das máscaras pessoais que criaram. Continuam a ser pitonisas da desgraça apocalipsando o futuro, e espumando fel.
Quando os ouço ou leio já sei o que vão dizer, mudam apenas, ligeiramente, os temas ou pessoas - mas vão dizer mal. Comecei, com a idade, a ficar farto de os ouvir, sempre no mesmo registo e com a mesma máscara puritana, moralista, judaico-cristã. Refrão por refrão, prefiro ir reler o "Berliques-Berloques", rir-me um pouco, desafiar o fatalismo doentio, e adormecer sossegado. Como fazia o meu filho mais novo...